domingo, 15 de junho de 2014

A COPA EM DETALHES

            Em época de Copa do Mundo, não há como preocupar com outra coisa que não seja futebol.
            A esta altura, ninguém quer saber se a refinaria de Pasadena virou alambique, se o “volta Lula” emplacou, se o presídio da Papuda foi transformado em resort, se a inflação está subindo ou se o prestígio da Dilma está baixando. O foco é a Seleção; dane-se o resto.
            Mas nem só de bola rolando é feita a Copa do Mundo. Há outros ingredientes fascinantes que também concorrem para fazer dela o evento esportivo de maior prestígio no mundo.
            Por mais que se igualem em termos de organização e realização, cada Copa tem suas particularidades, a começar pelo logotipo e pelos símbolos com as características do país-anfitrião.
            Nesta segunda edição disputada no Brasil, o logo recebeu o nome de "Inspiração". Passa a ideia de três mãos interligadas levantando o Troféu da Copa, enquanto representam a unidade das nações participantes.
A bola oficial, denominada Brazuca, tem as cores (verde, azul e laranja) e o design dos seis painéis inspirados nas fitas da sorte do Senhor do Bonfim.
Vencendo a Arara, o Saci Pererê e a Onça Pintada, o Tatu-bola tornou-se mascote do torneio. Batizado como Fuleco (junção de futebol com ecologia), seu visual é de um animal de pelagem amarela, com a carapaça em azul, vestindo calção verde e camiseta branca, com a inscrição “Brasil 2014”.
Principal peça promocional do torneio, o pôster oficial mostra duas pernas de jogadores disputando a bola, num ângulo que revela o contorno do mapa do Brasil. No destaque, a inscrição “2014 Copa do Mundo da Fifa Brasil”.
Afora esses detalhes, a Copa 2014 reúne interessantes curiosidades mostradas com a divulgação dos nomes de esportistas, treinadores e árbitros que dela participam:
- As 32 seleções inscritas incluem 736 atletas.
- Entre o mais velho e o mais jovem, há uma diferença de 24 anos.
- Na seleção da Colômbia estão o goleiro Faryd Mondragón (42) e o zagueiro Mario Yepes (39), os dois jogadores mais velhos do torneio. O camaronês Fabrice Olinga (18) é o mais jovem, seguido do inglês Luke Shaw e do americano Julian Green, ambos com 19 anos.
- Os treinadores mais velhos são o italiano Fabio Capello (68), da seleção russa, e Oscar Tabarez (67), técnico do Uruguai. Os mais jovens são o Niko Kovac, da Croácia, e o francês Sabri Lamouchi, da Costa do Marfim, os dois com 42 anos.
- A maior média de idade, 29 anos, é da seleção Argentina. A menor é de Gana, 25 anos.  A brasileira tem média de 28 anos.
- Dos jogadores que participaram da última Copa, 209 também disputam a atual.
- Setenta jogadores, árbitros ou técnicos do Mundial estarão aniversariando durante o evento, inclusive Lionel Messi, que completará 27 anos em 24 de junho.
- Vinte campeões mundiais têm chance de ser bicampeões; nenhum deles é brasileiro.
- A seleção russa é a única formada inteiramente por jogadores que atuam no próprio país. Na nossa equipe, só quatro estão nessa condição.
A lista de curiosidades tende a crescer, pois a Copa está apenas no começo. Tomara que o retorno ao assunto seja para incluir o esquadrão canarinho como o exclusivo detentor do título de hexacampeão mundial.

- Jornal de Domingo
- Diário do Rio Doce
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sábado, 7 de junho de 2014

