domingo, 23 de agosto de 2015

NA CORDA BAMBA

                Nos locais onde tufões, furacões e vendavais são frequentes, autoridades e moradores possuem toda uma estratégia de defesa e proteção. 
            Com a possível antecedência, procuram mapear o itinerário dos ciclones, calcular a intensidade dos ventos e o tempo provável de sua duração, afora outros cuidados.
            Na hora “H”, entretanto, muitos ignoram outras orientações, e preferem ficar em casa, fechando portas e janelas, até que o fenômeno se desfaça. Atitude própria de veteranos de outras refregas, sabedores de que as tormentas, por mais ameaçadoras que se anunciem, acabam perdendo forças, e com o tempo se dispersam. Só depois eles se preocupam com os estragos e os consertos necessários. E o fazem sem reclamar, conformados com as perdas e agradecidos por terem sido poupados de piores castigos.
            Teria sido essa a tática do governo, diante dos protestos do último domingo.
Revoltado com a calamitosa situação do país, o povo voltou às ruas. Dessa vez não apenas para mostrar indignação, mas para exigir o “impeachment”, a cassação ou a renúncia da presidente Dilma Rousseff. Reclamava também o banimento de Lula, sem esconder absoluta rejeição ao PT.Reverências só ao juiz Sérgio Moro, aclamado como grande herói e justiceiro nacional.
Percebendo o “tempo fechado”, os governantes optaram por se resguardar.
A presidente Dilma trancou-se no Palácio da Alvorada, onde, segundo dizem, deu ordens para não ser incomodada, enquanto a manifestação estivesse no ar. Suspendeu as tradicionais pedaladas e disse que não atenderia chamadas telefônicas, nem mesmo as do nutricionista ou de seu “personal trainer”.
O conselheiro Lula e os integrantes da tropa de choque presidencial também se esconderam. Cada qual no seu cantinho.
Encerrado o movimento, ninguém entendia o jeito humilde, resignado e civilizado com que o governo digeriu os protestos.
Quem apostou numa enérgica e contundente reação, se espantou com as palavras do ministro da Comunicação Social, Edinho Silva, o primeiro a tentar minimizar a repercussão dos fatos. Segundo ele, o Palácio do Planalto encarou os protestos como fatos naturais de um regime popular e avaliou que eles ficaram “dentro da normalidade democrática”. Só faltou insinuar que os palavrões, xingamentos e gritos de ordem pelo “impeachment” não passaram de carinhosa manifestação de apareço e agradecimento ao governo.
            Bem verdade que nem todos analisaram dessa forma.
          O líder do governo na Câmara, deputado José Guimarães (PT-CE), entendeu que “este espírito de intolerância é manipulado em parte pela oposição, que semeia o ódio, um antídoto da democracia, formada e construída nas lutas pelas Diretas Já e contra o regime militar”.
Mais “light”, a presidente Dilma, optou por dizer que “valeu a pena lutar pela democracia” e que o país “está mais forte”. Aproveitou para afirmar sua disposição de conversar e ouvir “com humildade”, mas sem abdicar de suas convicções.
A tática do governo para “administrar” crises tem sido, no primeiro momento, evitar o confronto, absorver o impacto, amortecê-lo e, se possível, transformar o limão em limonada, dando uma de solidário com os reclamos do povo. Depois, tentar reverter a bronca, em desfavor do adversário.
Até agora, logrou êxito. Tanto é que, só neste ano, entre outras turbulências, enfrentou três grandes protestos populares, e permanece de pé.
        Essa sustentação, entretanto, tem exigido frequentes declarações de acatamento à vontade das massas.
Ainda referindo-se ao último protesto, a Presidente afirmou que “nas democracias, nós respeitamos as urnas, respeitamos as ruas”.
O problema é que as ruas estão gritando “fora Dilma”, “fora Lula” e “fora PT”.

Haja equilíbrio e habilidade pra se segurar!

