domingo, 26 de janeiro de 2014

EFEITO RENOVADOR

              A cidade e a mulher possuem algumas características comuns. Ambas têm seus encantos, seus dilemas e suas crises. Gostam de bom tratamento, de dedicação e carinho, de se sentirem belas e atraentes, de conquistar espaços e de atrair parceiros de qualidade, sobretudo os dispostos a gastar e investir. Apostam nos filhos e ficam gratificadas e orgulhosas das vitórias por eles conquistadas. Fazem projetos auspiciosos e acalentam sonhos de crescimento. Têm um coração pulsante, alimentado pela confiança no futuro.
            O célebre Moraes Moreira, em uma de suas festejadas composições, reconheceu que “a mulher e a cidade / representam para mim / amor e liberdade. / A cidade é uma moça / também não tem idade. / É o espírito, a força da mocidade”.  
            Parecidas em muitos aspectos, se distanciam no modo de sentir os efeitos do tempo.
            Despercebido enquanto ela é jovem, o passar dos anos acaba se tornando algoz da mulher. Faz retrair suas energias, inibe-lhe o ânimo, modifica sua beleza externa, antes de tirá-la de cena.
            Já para a cidade, o adiantar do calendário tem efeito renovador. Abre horizontes, induz crescimento, progresso, consagra usos e costumes ou revela novas vocações. Para o bem ou para o mal, em algum sentido a cidade vai em frente; dificilmente retrocede. 
            Quem há muitos anos conhece Valadares percebe o quanto o aumento da idade lhe tem sido benéfico. O efeito renovador salta à vista.
           Desde a emancipação política, em 30/01/1938, sua história registra constantes avanços de maior ou menor intensidade. Transformou-se no pólo econômico regional, com larga influência sobre o leste e o nordeste mineiros, mais algumas áreas do Espírito Santo.
Mesmo sem céu de brigadeiro, sempre há teto e coragem para voar.
A cidade vem acumulando importantes conquistas; a Universidade Federal é uma delas. Sua recente inclusão na área de ação do Instituto de Desenvolvimento do Norte e Nordeste de Minas (Idene) é outro grande passo rumo ao desenvolvimento. O Hospital Regional e o Hospital da Unimed, ambos sendo construídos, contribuirão para consolidar a excelência dos recursos médicos locais. Enquanto isso a construção civil e outros ramos da atividade privada se juntam às ações institucionais para sustentar bons índices econômicos. E não seria absurdo apostar em dias melhores, se cumpridas as promessas de modernização do Aeroporto Coronel Altino Machado, de duplicação da BR-381 e de extensão do gasoduto até Valadares.
A localização estratégica, o perfil geográfico, a tranqüilidade político-social, a boa estrutura urbana, a estabilidade econômica e a visão empreendedora de suas lideranças são qualidades que explicam esse cenário.
Como toda cidade e toda mulher, Valadares requer manutenção periódica. Um retoque na maquiagem, um “reaperto” no esqueleto, um check-up, uma limpeza de pele, uma tintura de cabelos são imprescindíveis, saudáveis e fazem parte da rotina e da vaidade. 
           Na próxima quinta-feira, a cidade chegará aos 76 anos, sem demonstrar necessidade de uma grande recauchutagem. Nada de silicones, lipoaspirações ou redução de estômago; “tá tudo em cima”! Quando muito, um botox aqui ou acolá.
           Bonita e cativante, faltam-lhe apenas mais pretendentes de visão, que tenham dote, disposição e seriedade para investir no seu potencial.
Dispensados, lógico, os príncipes encantados que proporcionam a maravilhosa noite de Cinderela, seguida de uma frustrante vida de Gata Borralheira. De “malas”, oportunistas e enganadores Valadares já se cansou.

