quinta-feira, 4 de outubro de 2018

ENTRE O GOL E A URNA


Por Etelmar Loureiro

- Revista "Mais Mais PERFIL" - setembro /2018

Comentar política, em época de eleição, já foi tão elementar e estimulante quanto falar de seleção brasileira, em tempo de Copa do Mundo. Ambas eram temporadas pródigas em novidades, novas táticas, consagração de velhos e revelação de novos talentos, disputas empolgantes, torcidas inflamadas, expectativas otimistas e outros fatores que arrebatavam torcedores e eleitores. A inspiração surgia naturalmente, facilitando a vida dos articulistas.
            O passar do tempo não eliminou essa equivalência, mas colocou-a pelo avesso. Hoje a desmotivação tomou conta dos que se dispõem a abordar esses temas.
            Quanto à seleção, as decepções vêm se acumulando desde 2002, quando, pela última vez, o Brasil conquistou um campeonato mundial. Nos 16 anos que se seguiram, exceto raras exceções, só se viu um amontoado de “astros” individualistas, tatuados, trajes e penteados da moda, cheios de mordomias e vontades próprias. Futebol, que é bom, alguns até possuem, mas não o praticam. Nada a ver com os grandes craques do passado, amantes da camisa, dotados de espírito de equipe, e sempre dispostos a dar o melhor de si por uma vitória. As consequências aí estão: trocam-se dirigentes, técnicos e jogadores, mas nada consegue restabelecer a motivação do torcedor.
            Na política, o desapontamento é o mesmo. Acabou-se a geração dos políticos geniais, que brilhavam pela inteligência, seriedade, honestidade e, sobretudo, pelo comprometimento com os interesses nacionais. Homens que colocavam a honra e a dignidade acima de quaisquer tentações ilícitas.  Homens de palavra, que honravam suas promessas. Homens que só se uniam partidariamente em torno de um ideal, nunca por conveniências pessoais. Homens que correspondiam às expectativas, e assim conquistavam a admiração e o respeito da sociedade.
            Essa saudosa elite praticamente desapareceu, ofuscada por um bando de oportunistas que, posando de sérios e travestidos de políticos, tomaram conta do país. Com inegável habilidade, amparados em costas quentes, e não raro sustentados pela corrupção, estão em todas as áreas, envolvidos em falcatruas e negociatas. Agem por conta própria, ou como herdeiros de “caciques” inescrupulosos, que tudo fazem para manter vivas as suas dinastias.
            As eleições deste ano estão longe de acalentar esperanças de grandes mudanças nesse quadro.
            A julgar pelo que demostram os concorrentes aos mais diversos cargos, “tudo continua como dantes no quartel de Abrantes”. Os discursos vazios e as promessas fantasiosas em nada se modificaram. A falta de projetos exequíveis, capazes de satisfazer às grandes necessidades nacionais, constitui, como sempre, a deficiência mais preocupante. Se algo mudou, foi a arte de mentir, que, bem maquiada pelos marqueteiros de plantão, adquiriu novos tons de desfaçatez.        
Os 13 competidores à Presidência da República se dividem entre políticos desgastados, bastante desacreditados, e estreantes que não trazem novidades, não inspiram maior confiança, tampouco demonstram plena aptidão para o cargo.
            Os prognósticos são difíceis. Por enquanto, a indecisão reina absoluta.
Caso não aconteça uma impulsiva, passional e, por isso mesmo, temerária decisão de primeiro turno, pode ser que um segundo escrutínio dê ao eleitor a chance de uma escolha mais racional.
            Há algo em comum entre o gol e a urna: ambos são perseguidos pelos que buscam a vitória. Na última Copa, o Brasil sofreu nova derrota, porque outra vez seus atletas não souberam marcar os tentos necessários. Espera-se que, agora, na hora do voto, o brasileiro seja mais “bom de bola”. Talento não lhe falta!