É TEMPO DE COPA

            Volta ao cartaz, agora também na internet, o interessante diálogo entre um homem e uma mulher, sobre o hábito de beber.
            A conversa foi mais ou menos essa:
            - Você bebe? - perguntou ela.
            - Positivo - respondeu ele, sem entender a curiosidade.
            - Quanto por dia?
            - Três uísques.
            - Quanto paga por uísque?
            - Cerca de R$ 10,00.
            - Há quanto tempo você bebe?
            - Uns 20 anos.
            - Cada uísque custa R$ 10,00, e você bebe três doses diárias. Assim, gasta R$ 30,00 por dia, R$ 900,00 por mês e R$ 10.800,00 por ano, certo?
            - Certíssimo!
            Após pequena pausa, com ares Miriam Leitão, ela prosseguiu:
            - Sabia que com esse dinheiro, aplicado e corrigido com juros compostos, durante 20 anos, você poderia comprar uma Ferrari?
            Já de saco cheio, o homem perguntou:
- Você bebe?
            - Não - afirmou ela, cheia de orgulho.
            - Então, cadê a p*&&+ da sua Ferrari?
            A anedota faz lembrar o “blablablá” que se instalou em torno dos vultosos gastos com a Copa 2014.
            Previsões mais moderadas são de que eles girem em torno de R$ 33 bilhões, superando o total desembolsado nas três últimas edições do torneio.
            Grande parte da opinião pública defende que esse dinheiro seria muito mais útil se aplicado nas áreas de saúde, educação, segurança e infraestrutura.
De repente, surgiu um extenso rol de prioridades, que inclui até metrô pra lua e a navegabilidade das Cataratas do Iguaçu.
            Impossível esquecer, entretanto, que várias demandas estão reprimidas, desde a época do Império, vítimas da indiferença, da irresponsabilidade e/ou da incapacidade de sucessivos governos.
            Depois de 1950, ano em que pela primeira vez sediamos uma Copa, 64 anos se passaram. Nesse longo tempo, em outros países, aconteceram 15 novos campeonatos mundiais. 
Para estar em todos eles, o Brasil arcou tão somente com os dispêndios de rotina, como os demais participantes. Não teve que reformar ou construir estádios e aeroportos, realizar obras de apoio e mobilidade, tampouco preocupar-se com o famoso legado que todos reclamam. Em tese, a grana correspondente sobrou intata para reforma e construção de hospitais, escolas, creches, presídios, estradas e tudo o mais que a sociedade sempre esperou ter em bom nível.
Nada disso não aconteceu!
Com ou sem Copa, o social esteve sempre em segundo plano, exceto no que convém a interesses políticos. Esperar outra coisa é o mesmo que acreditar na Ferrari da piada.
Mas não é hora de chorar leite derramado, nem de misturar governo e futebol. O importante, agora, é que somos palco da Copa 2014 e que a saibamos conquistar. Melhor aqui do que lá!
 
- Jornal de Domingo

 

 

domingo, 1 de junho de 2014

LOUCOS POR FIGURINHAS

             Se para elas a disputa só começará no próximo dia 12, faz tempo que as 32 seleções da Copa vêm sendo frenética e intensamente disputadas. Seus jogadores têm sofrido implacável perseguição; o Brasil e o resto do mundo estão à sua procura.
            São os colecionadores de figurinhas, que não descansarão enquanto não os capturarem, um a um.
            Incrível como certos hábitos atravessam o tempo, sem perder a magia, o encanto e o poder de seduzir.
Os cromos da Copa 2014 mobilizam gente de qualquer idade, em várias partes do planeta. Homens, mulheres, crianças, jovens, famílias inteiras se envolveram no processo. Todos se apressam para completar suas coleções, de preferência antes de o campeonato começar. Nessa corrida, valem negociações nos pontos de troca, locais de trabalho, escolas, hospitais, consultórios, festas sociais, onde quer que seja. Até em cultos e velórios surge alguém com uma listinha na mão, perguntando pelos números que lhe faltam.
Conforme pesquisa de mestrado do paulista Paulo Cezar Goulart, as primeiras figurinhas surgiram na Europa, por volta de 1870. Vinham em maços de cigarros, igual apareceram no Brasil, duas décadas depois.
Com o passar do tempo, vinham também em balas e sabonetes, na forma de promoções tipo “achou ganhou”. Encontradas, podiam ser trocadas por pequenos brindes. Foi a fase em que, nas balas “Americanas”, começaram a surgir as figurinhas de jogadores de futebol.
Inicialmente guardadas soltas, as figurinhas só passaram a ter local próprio em 1934, quando as balas “A Holandeza” lançaram o primeiro álbum.
Na metade do último século, a figurinha deixou de ser brinde, para ser vendida.
            “Craques do Campeonato Mundial de Futebol 1950” foi o primeiro álbum brasileiro que tratou apenas de futebol; os anteriores misturavam vários temas. Estranhamente, ele foi lançado meses depois que a Seleção Brasileira perdeu o título para o Uruguai, em pleno Maracanã. Ainda assim fez sucesso.
Passada a Copa, as figurinhas deverão sair de cena, deixando saudade. Poderão retornar daqui a dois anos, nos Jogos Olímpicos, ou só no Mundial de 2018.
Sempre que surgem, criam um clima contagiante. Têm o condão de mostrar o quanto é tênue o meridiano que separa crianças e adolescentes, jovens e adultos. Chega a ponto de fazer crer que essa distinção só existe na Lei, nada tendo a ver com a personalidade e as características físicas de cada geração.
Como bem ressaltou a antropóloga Cláudia Pereira, do Departamento Social de Comunicação da PUC-Rio, “a febre (de colecionar figurinhas) está maior porque as fronteiras da idade estão cada vez mais borradas por conta da expansão da idéia da juventude. Nesse contexto, é permitido acessar a infância o tempo todo”.  Ainda segundo ela, “… é uma forma de (re)viver a infância, sem vergonha de ser feliz”.
            A propósito: faltam-me as do Kaká e do Ronaldinho Gaúcho ...