domingo, 12 de janeiro de 2014

BOLSA DA DISCÓRDIA

                Tudo começou com o Bolsa Escola, idealizado em 1986 pelo professor Cristovam Buarque, à época reitor da Universidade Federal de Brasília (UnB). O objetivo era pagar uma bolsa às famílias de jovens e crianças de baixa renda, como incentivo para que freqüentassem regularmente o colégio.
            A primeira expansão do programa aconteceu em Campinas (SP), onde foi implantado em janeiro de 1995.  No mesmo ano chegou ao Distrito Federal, então governado pelo próprio Cristovam Buarque. Foi enfim adotado pelo governo federal, em 2001, quando Fernando Henrique Cardoso presidia o Brasil. Nessa época o país contava com o programa “Comunidade Solidária”, em vigor desde janeiro de 1995, para combate à fome e a miséria, sob a presidência da ex-primeira-dama Ruth Cardoso.
            O “Comunidade Solidária” existiu até 2003, quando foi substituído pelo Programa Bolsa Família (PBF), do Governo Lula, criado para unificar Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Auxílio-Gás e outros programas sociais instituídos por FHC.
A partir de sua criação, o PBF transformou-se no cartão de visita do governo petista.
Pela contagem oficial, o programa atende anualmente quase 14 milhões de famílias, que representam mais de 50 milhões de pessoas. Números que nem mesmo os oposicionistas se atrevem a menosprezar.
Na última quinta-feira (9), a Lei que instituiu o Programa Bolsa Família completou 10 anos. Em uma década, a iniciativa conviveu com críticas e elogios, mas, no frigir dos ovos, acumulou resultados dignos de comemoração.
Interessante é a polêmica em torno do DNA do instrumento. Conscientes de sua importância social e de sua força eleitoral, até os adversários brigam para ser “o pai da criança”. Como reza o dito popular, “filho feio não nem pai”, mas se a criança é bonita não falta quem queira assumir a paternidade. Um jogo de “quem é quem”, onde os pretensos criadores aproveitam para se proclamarem guardiões de um benefício que, segundo eles, a outra parte sempre cogita abolir.
A questão repercutiu em várias eleições, mas corre sério risco de ficar fora dos palanques.
É que, no apagar das luzes de 2013, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou projeto do senador Aécio Neves (PSDB-MG), que converte o Bolsa Família em um programa de Estado. Pela proposta, o benefício se incorpora à Lei Orgânica de Assistência Social (LOAS) e se torna permanente, preso às políticas públicas de assistência social e erradicação da pobreza no país.
O projeto foi apresentado em fins do último outubro, quando Lula dizia que, se eleita, a oposição extinguiria o Bolsa Família. Na ocasião, o líder tucano argumentou que as famílias cadastradas no programa não podem conviver com o "terrorismo" de sua extinção, com ameaças feitas por aliados da presidente que desejam se "perpetuar no poder". 
O presidente do Partido dos Trabalhadores, Rui Falcão, reagiu com ironia, dizendo que “o Bolsa Família, maior programa de inclusão social do mundo, acaba de receber surpreendente láurea”. Esclareceu que se tratava da confirmação de seus méritos por gente que, até pouco tempo, o tachava de "bolsa esmola". Mas advertiu que o reconhecimento por parte de Aécio não vinha como um tributo aos muitos méritos do PBF, sim “com um viés de cunho eleitoreiro”, associando-se de forma oportunista à celebração do aniversário do programa, para apresentar um projeto que visa transformar o Bolsa Família em lei. “No entanto, projetos eleitorais à parte, o Bolsa Família, como ele (Aécio) bem sabe, já é lei! (…) É a lei nº 10.836, de 9 janeiro de 2004, promulgada no governo do presidente Lula”, acrescentou Falcão.
Antes de finalizar, o líder petista disse que “se o senador é sincero em seus propósitos mudancistas e em seu empenho de valorizar o Bolsa Família, melhor seria não reinventar a roda”.
Ainda indefinido, este é apenas mais um dos muitos “rounds” que deverão acontecer até as eleições.  Neste parece que a oposição está levando vantagem. Resta, porém, muito tempo de luta. Melhor ficar de olho no placar.