quinta-feira, 27 de setembro de 2018

SANTOS DE CASA


Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 27.09.2018

            Podem existir outros meios, outros recursos, ou outros fatores também importantes, mas, na consecução de seus objetivos, a força política é a maior arma de uma comunidade. Esse poderio não surge por acaso, nem por passe de mágica. Ele se forma, ao longo do tempo, graças ao idealismo, ao respeito às tradições e ao espírito de união daqueles que os possuem. É o somatório de virtudes que caminham lado a lado com o orgulho de fazer parte da comunidade e de saber valorizar as lideranças locais.
            Desde sempre, Governador Valadares carece de uma representatividade política mais unida, expressiva e vigorosa o bastante para se impor e brigar com êxito por suas aspirações.
Importantes conquistas fazem parte de sua história, todas dignas de aplausos.  Muitas, entretanto, deixaram de acontecer, não por desinteresse ou falta de empenho, mas por insuficiência de prestígio político.  
Para início de conversa, o município não possui uma infraestrutura econômica à altura de suas necessidades. Por insuficiência de marketing, ou escassez de incentivos capazes de atrair negócios, faltam empresas, sobretudo as de grande porte, capazes de gerar receitas e empregos, nas quantidades ideais.
Por outro lado, impõe-se a concretização de metas que há muito se arrastam nos corredores do Poder, como é o caso da duplicação da BR-381, ainda longe de ser concluída e sob a grave ameaça de não chegar a Valadares.
Também emperradas, encontram-se a plena operacionalização do aeroporto local, a vinda do gasoduto e a inclusão do município na área da Sudene. Vantagens que agregariam mais dotes ao perfil empresarial do município, que delas já poderia estar desfrutando, se contasse com uma força política capaz de remover os entraves burocráticos a que estão submetidas.
Não seria justo responsabilizar apenas os homens públicos por esse contexto.  Eles podem ser os maiores culpados, mas não os únicos. Também a comunidade tem muito a ver com isso. Afinal, é ela que elege seus representantes. Entre eles, forasteiros que, em época de eleições, se apresentam como defensores dos interesses municipais, prometem mundos e fundos, usurpam preciosos votos, e depois se mandam, deixando o povo a ver navios.
A conta sobra para os políticos “caseiros”, que, fora honrosas exceções, sem grande talento, sem cacife e sem união, pouco ou nada podem fazer.
O primeiro turno das eleições acontecerá daqui a 10 dias. Será a nova chance de essa lastimável situação ser revertida ou, ao menos, minimizada.
Verdade é que o eleitor se sente cada vez mais desmotivado. Não que esteja de mal com as urnas ou que tenha abdicado do direito de votar. Mas está exausto de balançar entre o ruim e o pior, impasse cada vez mais presente nas eleições.
Neste pleito, por sorte, o valadarense encontra-se numa posição mais confortável. Há bons candidatos que são da terra, por berço, adoção ou afinidade. Excluídos os “malas”, sobra muita gente boa. Gente conhecida, tradicional, séria e bem intencionada. Gente dedicada e batalhadora, que, apesar dos entraves, já mostrou serviços e pode fazer mais pela cidade.
Se o eleitor quiser ter uma representação política legítima, robusta e comprometida com os anseios valadarenses, a receita é prestigiar os “prata-da-casa”. Nada de dar boa vida a alienígenas oportunistas, que só aparecem na hora de garimpar votos.  
Repaginando o velho provérbio, poder-se-ia dizer que santos de casa não fazem milagres, exceto alguns que só eles conseguem fazer. É melhor não duvidar!


quinta-feira, 13 de setembro de 2018

"SONHO MEU"


Por Etelmar Loureiro


- Diário do Rio Doce - 13.09.2018

 

Em linhas gerais, curiosidade é o desejo de ver ou conhecer algo até então ignorado. É uma das características do ser humano. Quando bem dosada, ela se torna estimulante, acalentando sonhos e gerando gratas expectativas.

            Não faz muito tempo, a gravidez era uma das maiores fontes de curiosidade. Tão logo a mulher se descobria gestante, instalava-se enorme e contagiante suspense em relação ao sexo do bebê.