- Diário do Rio Doce 
- www.nosrevista.com

domingo, 9 de agosto de 2015

DIVÓRCIO À VISTA

Até momento, o governo surfou sobre sofismas e inverdades que a conjuntura atual desnudou em toda a sua amplitude. 
Ficou claro que a onda de desenvolvimento, conquistas sociais e estabilidade econômica, alardeada nos últimos 13 anos, está bem mais próxima da ficção do que da realidade. Alguma coisa se fez, mas muito menos do se esperava, do que foi prometido e, sobretudo, do que tem sido propalado.
Com a vaca no brejo, atolada até o pescoço e esperneando para não morrer sufocada, a verdade veio à tona. A nação atravessa um dos piores momentos de sua história. Tudo resultado de falhas administrativas, falcatruas e bandalheiras que há muito vinham sendo cometidas. Mazelas que, entretanto, só se tornaram conhecidas depois que a imprensa e a justiça conseguiram expor e atacar o megaprocesso de corrupção que corroia as entranhas do país.
De repente, todas as adversidades entraram em evidência. Desemprego, recessão econômica, inflação incontrolável, dólar em forte alta, antagonismos políticos, descrença nos governantes e outros males se irmanaram na construção do caos.
Assustado, desorientado e percebendo que o agravamento da crise é tão incontrolável quanto à insatisfação popular, o governo tem recorrido a todos os meios, na tentativa de reverter esse quadro.
 Na prática, entretanto, não fez mais do que lançar um plano de ajuste fiscal que evolui na base de um passo à frente e dois atrás, graças ao clima de beligerância que se instalou entre o Executivo e o Legislativo.
Nada melhor do que um arrocho, um bom aperto, para colocar as coisas nos seus devidos lugares.
Quando menos se esperava, o governo dá sinais de que mudou de postura. Nada de arrogância, intransigência, autocracia e outras atitudes que denotem superioridade ou autoafirmação. O negócio, agora, é mostrar humildade, disposição para o diálogo, respeito aos adversários e, se necessário, até fazer uma espécie de “mea culpa” premiada.
Uma boa demonstração nesse sentido foi dada pelo ministro-chefe da Casa Civil, Aloísio Mercadante. Em conversa com o deputado Rodrigo de Castro (PSDB/MG), ele admitiu que o governo cometeu erros e pediu apoio da oposição à responsabilidade fiscal. Sem mudar de cara, disse que “vivemos um momento politizado, com erros que cometemos, e se comete quando se governa. Vocês têm experiências importantes na administração de estados e do Brasil e precisamos ter pactos de política de estado que vão além do governo". Uma pérola de discurso!
Trilhando a mesma linha, o vice-presidente e articulador político do governo, Michel Temer, falando a senadores, reconheceu que o país enfrenta uma grave crise política e econômica. Segundo ele, a situação  “é grave porque há uma crise política se ensaiando. Há uma crise econômica que está precisando ser ajustada. Mas, para tanto, é preciso contar com o Congresso Nacional. É preciso contar com os vários setores da sociedade brasileira”. Até parece!
A metamorfose é válida, mas um tanto tardia.
A julgar pelos 71% de reprovação da presidente Dilma Rousseff, percentual maior do que os 68% atribuídos a Fernando Collor, às vésperas de seu “impeachment”, não há nada que permita qualquer otimismo em relação ao futuro do atual governo.
Na verdade, o país atravessa uma crise parecida com a do casal que está se separando, por motivo de traição de uma das partes. Filhos, familiares e amigos, desolados, tudo fazem no sentido de impedir a ruptura. Mas a decepção do cônjuge traído é semelhante à de um povo que não mais suporta conviver com um ente que não soube corresponder à sua confiança.
Fica difícil. Pra caramba!