- Jornal de Domingo
- Diário do Rio doce
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domingo, 25 de maio de 2014

HAJA TUDO

            No frigir dos ovos, o mês de maio se encerra deixando um saldo positivo em Valadares.
            Logo de início (03 e 04), houve o tradicional GV Folia, carnaval fora de época que há vários anos se repete, sempre com enorme sucesso. Nem mesmo o feriadão do Dia do Trabalho, quando muita gente costuma viajar, impediu que um enorme público prestigiasse os dois dias de festa, alegria e vibração.
            Simultaneamente, a cidade era palco da primeira fase do Campeonato Brasileiro e Open Internacional de Parapente, promovido pela Associação de Voo Livre Ibituruna (AVLI) e pela Associação Brasileira de Voo Livre (ABVL), com apoio da Prefeitura Municipal.  Revestido de sucesso, o certame atraiu 140 pilotos de várias procedências, inclusive do exterior, o que confirma para Valadares a condição de capital mundial do voo livre.
            Enquanto isso, a Prefeitura finalmente desistiu de cobrir a passarela de pedestres da ponte da Ilha, obra paralisada pela Justiça. Para satisfação geral, removeu a estrutura metálica que há muito enfeava o local.
            O Dia das Mães aconteceu, como de praxe, alavancando as vendas e fazendo a alegria do comércio.
            A chegada de Dom Antônio Carlos Felix, para assumir a diocese local, foi o grande acontecimento religioso. Dom Felix, que era o bispo da cidade de Luz (MG), veio com a difícil missão de substituir Dom Werner Siebenbrok, figura das mais estimadas e admiradas pela comunidade local.  A posse aconteceu no dia 18, na Catedral de Santo Antônio, em solenidade presidida por Dom Geraldo Lhirio da Rocha, arcebispo metropolitano de Mariana (MG). Entre membros do clero, da sociedade religiosa, fiéis, autoridades políticas e militares, cerca de 5.000 pessoas prestigiaram o evento.
            No dia 12/05, numa decisão que satisfez velhos anseios de Valadares, da região, do Estado e de todo o país, a presidente Dilma Rousseff autorizou o início das obras de duplicação da BR 381, a famosa Rodovia da Morte, entre Belo Horizonte e Governador Valadares.
            Fechando o mês, com chave de ouro, a União Ruralista e o Atacadão Grupo Carrefour firmaram o contrato de negociação da área onde será erguido um dos maiores, senão o maior supermercado da cidade. Para melhorar, a limpeza e preparo do terreno já estão em curso, e o alvará de licença para a obra foi assinado no dia 23, conforme informação de fonte fidedigna.
            E como o embalo não pode parar, começam no próximo domingo as tradicionais quermesses de Santo Antônio, na Praça da Catedral, com duração até 13 de junho.
            Resta lembrar que o valadarense está em pleno clima de Copa do Mundo, pronto para o que der e vier ..., desde que seja a vitória do Brasil.
            Haja fôlego e coração para tantas emoções!
 