            Não faltavam adivinhações, palpites e prognósticos baseados em experiências, sintomas ou superstições. Promessas e apostas mobilizavam os pais, avós, outros familiares, amigos e todos os que se dividiam entre ser homem ou mulher. Velas eram queimadas, e muita cerveja foi paga por conta dessa doce incerteza.
            Não adiantava exercitar a imaginação. O resultado só era conhecido ao final de nove meses, depois de o bebê “dar as caras” e mostrar suas “credenciais”.
            O ultrassom, com cem por cento de acerto, desvendou o segredo do ventre materno. Ele acabou com as ansiedades, simpatias, dúvidas quanto às cores do enxoval, e tantas outras curtições que empolgavam o enigma do ele ou ela. Agora, com poucos meses, já se sabe se o bebê é homem ou mulher, atleticano, flamenguista ou corintiano, mocinho ou bandido, político ou gente séria. Sem risco de errar.
            Outra incógnita, que no passado também provocava grandes aflições, girava em torno dos resultados eleitorais.
            Os candidatos se apresentavam, assim como hoje, mas os medidores de opinião eram escassos e inseguros. As mudanças de cenário aconteciam, sem que pudessem ser convenientemente avaliadas.  Certeza de vitória só depois de concluída a contagem manual dos votos; coisa que a ansiedade transformava em sôfrega eternidade.
                Esse quadro só começou a se modificar em 1942, quando surgiu no Brasil o Ibope – Instituto Brasileiro de Opinião Pública, especializado em medir, por meios científicos, a audiência das emissoras de rádio que operavam no país.
            A despeito da relevância de seu trabalho, o próprio Instituto teve que superar as dificuldades iniciais, para inspirar confiança.  Os aplausos que recebia, quando os resultados agradavam, davam lugar a pesadas críticas, se as expectativas das emissoras fossem contrariadas.
A primeira pesquisa eleitoral a cargo do Ibope, entretanto, aconteceu em São Paulo, em 1945, sobre as eleições presidenciais daquele ano, vencidas por Eurico Gaspar Dutra.  
            Desde então, com o aparecimento da urna eletrônica,  e graças a pesquisas aperfeiçoadas pelo uso de técnicas e ferramentas cada vez mais modernas, a disputa entre os políticos perdeu a graça. O suspense, que mexia com o emocional do eleitor, deixou de existir.  Antes mesmo da votação, o resultado é facilmente presumível, quando não imexível.  Não há mais aquela longa e emocionante espera pela proclamação dos vencedores; a apuração acontece em questão de horas.
            As atenções agora se voltam mais para o futuro.
             Em família, a torcida é para que o recém-nascido cresça fiel ao seu gênero. Nada de trocar de lado.
            Na política, espera-se que o eleito honre os compromissos assumidos, sem se entregar às seduções do poder.
            Dois sonhos por demais ambiciosos!