- Diário do Rio Doce 

sábado, 1 de agosto de 2015

MUNDO CÃO

Na contramão de um vertiginoso desenvolvimento industrial, tecnológico e científico, o ser humano patina. Em termos de coexistência, pouco ou nada evoluiu em relação ao padrão Fifa, ops!,  padrão caverna. E olhe lá se não retrocedeu!
            Movidos pelo egoísmo e pela ambição, homens e mulheres agem com total desenvoltura, quando se trata de mentir, subornar, roubar e matar, num processo bem próximo da autodestruição.
            Entregue a divagações, ocorreu-me que, se a humanidade pudesse voltar às origens, com liberdade para reescrever sua história, mostraria um “my way” bem diferente do atual.
Provavelmente, estaríamos num paraíso em que todos falariam a mesma língua e professariam uma só fé. Nada de guerras, atos terroristas, golpes de estado, conflitos raciais ou religiosos.
 “Ipso facto”, não existiriam assassinatos, assaltos, uso de drogas, escravidão, prostituição, pedofilia e outras mazelas sociais. Tampouco haveria corrupção, desvios de recursos oficiais, lavagem de dinheiro, superfaturamento de gastos públicos, falcatruas nas entidades esportivas, pedaladas fiscais, nem adultérios chapas-brancas. Um autêntico “Shangri-la”, sem defeitos.
            A imaginação avançava nesse rumo, fértil e ambiciosa, quando, a exemplo das bulas de medicamentos, surgiram as fatais contraindicações.
            Pra começar, à falta de guerras, terrorismo e outras formas de conflitos armados, a indústria bélica inexistiria. Além de catástrofe econômica, isso seria uma tremenda sacanagem com os abnegados contrabandistas de armas, que, com muito esforço e sacrifício, extraem dessa nobre atividade o seu modesto sustento. Já pensou?!
            Sem o consumo de heroína, ópio, maconha, crack e outras drogas, prestigiados e habituais traficantes, inativos, entrariam em desespero. O mercado especializado viraria pó, com graves consequências para o narcotráfico e para as baladas de socialites. Melhor esquecer!
            Exorcizar golpes de estado seria duvidar da tendência liberal dos governantes latino americanos, em especial o venezuelano Nicolas Maduro. Desprendidos e desapegados ao poder, eles não precisariam disso, para demonstrar que respeitam a vontade popular. A história já os consagrou como intransigentes defensores dos princípios democráticos apregoados pela doutrina bolivariana. Fora de cogitação!
            O mais difícil, entretanto, foi vislumbrar um mundo isento da corrupção e seus desdobramentos. Até onde alcancei, o quadro era caótico.
Num clima de absoluta consternação, políticos, empresários e entes governamentais batiam cabeças, sem saber como turbinar seus suados ganhos atípicos. Isolado em seu gabinete de trabalho, sem a Lava-Jato, o juiz Sérgio Moro lamentava o tempo que perdeu nos Estados Unidos, ampliando conhecimentos sobre combate à lavagem de dinheiro. Enquanto isso, procuradores públicos e policiais federais temiam férias coletivas e até demissões, por falta de gente graúda a quem investigar e prender. Nem pensar!
            Em meio a tantas controvérsias, o jeito foi pedir a opinião do sociólogo Belechiano Conçelheiro Dubar (escreve-se assim mesmo), amigo e companheiro de longas refregas.

Expert em generalidades, mestre Belé, codinome de sua preferência, filosofou que este é um mundo cão, difícil de ser entendido. Após muito refletir, ele lembrou que não se mexe em time que está ganhando, sobretudo quando esse time é o adversário. Apoiado nessa máxima, disse ser melhor deixar tudo como está, pra não aumentar o risco de piorar. Quem sou eu pra discordar?!