 
- Jornal de Domingo

domingo, 18 de maio de 2014

S.M., O CONSUMIDOR

            A polêmica em torno do funcionamento do comércio nos domingos e feriados é antiga e, pelo visto, interminável.
            As opiniões se dividem e, por mais que conversem as partes interessadas, nunca se chegou ao padrão universal de procedimento a adotar. O critério varia de cidade para cidade, de estado para estado, de país para país.  
            A questão é complexa, pois mexe com tradições, usos e costumes, princípios religiosos, interesses econômicos e sociais, enfim, uma gama de fatores a que comerciantes e comerciários se apegam na defesa de suas posições. E todos se arvoram de donos da razão, o que é compreensível.
            Um cardápio de ofertas mais variado, a possibilidade de compra e venda através da internet, afora outras modernidades, têm aumentado a concorrência, contribuindo para que muitas posições conservadoras sejam revistas.
            No mundo inteiro a flexibilização do horário de funcionamento do comércio virou tendência.
            Em Valadares, o setor varejista está submetido à Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) celebrada em novembro-2013, entre o Sindicato do Comércio de Governador Valadares (Sindicomércio) e o Sindicato dos Empregados no Comércio de Governador Valadares (Secom-GV).
            Por esse acordo, nos domingos e feriados, os supermercados, hipermercados, mercearias, armazéns, açougues e hortifrutigranjeiros passaram a funcionar de 8 às 14horas.  Antes, os supermercados podiam permanecer abertos até as 22 horas.
            Desprezado nas negociações, o consumidor não gostou da decisão. Prefere o regime anterior, que lhe dava mais tempo, conforto e facilidade para fazer compras.
            Por outro lado, interesses classistas à parte, uma cidade tipo Governador Valadares, com “status” de polo regional, precisa se dispor a fazer concessões, flexibilizar e romper com certos paradigmas.
O Cadastro Geral de Empregados e Desenvolvimento (Caged) mostra que em março último o número de desempregos nos setores de comércio e serviços valadarenses foi maior que o registrado no mesmo mês do ano anterior.
Na análise de Geralda Gonçalves, gerente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL-GV), entre os fatores que para isso contribuíram, está, especificamente, a redução do horário de funcionamento dos supermercados, nos domingos e feriados. Segundo ela, houve uma significativa quantidade de demissões em função disso.
Nada de ferir preceitos religiosos, muito menos contribuir para a desagregação familiar, tolhendo o descanso e o lazer a que todos têm direito. Na realidade, entretanto, pouco adianta brigar por essas regalias, sem ter condições econômico-financeiras de delas usufruir. Tanto assim que, se alguma empresa abrir inscrições para trabalho aos domingos e feriados, é provável que o número de interessados exceda as expectativas. Quando cada um sabe onde o sapato aperta, prevalece a Teoria da Conveniência.
            É sempre ruim restringir ou obrigar.  Ideal seria chegar-se a um consenso, onde cada segmento do comércio tivesse autonomia para determinar seu tempo de funcionamento.
            O horário livre, praticado em muitos outros locais, é também possível em Valadares, desde que, além de boa vontade, visão empresarial, e respeitadas as exigências legais, haja prévio entendimento entre patrões e empregados.
            No mais, é ouvir e acatar a vontade daquele que compra, gera impostos e faz as coisas acontecerem: Sua Majestade, o Consumidor.  

 

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sábado, 10 de maio de 2014

O SABOR DA CONQUISTA

            A mídia local não se cansa de ressaltar a importância do segmento educação, para o desenvolvimento sustentável de Valadares. Extensas reportagens têm mostrado, com riqueza de detalhes, a origem, as características e a importância das faculdades, universidades e outros educandários que fazem da cidade uma referência em termos de ensino.
             Sob essa ótica, entretanto, o leque é mais amplo.
            O setor saúde, por exemplo, computadas as ações médicas, odontológicas, hospitalares e afins, é outro que contribui de forma significativa para o prestígio e a sustentação da economia local. Afora os recursos da rede pública, dispomos de hospitais, clínicas, institutos e profissionais da melhor qualidade. Fatores que dão tranquilidade e conforto à população, atraem usuários de fora, gerando impostos e, principalmente, muitos empregos.
            Não menos importantes têm sido as realizações que fazem parte do calendário de eventos da cidade. Destaque para a Expoagro e a Expoleste, fundamentais para a divulgação dos produtos da terra, o intercâmbio comercial e a troca de experiências com empresários de outras regiões.
            Sem esquecer as datas festivas, a já tradicional Festa da Fantasia, as jornadas desportivas, os campeonatos de voo livre, as feiras, os eventos religiosos e outros acontecimentos, mesmo os de menor porte. Todos contribuem para aquecer as vendas do comércio, a utilização da rede hoteleira e as atividades ambulantes, elevando a receita municipal.
            Mas, se é pra enaltecer, nada mais justo que direcionar  aplausos para o Gevê Folia. O carnaval fora de época que há vários anos aqui acontece,  sempre com renovado êxito. Aliás, se todos os projetos locais fossem precedidos de semelhante planejamento e conduzidos com o mesmo zelo, igual competência e idêntico profissionalismo, Valadares seria campeã de sucessos.
            Na sua 19ª edição, acontecida no primeiro final de semana deste maio, nada saiu dos trilhos, como de praxe. Foram dois dias de festa, alegria e vibração, para um enorme público. Mega-atrações musicais, perfeita organização, horários, segurança, serviços, tudo conforme programado. Nenhuma decepção. Promotores, foliões, comunidade, todos ficaram satisfeitos e lucraram com o evento. Já começam a acumular energias para o próximo.
            É a forma como Valadares avança no tempo, suprindo suas carências e curtindo o sabor de cada conquista.  Resultado do louvável esforço de uma comunidade que não se acomoda, nem se rende às dificuldades. Pelo contrário, encara os desafios, utilizando seus próprios recursos, mas aberta a ajudas e boas parcerias. E é bola pra frente, porque a Copa vem aí, trazendo mais agitação! 