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

ZEBRA NO BOLSO


Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 30.08.2018

            Faltando pouco mais de um mês para o seu primeiro turno, não há lembrança de uma eleição tão prestigiada pelo desinteresse popular. Como se fosse uma retrospectiva de campanhas, só se vê a repetição de chavões e promessas surradas, feitas por candidatos também desgastados ou incapazes de gerar qualquer esperança de renovação.
            Há nada menos de 13 aspirantes à Presidência da República. Alguns são velhos conhecidos, figurinhas carimbadas. Nem mesmo com a ajuda de hábeis e onerosos marqueteiros, conseguem fugir da mesmice que torna ridículas as suas exposições.  Os neófitos também não causam empolgação, inclusive quando acenam com metas arrojadas, pois não indicam a origem dos recursos que lhes permitirão executá-las.
            Sempre depositei nas pesquisas eleitorais a inabalável confiança que tenho nos horóscopos sentimentais. Dessa vez, entretanto, elas estão se superando em termos de eficiência: entre tantos concorrentes, conseguem passar a ideia de que não há mais do que uma acirrada disputa entre dois candidatos, um de esquerda, outro de direita, cada um tentando se impor como o mais legítimo representante de sua tendência. Os demais pretendentes, com índices inexpressivos, não passam de coadjuvantes, ou meros figurantes, pelo menos por enquanto.
            De um lado está um militar da reserva, 63 anos, paulista, que cumpre atualmente seu sétimo mandato de deputado federal, o mais votado do Rio de Janeiro, nas eleições de 2014, hoje filiado ao Partido Social Liberal.
Esse é Jair Bolsonaro, político franco, polêmico, não raro irreverente, célebre por seu perfil populista e de extrema-direita, simpatizante do movimento militar de l964, contrário aos direitos LGBT, apologista do combate enérgico à criminalidade, defensor intransigente dos princípios familiares, e conhecido por muitas afirmações controversas que já lhe renderam várias dores de cabeça judiciais. Em resumo, é um misto de Silas Malafáia, Capitão Nascimento e Papa Francisco, que, dado o seu estilo diferenciado, a cada dia conquista mais seguidores.
            Na outra ponta, aparece a surreal candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, 72 anos, que, mesmo na condição de presidiário, se mantém líder nas pesquisas.
Nada ofusca o indiscutível prestígio popular do maior líder petista. Por mais que lhe façam acusações, seus apoiadores se multiplicam, crendo ser ele vítima de injustiça e perseguição. Mas, dentro do seu próprio PT, não faltam os que reconhecem ser esse um quadro que só se sustenta graças a muita “mágica” no sentido de manter em evidência o nome mais representativo da agremiação. Mesmo conscientes de que se trata de caso praticamente perdido, admitem não haver outro meio de o partido preservar-se e sair menos chamuscado do próximo pleito.
Caso Lula seja alijado do processo, e não consiga transferir maior parte de seus votos para o seu substituto, ou para os demais candidatos, haverá a possibilidade de Bolsonaro liquidar a fatura no primeiro turno. Se assim considerada, ainda que improvável, mas não impossível, a zebra já estaria no bolso.
Começa amanhã (31) a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão. Por tradição, sensíveis mudanças poderão ocorrer no cenário aqui comentado, contribuindo para que a disputa fique mais competitiva e empolgante.
O sábio e saudoso político mineiro Magalhães Pinto certa vez sentenciou que "Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já muda". A meteorologia está prevendo céu de muitas nuvens, até as eleições. Sinal de que poderão ocorrer chuvas e trovoadas.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

UNIDOS PELO IBITURUNA

Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 16.08.2018

A mudança para os grandes centros, em busca de maiores oportunidades de estudo e trabalho, é um comportamento típico do ser humano, especialmente dos jovens.
Esgotadas suas chances nos locais onde vive, o indivíduo sai em busca de novos horizontes, deixando para trás família, namorada, amigos, objetos e locais com os quais até então conviveu. De repente, tudo vira recordações que dificilmente se apagarão, sobretudo para quem soube viver o passado.
Hoje declinante, esse movimento migratório teve sua fase áurea nos anos 1950/70, quando os cursos superiores existiam apenas nas capitais e em algumas localidades mais adiantadas.
Foi nessa época que muitas famílias de Governador Valadares assistiram ao êxodo de seus filhos.  Após concluir o então chamado segundo grau, eles não tiveram alternativa, senão fazer as malas e partir para onde pudessem prosseguir seus estudos. E assim se espalharam por Belo Horizonte, Vitória, Rio, São Paulo e outras metrópoles, inclusive do exterior. Ali lá se formaram, se estabeleceram, constituíram família e acabaram criando raízes. Nos quatro cantos do mundo, é possível encontrar valadarenses notáveis e bem sucedidos, nas mais diversas áreas.
 Muitos desses “emigrantes”, agora na faixa dos 70 anos, embora dispersos, conseguem manter um estreito relacionamento entre si, como se nunca houvessem se distanciado uns dos outros.
Entre os diferentes modos de manter essa sadia convivência, eles formam no WhatsApp um grupo, já bem numeroso, que se comunica de forma constante, falando de amenidades, família, política, esporte, humor, sacanagem, viagens e tudo o mais que possa agregar valores e perenidade à confraria.
            A explicação para tanto entrosamento poderia se resumir nos laços de amizade que ligaram esses personagens na infância e na juventude, quando eram vizinhos ou integravam a mesma tribo. Mas há outro forte elo, que inclusive contribui para que o grupo se torne cada dia mais numeroso: o Colégio Ibituruna, onde, na década de 1960, eles cursaram o primeiro e segundo graus.
´           É surpreendente a influência desse educandário sobre o emocional de seus alunos. Mesmo após muitos anos de separação, as salas de aula, os professores, os colegas, os desafios, as brincadeiras, as rusgas e emoções sobrevivem na memória de todos, alimentando um espírito de união que se fortalece com o passar do tempo.
            Não se contentando com o simples contato virtual, essa turma partiu para um corpo a corpo periódico, com direito a comes e bebes, camiseta, muita alegria e nenhuma influência política. Isso já aconteceu duas vezes, ambas na capital mineira.
            Neste ano, coincidindo com 80º aniversário de fundação do Colégio Ibituruna, o encontro será em Governador Valadares, nos dias 14 e 15 de setembro próximo. Esperam-se mais de 100 participantes, muitos dos quais virão de várias partes do país.
            A programação, a cargo de um grupo coordenador, inclui duas festivas reuniões etílico-gastronômicas, uma missa de agradecimento e homenagens presenciais e “in memoriam” a algumas personalidades ligadas à escola.
            Embora de natureza informal, o evento é da maior importância. Além do desejo de confraternização que o motiva, ele oferecerá aos ex-alunos, em especial os que vêm de fora, a rara oportunidade de um reencontro com velhos amigos e com o colégio onde iniciaram a caminhada rumo ao sucesso. Haja coração!