Texto para a revista "Mais Mais PERFIL" - Edição de Julho/2015

domingo, 26 de julho de 2015

SINUCA DE BICO

            Chega a hora em que não se pode mais ficar concentrado em acontecimentos recorrentes, sobretudo quando eles nada têm de positivo, estimulantes ou agradáveis. Pelo contrário, são profundamente incômodos e execráveis, não apenas por serem repetitivos, mas pelo seu conteúdo indigesto, não raro afrontoso à inteligência e à cidadania de quem a eles assiste.
            É o caso dos periódicos escândalos republicanos. Ocupando os espaços mais nobres dos meios de comunicação, eles há muito vêm “torrando” a paciência popular.
Nos últimos anos, a situação piorou. Não se fala em outra coisa senão em bandidos de colarinho branco que roubam a cena, saqueando os cofres públicos. Destaque para os badalados personagens do “mensalão”, do “petrolão” e de outros recentes e vergonhosos episódios da vida nacional.
Os tolos que se amarram nesses lances não sabem ou não percebem que há coisas mais interessantes pra ver.
Ainda agora, desenrolam-se os Jogos Pan-Americanos de Toronto, mostrados em tempo real, um espetáculo imperdível.
O Brasil se faz presente, exibindo surpreendente evolução em várias modalidades desportivas. Tem alcançado resultados históricos e aparece como a terceira melhor delegação de certame. Até a última sexta-feira, havia conquistado 121 medalhas, sendo 34 de ouro, bem mais do que Cuba, Colômbia, México, Argentina e outros tradicionais “bichos-papões” de troféus.
Para os que não são chegados ao esporte, a pedida é se servir de um bom vinho ou de um legítimo scotch, acomodar-se numa confortável poltrona, se possível bem acompanhado, e curtir na telinha as emoções de “Desejos Secretos”.
A meganovela da Globo está  “matando”.  Exibida nos fins de noite, ela mostra o submundo da prostituição de luxo, camuflado pelo glamour do universo da moda.
Com bom elenco, esmerado acabamento e bem dosado erotismo, o folhetim tem levado os telespectadores à loucura, exibindo cenas excitantes, interpretadas por atores de grande beleza física. Coisa pra ninguém botar defeito.
Convenhamos, pois, não haver justificativa para permanecer fissurado no noticiário político-econômico, que cuida apenas de gente safada e suas bandalheiras, ou de situações em que o povo só ganha quando perde pouco.
As óbvias exceções ficariam por conta das matérias que despertem alguma esperança, tipo as que falem de possíveis mudanças no comando do país. Mas até nessa hipótese específica o brasileiro se sentiria hoje numa sinuca de bico.
Se, por alguma das várias razões já diagnosticadas e amplamente conhecidas, Dilma Rousseff decidisse “jogar a toalha”, ou fosse ejetada do trono presidencial, seu substituto automático seria o vice-presidente Michel Temer, que pouco tem de admirável, além de uma bela esposa. Na linha sucessória, viriam, pela ordem, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha; o presidente do Senado, Renan Calheiros; e o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowisk, figuras tão queridas quanto o horário eleitoral gratuito.
No caso de uma nova eleição, as opções naturais seriam os clássicos Aécio Neves, Geraldo Alckmin, José Serra e Marina Silva, políticos determinados e corajosos, que, na oposição, têm sido quase tão competentes e brilhantes quanto os craques da Seleção canarinho. Na disputa, se ele ainda reunir condições “técnicas” para fazê-lo, certamente estaria o emérito palestrante Lula “Brahma” da Silva, cada vez mais experiente na arte de embromar.

Melhor assistir ao “Domingão do Faustão”. O sacrifício será menor!

- Diário do rio Doce - 26.07.2013

domingo, 12 de julho de 2015

DE GREGOS E TROIANOS

                           
     Cada vez mais decepcionado com a situação desordenada em que se encontra o Brasil, percebendo que a tendência é piorar; e sem ter pra onde correr, o brasileiro parece ter sido tomado por uma apatia crônica. Na verdade, descrente quanto à possibilidade de uma reação conjunta mais coesa e eficaz, e consciente de que sozinho nada pode fazer, ele se entregou a um marasmo que não consegue superar, e talvez nem queira.
     Nas esquinas, nas mesas de boteco, nos encontros sociais, nas saunas, nos bordeis, e onde mais as pessoas se reúnam, o chororô é constante e unânime. Todos criticam, lamentam, esbravejam, xingam os governantes, mas não passa disso. Desfeita a roda, cada um vai pro seu canto, carregando dificuldades que não sabe como administrar. Quando cai na real, o cara se dá conta de que só lhe resta o desafiador “salve-se quem puder” ou o resignado “seja o que Deus quiser”.
     Essa é a situação de que políticos e governantes, sempre ardilosos, se aproveitam para ampliar vantagens próprias e infligir decisões lesivas ao interesse popular.  As medidas draconianas impostas a pretexto do ajuste fiscal em curso, mostram o quanto é danosa essa indiferença popular. Tudo é aceito de forma mansa e pacífica, sem questionamentos, ao contrário do que ocorre no exterior.
     Ainda agora, vem da Grécia preciosa mostra de como uma nação deve se comportar para preservar sua soberania, recusando-se a fazer o que outros querem que lhe impor.
     Em difícil situação econômico-financeira, aquele país está à beira de uma bancarrota. Ao longo de vários anos, gastou mais do que podia, e agora não tem como honrar seus compromissos.
     Mantendo uma inchada máquina pública, pagando exorbitantes salários e altas aposentadorias à elite política, além de maquiar contas públicas através de “pedaladas” fiscais, a Grécia se endividou além do possível, tornando-se refém da Comunidade Europeia, do Fundo Monetário Internacional e do Banco Central Europeu.
     Necessitado de mais recursos, o país foi pressionado pelos credores a adotar medidas de austeridade, entre elas o aumento de impostos e o corte nas aposentadorias.
     De modo soberano, o governo grego houve por bem submeter a exigência à apreciação popular.          As urnas mostraram que mais de 60% da população rejeitaram aquelas imposições, que foram afinal rechaçadas.
     O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, festejou esse resultado, enfatizando que a precária situação do país não se deve aos cinco meses em que está no cargo, mas sim aos "cinco anos de resgates que condenaram a economia grega".
     Apontando que a carga das reformas deve recair em quem pode assumi-las, acrescentou que "é preciso deixar de fazer como foi feito até agora, com o peso recaindo sobre os ombros do povo".
     No Brasil, grandes dificuldades econômico-financeiras também decorrem de graves erros cometidos pelo governo. Porém, aqui, todos os ajustes estão sendo feitos à custa do sacrifício de empresários, trabalhadores, aposentados e outros indefesos integrantes da sociedade, aos quais não é dado o mínimo direito de opinar.
     A verdade é que não dá para comparar atitudes de governantes que se inspiram em Sócrates, Platão, Aristóteles e outros grandes filósofos, com as daqueles que se pautam pela doutrina petista e os ensinamentos dos marqueteiros que hoje dominam nosso país. Mais fácil, ao que parece, seria conciliar gregos e troianos. E olhe lá!!!