- Jornal de Domingo                     

 

 

domingo, 4 de maio de 2014

SABEDORIA DE RACHEL

             Por muitos anos, a cearense Rachel de Queiroz (1910-2003) deteve o cetro de grande dama da imprensa brasileira, escrevendo crônicas para a revista semanal “O Cruzeiro”, uma das mais importantes de seu tempo. Isso sem falar no prestígio que desfrutava como romancista, tradutora e teatróloga, primeira mulher a ter assento na Academia Brasileira de Letras.
            Em “Votar”, memorável artigo publicado na “O Cruzeiro” de janeiro/1947, ela ministrou verdadeira aula aos eleitores brasileiros.
            Começou realçando a importância da expressão “governo do povo”, que deve ser tomada no seu sentido mais literal, “porque, numa democracia, o ato de votar representa o ato de fazer o governo”.
            Na sequência, advertiu que “pelo voto não se serve a um amigo, não se combate um inimigo, não se presta ato de obediência a um chefe, não se satisfaz uma simpatia. Pelo voto a gente escolhe, de maneira definitiva e irrecorrível, o indivíduo ou grupo de indivíduos que nos vão governar por determinado prazo de tempo”.
            Em linguagem simples e didática, apontou quem são os escolhidos através do voto, alertando para os poderes de que eles se investirão.
            Lembrou “aqueles que nos vão cobrar impostos e, pior, aqueles que irão estipular a quantidade desses impostos”. E complementou: “Vejam como é grave a escolha desses cobradores. Uma vez lá em cima podem nos arrastar à penúria, nos chupar a última gota de sangue do corpo, nos arrancar o último vintém do bolso”.
            Noutra reflexão, fez ver que “pelo voto escolhem-se não só aqueles que vão receber, guardar e gerir a fazenda pública, mas também aqueles que vão ‘fabricar’ o dinheiro”. Considerou ser essa uma das missões mais delicadas que os votantes confiam aos seus escolhidos, “pois, se a função emissora cai em mãos desonestas, é o mesmo que ficar o país entregue a uma quadrilha de falsários. Eles desandam a emitir, sem conta nem limite, o dinheiro se multiplica tanto que vira papel sujo, e o que ontem valia mil, hoje não vale mais (que) zero”.
            Sob esses e outros exemplos, sugeriu que “quando vocês forem levianamente levar um voto para o Sr. Fulaninho que lhes fez um favor, ou para o Sr. Sicrano que tem tanta vontade de ser governador, coitadinho, ou para Beltrano que, tão amável, parou o automóvel, lhes deu uma carona e depois solicitou o seu sufrágio – lembrem-se de que não vão proporcionar a esses sujeitos um simples emprego bem remunerado. Vão lhes entregar um poder enorme e temeroso; vão fazê-los reis; vão lhes dar soldados para eles comandarem – e soldados são homens cuja principal virtude é a cega obediência às ordens dos chefes que lhes dá o povo”.
            Por isso, Rachel aconselha aos votantes: “Escolham com calma, pesem e meçam os candidatos, com muito mais paciência e desconfiança do que se estivessem escolhendo uma noiva. Porque, afinal, a mulher, quando é ruim, dá-se uma surra, devolve-se ao pai, pede-se desquite. E o governo, quando é ruim, ele é que nos dá a surra, ele é que nos põe na rua, tira o último pedaço de pão da boca dos nossos filhos e nos faz apodrecer na cadeia”.
            A brilhante escritora arriscou uma sugestão final: “se você estiver comprometido a votar com alguém, se sofrer pressão de algum poderoso para sufragar este ou aquele candidato, não se preocupe. Não se prenda infantilmente a uma promessa arrancada à sua pobreza, à sua dependência ou à sua timidez. Lembre-se de que o voto é secreto”.
            E arrematou: “Se o obrigam a prometer, prometa. Se tem medo de dizer não, diga sim. O crime não é seu, mas de quem tenta violar a sua livre escolha. Se, do lado de fora da seção eleitoral, você depende e tem medo, não se esqueça de que dentro da cabine indevassável você é um homem livre. Falte com a palavra dada à força, e escute apenas a sua consciência. Palavras o vento leva, mas a consciência não muda nunca, acompanha a gente até o inferno”.
            O texto foi escrito há 67 anos, mas a sabedoria de Rachel é duradoura; vale pra qualquer época!
 
- Jornal de Domingo
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