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

ROYALTIES PROVIDENCIAIS


Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 02.08.2018

            O Fórum Emergencial de Saúde e Educação acontecido em Governador Valadares, no último dia 27, do qual participaram cerca de 40 prefeitos de cidades mineiras, mostrou um compartilhamento de problemas e dificuldades bem mais preocupantes do que se pensava.
O evento serviu para desnudar, em toda a sua extensão, a aflitiva situação financeira em que se encontram aqueles municípios, devido à falta de repasses por parte do Governo mineiro. A inadimplência do estado se refere a verbas garantidas pela Constituição Federal, destinadas à saúde, educação e segurança, afora outras necessidades essenciais e inadiáveis. Dados recentes mostram uma dívida superior a R$ 100 milhões, apenas para com a prefeitura valadarense. 
            Pelo que ficou demonstrado, já há cidades com serviços comprometidos e até mesmo paralisados.
            Os prefeitos optaram por reagir com medidas enérgicas, entre elas a paralisação de todas as atividades escolares, a partir de 20.08, e a proposição de uma Ação Civil Pública, caso a pendência se mantenha.
            A queda de braços envolvendo repasses do governo de Minas para os municípios não é novidade, mas se intensificou na administração atual. E não há muita esperança de que o impasse se resolva a curto prazo.
            A experiência ensina que nas situações de dificuldade é que são encontradas as melhores saídas.
            Pode ser que nem todas as prefeituras tenham conhecimento da Lei 13.540/2017, de 18.12.2017. Ela destina 15% da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), aos municípios escoadores da produção de minério de ferro, ou afetados por operações de embarque e desembarque, ou ainda para cidades onde se localizam pilhas de estéril, barragem de rejeitos e instalações de beneficiamento.
            Significa dizer que, mesmo sem possuir nem ao menos uma jazida, as localidades diretamente impactadas pela atividade mineradora passaram a ter direito a parte dos “royalties” da mineração, o que certamente aliviará os cofres municipais.
            Para que isso se tornasse possível, os municípios mineradores, que antes recebiam 65% dos royalties, ficarão com 60%. Já o Estado, que até então abocanhava 23%, terá que se satisfazer com 15%. A fatia do Governo Federal caiu de 12% para 10%.
            O presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM), Julvan Lacerda, considera que esse foi um avanço muito importante. “Antes, esses vizinhos, apesar de sofrerem os impactos do transporte do minério e da presença das barragens, não ganhavam nada. Agora, vão ganhar”, festeja Lacerda.
            Alguns noticiários dizem que esse benefício foi instituído graças a uma emenda apresentada na Medida Provisória 789/17 pelo senador Roberto Rocha (PSDB-MA), para quem a vitória é de todos os prefeitos que se uniram para chegar a essa conquista. Segundo ele, “ao longo de décadas, a única coisa que os municípios maranhenses recebiam era o pó de minério e o apito do trem. Não ficava nada além disso”.
            A situação se equipara à do Vale do Rio Doce, onde há décadas enormes comboios da Vale percorrem dezenas de municípios mineiros e capixabas, transportando para o porto de Vitória milhões de toneladas de minério extraídas em Itabira. Tanto lá quanto cá, o legado é o mesmo.
            A partir de agora, essas cidades terão direito à recompensa pelos transtornos que lhes são impostos. Resta às autoridades competentes inteirar-se de seus direitos e correr atrás do prejuízo. Enquanto “seu lobo” não vem.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