 Diário do Rio Doce

sábado, 4 de janeiro de 2014

SEMPRE O MESMO

            Decorridas as festas de Natal e Ano Bom, o desafio passa a ser acomodar na agenda tudo o que está programado para o “restinho de 2014”.
            Até 04 de março, não tem pra ninguém; Momo reina absoluto. O espírito de carnaval se aloja na mente de cada brasileiro, Nada consegue atrapalhar a concentração dos foliões, exceto – claro! – a fatura do cartão de crédito, engordada pelas compras natalinas, e os gastos com IPTU, IPVA, matrículas e materiais escolares, inevitáveis nesta época do ano.
            Quando o pessoal começa a se refazer da rebordosa, chega abril, com um feriadão de pelo menos quatro dias (18 a 21), emendando Semana Santa e o Dia de Tiradentes. Chance de nova esticada às áreas de lazer, em busca de bronzeado e forças para enfrentar o feriadão que virá logo a seguir. Para a alegria de todos e felicidade geral da nação, o Dia do Trabalho, este ano, acontecerá numa quinta-feira.
             A essa altura, o Brasil já estará vestindo verde/amarelo, ”ligadaço” na Copa do Mundo que se iniciará em 12 de junho, com o jogo Brasil e Croácia. Nos 30 dias seguintes, ninguém pensará noutra coisa, a não ser em futebol.
            Além de ser alcançado por jogos da Copa, julho é época de férias escolares, que sempre envolvem mais viagens e outras induções ao relax.
            O Dia dos Pais e o Dia do Soldado impedem que agosto passe em “brancas nuvens”.
            Quando setembro vier, haja coração.  Além das festividades alusivas à Semana da Pátria, o brasileiro estará convivendo com a reta final da campanha política.
            As eleições para presidente, governadores, senadores, deputados federais, estaduais e distritais (estes só em Brasília) acontecerão no início de outubro (05), e tudo leva a crer que a disputa será ferrenha.
            Se necessário, o segundo turno está previsto para 26/10, na base do salve-se quem puder. Será “briga de cachorro grande”.
            Quando menos se espera, novembro e dezembro estão de volta, trazendo consigo luzes coloridas, vitrines e árvores iluminadas. Papai Noel, “jingle Bells”, perus, leitoas, frutas de época, panetones, champagne, show de Roberto Carlos, tudo na base do “vale a pena ver (e consumir) de novo”.
            Repete-se o círculo vicioso, sob o olhar passivo de uma elite acomodada, desinteressada ou incapaz de promover renovações.
            Nenhuma mudança, só mesmice. Quem até então nada fez, dificilmente fará alguma coisa; “Inês é morta”!
            Outro calendário irá pra lixeira, num piscar de olhos.
            O primeiro de janeiro continua sendo apenas o primeiro dia de um novo fim de ano.
            Melhor para os que nunca saem do “clima”, mas insistem em dizer que só bebem nessa época. Não precisam largar o copo.

 