- Diário do Rio Doce

domingo, 28 de junho de 2015

MARQUETEIROS DO PODER

            Em seu texto “Marketing publicitário”, publicado no DRD do último dia 23, o empresário e jornalista Francisco “Chico” Luiz Teixeira deu mais uma mostra de extrema lucidez.
            Com o talento de sempre, ele não precisou de academicismo para definir mídia e marketing, duas ferramentas amplamente utilizadas na busca do sucesso. Segundo ele, “mídia nada mais é do que um somatório de palavras como rádio, jornal, revistas, TV e outras, enquanto que propaganda, reclame, anúncio, publicidade e outros nomes do passado se resumem num só termo: o inglês marketing”.
            Apontando grifes que se projetaram graças ao investimento em marketing, Chico Teixeira, lembrou que uma boa propaganda é fundamental para o êxito empresarial de qualquer produto, nome ou serviço.
            Na visão do articulista, porém, “o Brasil ainda não atingiu sua maturidade publicitária. O que se investe em divulgação do produto turístico brasileiro é simplesmente pobre em valor e qualidade”. Para ilustrar essa afirmação, mencionou o balneário mexicano de Cancún, que, isoladamente, em um mesmo ano, gastou mais em publicidade do que todo o Brasil.
            Sob essa ótica, não há o que discutir. Embora conte com uma boa mídia, o país, em termos de marketing turístico, não está bem no ranking mundial.
            Entretanto, no campo político e da administração pública a realidade é bem diferente.
            Quando se trata de transformar limão em limonada, bombardeio aéreo em fogos de artifício, ou supositório em analgésico, não tem miséria. Políticos e governantes não hesitam em recorrer aos mais capazes profissionais de marketing, custe o que custar.
            Basta lembrar que, dos R$ 350,6 milhões gastos na campanha pela reeleição de Dilma Rousseff, R$ 70 milhões ficaram com a agência Pólis Propaganda, do jornalista João Santana, o marqueteiro oficial da presidente e do Partido dos Trabalhadores.
            Até aí, nada demais, considerando que, no entendimento do publicitário José Nivaldo Júnior, autor do best seller “Maquiavel, O poder – História e Marketing”, marketing político é o conjunto de atividades que visa à conquista, à manutenção e a expansão do poder.
            O problema é que, em nome dessa tese, o brasileiro tem sido levado a alimentar ilusões e a engolir indigestas “preciosidades” que não faziam parte de seu cardápio. Nesse rol incluem-se o endeusado “Lulinha Paz e Amor”, que vendia a ideia de um político sorridente, capaz e conciliador; a “Dilma gerentona”, segura nos negócios e implacável com a corrupção; o “genial Guido Mantega”, que, após muitos anos sendo apontado como infalível ministro da Fazenda, deixou o país mergulhado na pior crise econômica de sua história; e o “milagroso Joaquim Levy”, até então ilustre desconhecido do grande público, a quem uma administração desacreditada entregou o Ministério da Fazenda, dando-lhe carta-branca para reajustar uma economia que ela própria desajustou.
            Fato é que os marqueteiros prestam excelentes serviços ao governo. Ensinando trejeitos, caras e bocas e outras formas de dissimulação, eles conseguem transformar os agentes públicos em hábeis enganadores da opinião coletiva. E esse aprendizado é extremamente útil, na hora de realçar metas que dificilmente sairão do papel ou de minimizar fatos comprometedores.