A PRAÇA É AUREA


Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 19.07.2018

As cidades mais antigas e tradicionais, donas de um passado mais amplo, preferem batizar suas ruas, avenidas, praças e outros locais públicos com nomes das pessoas ilustres que ali tiveram alguma importância histórica ou atuação relevante. É a melhor forma de reverenciar e, ao mesmo tempo, perpetuar a memória daqueles que se destacaram, e, de alguma forma, contribuíram para o desenvolvimento da comunidade. Por isso, além de merecedores de deferências, é importante que sirvam de exemplo e permaneçam vivos na lembrança das gerações seguintes.
Em Valadares essa prática ainda não alcançou níveis desejáveis. Não porque a cidade seja jovem, ou porque lhe faltem personagens dignos de homenagens. A verdade é que, durante certo tempo, a questão foi negligenciada pelos que por ela deveriam zelar.
Nos seus 80 anos de emancipação, o município exibe um desenvolvimento próprio dos grandes centros, a ponto de ser considerado um polo regional. E essa posição só foi alcançada graças ao trabalho incansável e à dedicação de incontáveis homens e mulheres cujos nomes engrandeceriam quaisquer logradouros.
Há pontos em que a justiça já se faz presente, como na Praça Serra Lima, no Aeroporto Coronel Altino Machado D’ Oliveira, na Avenida Moacyr Paletta, na Escola Municipal Padre Eulálio Lafuente Elorz, na Univale-Campus Armando Vieira, na Eteit-Campus Antônio Rodrigues Coelho, na Vila (Afonso)Bretas, na Praça Euzébio Cabral e no Estádio José Mammoud Abbas, entre outros. Isso sem contar vários edifícios que herdaram nomes dos patriarcas das famílias que os construíram. Mas tem muito mais gente a homenagear.
Em texto recente (Chance de Se Redimir – 21.06.18), falei sobre o extraordinário, mas esquecido, Hermírio Gomes da Silva, falecido há quase 10 anos, e tomei a liberdade de aponta-lo como patrono da Praça de Esportes, existente no centro da cidade; tomara que a ideia repercuta!
A atual administração municipal tem dado inequívoca demonstração de que pretende recuperar o terreno perdido. Ainda há pouco, reverenciou o músico Jacenguay Souza Pettersen, o saudoso Guay, dando seu nome à concha acústica da Praça dos Pioneiros.
Na última terça-feira (17), as atenções se voltaram para a memória de Áurea Franco Machado, uma das mais queridas e ilustres mulheres de sua época. Na ocasião, aconteceu a reinauguração da Praça Treze de Maio, que, revitalizada, passou a se chamar Praça Aurita Franco Machado.  Popularmente conhecido como “Praça da Mulher da Boca Aberta”, o logradouro foi construído nos anos de 1964 e 1965, pelo então prefeito Joaquim Pedro Nascimento. À época, a intenção era homenagear as mulheres valadarenses que, lideradas por Áurea Machado, foram às ruas, aos gritos, protestando contra as ameaças ideológicas que pairavam sobre a nação. Esse grito, aliás, explica a mulher de boca aberta que inspirou o busto erguido no local.
Dona Aurita, como era carinhosamente chamada, se destacou como esposa e mãe, além do seu elevado nível cultural, do dinamismo, da coragem, e do espírito público que sempre pautaram sua maneira de agir. Esteve presente nos grandes momentos da vida comunitária valadarense, coadjuvando ou liderando ações quase impossíveis, mas afinal bem sucedidas. Entre essas, a entronização da imensa imagem de Nossa Senhora que hoje resplandece no Pico da Ibituruna. Sua participação foi também decisiva na criação da Escola Técnica de Enfermagem da Fadivale e na fundação da Sodami.
Para potencializar os seus méritos, Dona Aurita teve a graça e o privilégio de deixar herdeiros valorosos, que, tal como ela, alimentam e demonstram grande amor e dedicação por Valadares. Precisa mais?