Exclusivo para o Blog

domingo, 29 de dezembro de 2013

ESTAÇÃO DE PERIGO

            Temporada de férias, muitas festas, muitas viagens e muitas chuvas, dezembro e janeiro são também meses de grandes tragédias.
            Violência urbana, graves acidentes rodoviários, tempestades, inundações, deslizamentos de terra e outras tristes ocorrências são cada vez mais frequentes, com mortos, feridos e enormes prejuízos materiais.
            A grande corrida em busca de descanso e distração aumenta o movimento nas estradas e eleva a concentração de pessoas nas praias, estâncias hidrominerais, pousadas e outros locais aprazíveis, mas nem sempre seguros.
            Acrescente-se a isso o maior consumo de bebidas alcoólicas e outras drogas, a imprudência ao volante, a má conservação das estradas, a fiscalização deficiente, o desrespeito às normas de segurança e as agressões ao meio ambiente, ingredientes perfeitos para finais melancólicos.
            Parece ser o tempo em que a natureza e as forças sobrenaturais se unem para um acerto com os humanos, atraindo-os para situações e locais onde a cobrança é coletiva, rigorosa e impiedosa. Justos e pecadores são punidos por erros próprios e de terceiros.
            Permanece na memória nacional, por exemplo, a tragédia acontecida na Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro, no início de 2011. Enorme quantidade de moradores e turistas ali perdeu a vida, vítima de violenta avalanche que soterrou tudo e todos que estavam em seu caminho. Os números oficiais, ainda hoje discutíveis, apontam quase mil mortes e cerca de duzentos desaparecidos, afora milhares de desabrigados.
Neste ano, até o momento, a conta está com Minas Gerais e Espírito Santo, onde fortes chuvas e o Rio Doce colocaram várias cidades em situação de emergência, inclusive Governador Valadares. Um balanço parcial da calamidade inclui dezenas de mortos e mais de 60.000 desalojados. Só na cidade mineira de Sardoá, seis pessoas da mesma família morreram soterradas. São muitos os que pagam alto preço por ocupar áreas de risco, erro quase sempre imperdoável.  
            A maior preocupação, entretanto, são os deslocamentos rodoviários.
            Nesta época o fluxo de veículos amplia consideravelmente e o número de motoristas não acostumados a estradas aumenta quase na mesma proporção. O resultado está expresso nos mais de três mil acidentes registrados no último feriado de Natal, quando o número de mortos ficou acima de duzentos e o de feridos aproximou-se de mil. Em Minas, a Polícia Militar Rodoviária estima que passe de 55 a quantidade de vítimas fatais em desastres rodoviários.
            De forma simplista, o governo não titubeou em criar um factóide, atribuindo ao motorista alcoolizado a maior culpa por esse caos. Nada mais cômodo do que arranjar um bode expiatório! Flagrado pelo bafômetro, o bebum, além da multa, pagará o pato pelas estradas obsoletas, esburacadas, mal sinalizadas, sem adequada fiscalização e congestionadas por uma frota de veículos que cresce descontroladamente.
            Sem intenção de defender os bêbados do volante, é tempo de compartilhar responsabilidades. É inconcebível que os agentes da segurança pública permaneçam livres das penalidades aplicáveis aos que, por ação ou omissão, contribuam para a ocorrência de tragédias. Devem ser rigorosamente punidos por negligência, indiferença e desrespeito à vida, tanto quanto os infratores da Lei Seca.
            A estação do lazer está aberta. Viagens de ida e vinda estarão acontecendo, chova ou faça sol. Tem gente já pensando no carnaval.
            Tudo indica que a coisa permanecerá na base do salve-se quem puder. Fatalidades são incontroláveis, mas há meios minimizar seus efeitos. Um deles é conscientizar-se de que o risco existe, por menor que seja. Faça as contas.  

Diário do Rio Doce
29.12.2013

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 22 de dezembro de 2013

EFEITO ORLOFF

                Nos muitos anos que moramos em Brasília, eu e minha família enfrentamos desafios corriqueiros, mas nada fáceis de contornar.
            Um deles foi a distância. Nem tanto a da capital até Valadares, viajada com o entusiasmo dos que retornavam às origens. Difícil era fazer o sentido contrário, olhando pelo retrovisor coisas boas e muita gente querida. São cerca de 1000 quilômetros difíceis de encarar, sobretudo naquela época, pilotando veículos sem direção hidráulica, ar condicionado, kit multimídia e outros breguetes. Percurso estressante, com retas intermináveis e trechos de alto risco. Mas o jeito era pôr o carro na estrada e acelerar, rezando pra chegar.
            Durante esse tempo, a saudade foi grande e inseparável companheira. Sábia, dedicada e persistente, nunca aborreceu. Pelo contrário, foi responsável por manter vivas importantes recordações.
            Distância e lembrança instigam o desejo de reencontrar alguém ou alguma coisa.
            Nosso foco eram os pais, irmãos, outros familiares, amigos e cenários que são partes da gente.
            Tudo acontecia numa boa. Queríamos vir, eles queriam que viéssemos. O porém era a longa viagem, sempre feita sob rígidas recomendações de cautela. As mesmas hoje repassadas ao filho Rodney, que planeja vir de Brasília, para curtir conosco o réveillon, trazendo esposa e filha. Os pais têm a estranha mania de se preocuparem com a segurança de suas crias, sobretudo quando os netos estão juntos.
            Entre idas e vindas, num belo dia, eu e Marlene voltamos pra ficar. Presos a compromissos, os filhos permaneceram na sua.  Agora somos nós cá, eles lá, cada qual no seu CEP.
            O tempo passou e a carruagem andou: pais e mães nos deixaram, um irmão se foi, e alguns amigos também. Mas outros se juntaram, e por sorte temos com quem dividir emoções.
            Difíceis são “aquelas” ocasiões especiais. As que misturam agito, cachorro latindo, crianças correndo pela casa, apertos de mãos e afagos em família. Tudo a ver com o Natal. Não dá pra ficar cada um no seu canto. As redes sociais permitem o tête-à-tête virtual, não o frisson do corpo a corpo.
            Neste ano, nossa festa tende a ser meio borocoxô. Por mais que haja familiares e amigos com quem confraternizar, já sentimos a falta dos “meninos”. Sobrou-nos a difícil tarefa de segurar o vazio que outrora sufocava nossos pais, quando, esperando na janela, convenciam-se de que não iríamos chegar; ficavam a ver navios.
A ficha cai e revela que a vida é uma sucessão sucessiva de sucessões sucessivas.  Tese “sub judice”, inspirada no infalível “efeito Orloff”.
É só um papo inusitado. Nada além de fossa natalina, sinalizando que é hora de pegada, de estender a mão e abraçar apertado. Tempo de saudade e de quero colo.
 