            É o que se viu recentemente, quando a presidente Dilma, chamada a se manifestar sobre as duras críticas que lhe foram feitas pelo seu criador, limitou-se a dizer que “todo mundo tem direito de criticar, ainda mais o presidente Lula”. Esteve bem próxima de um conhecido jargão popular, segundo o qual opinião é igual ... mão: todos têm, dá quem quer.

- Diário do Rio Doce

AJUSTAMENTO DE CONDUTA

            A corrupção brasileira alastrou-se, está em todo lugar. Nos três poderes, no esporte, nas religiões, em qualquer área há gente metendo a mão no dinheiro do povo.
            Historiadores “genéricos” não têm dúvida em afirmar que é mal congênito, causado por um vírus que chegou ao Brasil no descobrimento, a bordo da esquadra de Cabral.
            Especula-se que já então teria acontecido o primeiro caso de desvio de recursos, por parte da ONG “Parceiros do Tesouro”, encarregada de administrar o programa “Minha Tribo, Minha Vida”.
            Daí ao “mensalão” e ao “petrolão” foi só questão de tempo, mas sem perda de tempo.  Assim como a história, a roubalheira avançou célere e implacável.
             Chegou-se a ponto de ações preventivas e punitivas perderem eficácia. Descarados e confiantes na impunidade, os corruptos avançam, ferozes e impiedosos. Até o juiz Sérgio Moro tem tido dificuldades para detê-los.
           Um antigo brocardo ensina que “se não puder vencer o inimigo, junte-se a ele”. Por semelhança, faria sentido imaginar que “se não puder eliminar o mal, aproveite-se dele”.
           Não se trata de aliar-se aos corruptos, nem de receptar aquilo que eles costumam abocanhar.
           A ideia é estabelecer com os mesmos um “ajustamento de conduta” que facilite a apuração e minimize os efeitos de suas práticas delituosas.
            O primeiro passo seria a formação do Cadastro Geral de Corruptos (CGC) com foto, identidade, CPF, endereço e demais dados dos profissionais da área. Esse banco de dados possibilitaria a emissão de nota fiscal, recibo ou outro documento que, se necessário, comprovaria o ilícito. Teria fim essa história de roubar e depois negar.
           A um só tempo, criar-se-ia o Imposto Sobre Valores Desviados (ISVD), incidente sobre quaisquer quantias surrupiadas dos cofres públicos.
           Para efeito de tributação, os corruptos seriam classificados em micro, pequenos, médios e grandes, cada um com seu “limite operacional” e campo de atuação definido.
           Ninguém poderia agir em mais de uma “frente”. Se, por exemplo, roubasse na área da saúde, ficaria impedido de fazer o mesmo em outro setor.
           O percentual do imposto variaria de acordo com o valor do desfalque. Quanto maior o roubo, maior a alíquota.
           A cobrança alcançaria indistintamente corruptos ativos e passivos, nas mesmas bases.
           Como toda obrigação gera direitos, os corruptos passariam a ter, entre outros, os benefícios do Fundo de Incentivo à Corrupção (FIC) e do Programa de Amparo à Corrupção (PAC). O primeiro destinado à capacitação da “classe”; o outro encarregado de dar assistência ao contraventor e à sua família, nos casos de demissão, aposentadoria, invalidez, prisão ou morte, com preferência para os dois últimos.
            O governo federal acaba de anunciar o segundo Programa de Investimentos em Logística (PIL), que envolverá recursos de quase R$ 200 bilhões, a serem aplicados em aeroportos, rodovias, ferrovias e portos. É mais uma grana preta a aguçar a volúpia de lobistas, palestrantes, empreiteiros, entes governamentais e outros que sempre encontram um jeito de levar vantagens ilegítimas.
              Impõe-se, pois, encontrar, com urgência, um meio, mesmo bizarro, de regular o processo corruptivo, na tentativa de salvar pelo menos parte do que a bandidagem insiste em afanar. Melhor pouco do que nada.

           A taxação dos valores roubados é alternativa sujeita a análise e aperfeiçoamento.  Em tão curto espaço, seria impossível concebê-la perfeita.  Tem tudo pra dar certo, desde que o lançamento do tributo não fique a cargo do contribuinte que se quer alcançar. Aí seria bicorrupção!

- Diário do Rio Doce (16.06.2015)