           Feliz Natal, sem medo de chorar!

sábado, 14 de dezembro de 2013

SEIOS SEM MÁSCARAS


         As megamanifestações de junho traçaram um marco divisório na história do Brasil. A partir de então, o país inseriu-se no seleto grupo de pacatas nações tipo Síria, Egito, Iraque, Afeganistão e outras, onde as coisas só se conseguem na base de comportados protestos..., quando se conseguem.
Tudo acontecia em clima de normalidade, até que grupos de arruaceiros se infiltraram e passaram a cometer todo tipo de vandalismo. Irresponsáveis, criaram um clima de guerra, destruindo patrimônio público, depredando e incendiando veículos, lojas e agências bancárias, afora outras selvagerias. As manifestações, que se propunham ser ordeiras e civilizadas, acabaram em violentos confrontos
A grande preocupação desses baderneiros, apelidados de “black blocs”, tem sido a camuflagem.  Cobrem o rosto com camisas, gorros, máscaras e outros adereços que dificultem ou até impeçam a identificação. Sua ação nefasta e criminosa fez surgir, no Rio de Janeiro, uma lei que proíbe o uso de máscaras em protestos de rua, sejam elas de Zorro, Batman, Joaquim Barbosa, Papa Francisco, Lula, Sarney ou quem quer que seja. Protestar, só de cara limpa.
Mas a natureza humana abriga caprichos e contradições. Enquanto uns se escondem para protestar, outros protestam pelo direito de se mostrar.
No próximo sábado, 21, início da estação mais quente do ano, um "Toplessaço" deverá acontecer na orla carioca de Ipanema, em defesa da “naturalização dos corpos”. Será um topless coletivo, bolado pela atriz e produtora Ana Rios. A idéia surgiu enquanto ela participava da Marcha das Vadias, em julho último, junto com a amiga Bruna Oliveira. Durante a marcha, ambas usavam sutiãs e outras integrantes faziam topless. Aborrecidas com a repressão, decidiram promover um “Toplessaço”, prevendo-o para o primeiro dia de verão.
O plano ganhou força após a notícia de que a atriz Cristina Flores foi repreendida por policiais militares, na Praia do Arpoador (14/11), quando era fotografada sem a parte superior do biquíni.
No entender de Ana, o moralismo e o machismo são os culpados pelo espanto que o topless ainda provoca nos brasileiros. "A mulher é vista como propriedade ou objeto a ser desejado. A gente tem muita dificuldade de ser só pessoa. Acaba que os hábitos são todos só baseados nisso. [O topless] é uma coisa que já se estabeleceu no mundo. A gente não conseguiu isso no Brasil. A gente tem o culto ao corpo, mas não tem uma aceitação dos corpos como eles são", disse ela.
Divulgado no Facebook, o plano ganhou o país. Segundo Ana, manifestações semelhantes estão sendo preparadas em inúmeras outras cidades. As promessas de adesão já estão acima de 10 mil pessoas. Aposta-se em sucesso total.
A questão é indiscutível. Negar à mulher o direito de exibir o busto seria uma decisão ingrata, hipócrita e discriminatória, pra dizer o mínimo. Se o homem pode fazê-lo, por que não a mulher? E não faltam machões com mamas até mais salientes que as do belo sexo. 
Importante levar em conta, entretanto, que, os seios sempre despertaram curiosidade e desejo, sobretudo quando sensualmente guardados. Nada tão excitante quanto aquele “um pouco de você” escondido em um ousado decote ou naquela “blusa que você usava e meio confusa desabotoava” – que o diga Roberto Carlos!
Desnudos e exibidos sem pudor, podem perder o encanto, o enigma e o poder de sedução que já valorizaram outros atributos femininos hoje vulgarizados. Compensa arriscar?

- Diário do Rio Doce
- Jornal de Domingo

COMENTÁRIOS


Flatônio
23:53 (5 minutos atrás)
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para mim
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Parabéns, companheiro, você hoje se superou: a crônica está uma delícia.
Pra você e a Marlene um bom domingo.
Abraço amigo do
Flatônio










sábado, 7 de dezembro de 2013

SURPRESAS E ESPERAS

            Seja pelas características pessoais ou por influência do calor, houve gente que surpreendeu nos últimos dias.
            Um deles foi o ex-ministro José Dirceu. Já com carteira assinada, dispensou um emprego de polpudos R$ 20 mil mensais para trabalhar como gerente do luxuoso Hotel Saint Peter, em Brasília. Segundo seu advogado, sentindo-se vítima de um linchamento midiático, ele assim procedeu “para diminuir o sofrimento dos empresários que lhe fizeram a oferta". Certamente referia-se ao panamenho José Eugênio Silva Ritter, um humilde auxiliar de escritório, lavador do próprio carro, que preside a Truston International Inc, controladora do cinco estrelas. Comovente!
            Para Dirceu, entretanto, que disse querer trabalhar “por necessidade”, não haverá problema: uma cooperativa do Distrito Federal, dedicada à ressocialização de presos, já lhe ofereceu R$ 508,50 mensais, para administrar a fabricação de artefatos de concreto. A proposta, protocolada no STF, se estende a Delúbio Soares (não como tesoureiro, sim como assistente de marcenaria, salário igual ao de Dirceu) e a José Genoíno (costurar bolas de futebol, ganhando R$ 5 por unidade). Resolvido!
            O ex-presidente do PT foi também protagonista de outro episódio inusitado. Quando todos esperavam que, de punhos erguidos, fosse lutar contra um eventual processo de cassação, Genoíno renunciou ao mandato. Na carta que encaminhou à Câmara, disse que “entre a humilhação (de ser cassado) e a ilegalidade prefiro o risco da luta e renuncio ao mandato”. A luta, pelo visto, será agora por um laudo médico que lhe garanta aposentadoria por invalidez e justifique que seja mantido no regime de prisão domiciliar em que se encontra.
            O deputado Valdemar Costa Neto, outro mensaleiro condenado, resolveu imitar Genoíno. Ordenada a sua prisão, abdicou do mandato, “para não impor ao Parlamento mais um constrangimento institucional”. Um inesperado gesto de grandeza!
            Quem de fato deixou todo mundo boquiaberto foi o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo. No cenário paradisíaco da Costa do Sauípe, onde o sol escaldante pode ter-lhe afetado o neurônio, ele surfou na imaginação.
            Falando sobre os atrasos na conclusão dos estádios para a Copa de 2014, comparou isso a um casamento.
            “No Brasil há uma instituição muito respeitada, o casamento”, disse o ministro. “É uma festa para duas pessoas. Geralmente um noiva e um noivo. 100% a noiva chegou atrasada. Nunca vi uma noiva chegar na hora. Nunca vi um casamento não acontecer por isso", arrematou.
            Na fantasia de Rebelo, o Brasil seria a noiva retardatária, a Fifa o noivo de plantão, e a Copa o casamento esperado.
            Foi uma forma espirituosa de admitir que alguns estádios não serão entregues no prazo estabelecido.
            O ministro quase acertou na analogia. Faltou-lhe observar que não se trata de demora da noiva, sim da construção da igreja. Haverá casamento?