domingo, 25 de maio de 2014

HAJA TUDO

            No frigir dos ovos, o mês de maio se encerra deixando um saldo positivo em Valadares.
            Logo de início (03 e 04), houve o tradicional GV Folia, carnaval fora de época que há vários anos se repete, sempre com enorme sucesso. Nem mesmo o feriadão do Dia do Trabalho, quando muita gente costuma viajar, impediu que um enorme público prestigiasse os dois dias de festa, alegria e vibração.
            Simultaneamente, a cidade era palco da primeira fase do Campeonato Brasileiro e Open Internacional de Parapente, promovido pela Associação de Voo Livre Ibituruna (AVLI) e pela Associação Brasileira de Voo Livre (ABVL), com apoio da Prefeitura Municipal.  Revestido de sucesso, o certame atraiu 140 pilotos de várias procedências, inclusive do exterior, o que confirma para Valadares a condição de capital mundial do voo livre.
            Enquanto isso, a Prefeitura finalmente desistiu de cobrir a passarela de pedestres da ponte da Ilha, obra paralisada pela Justiça. Para satisfação geral, removeu a estrutura metálica que há muito enfeava o local.
            O Dia das Mães aconteceu, como de praxe, alavancando as vendas e fazendo a alegria do comércio.
            A chegada de Dom Antônio Carlos Felix, para assumir a diocese local, foi o grande acontecimento religioso. Dom Felix, que era o bispo da cidade de Luz (MG), veio com a difícil missão de substituir Dom Werner Siebenbrok, figura das mais estimadas e admiradas pela comunidade local.  A posse aconteceu no dia 18, na Catedral de Santo Antônio, em solenidade presidida por Dom Geraldo Lhirio da Rocha, arcebispo metropolitano de Mariana (MG). Entre membros do clero, da sociedade religiosa, fiéis, autoridades políticas e militares, cerca de 5.000 pessoas prestigiaram o evento.
            No dia 12/05, numa decisão que satisfez velhos anseios de Valadares, da região, do Estado e de todo o país, a presidente Dilma Rousseff autorizou o início das obras de duplicação da BR 381, a famosa Rodovia da Morte, entre Belo Horizonte e Governador Valadares.
            Fechando o mês, com chave de ouro, a União Ruralista e o Atacadão Grupo Carrefour firmaram o contrato de negociação da área onde será erguido um dos maiores, senão o maior supermercado da cidade. Para melhorar, a limpeza e preparo do terreno já estão em curso, e o alvará de licença para a obra foi assinado no dia 23, conforme informação de fonte fidedigna.
            E como o embalo não pode parar, começam no próximo domingo as tradicionais quermesses de Santo Antônio, na Praça da Catedral, com duração até 13 de junho.
            Resta lembrar que o valadarense está em pleno clima de Copa do Mundo, pronto para o que der e vier ..., desde que seja a vitória do Brasil.
            Haja fôlego e coração para tantas emoções!
 
 
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domingo, 18 de maio de 2014

S.M., O CONSUMIDOR

            A polêmica em torno do funcionamento do comércio nos domingos e feriados é antiga e, pelo visto, interminável.
            As opiniões se dividem e, por mais que conversem as partes interessadas, nunca se chegou ao padrão universal de procedimento a adotar. O critério varia de cidade para cidade, de estado para estado, de país para país.  
            A questão é complexa, pois mexe com tradições, usos e costumes, princípios religiosos, interesses econômicos e sociais, enfim, uma gama de fatores a que comerciantes e comerciários se apegam na defesa de suas posições. E todos se arvoram de donos da razão, o que é compreensível.
            Um cardápio de ofertas mais variado, a possibilidade de compra e venda através da internet, afora outras modernidades, têm aumentado a concorrência, contribuindo para que muitas posições conservadoras sejam revistas.
            No mundo inteiro a flexibilização do horário de funcionamento do comércio virou tendência.
            Em Valadares, o setor varejista está submetido à Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) celebrada em novembro-2013, entre o Sindicato do Comércio de Governador Valadares (Sindicomércio) e o Sindicato dos Empregados no Comércio de Governador Valadares (Secom-GV).
            Por esse acordo, nos domingos e feriados, os supermercados, hipermercados, mercearias, armazéns, açougues e hortifrutigranjeiros passaram a funcionar de 8 às 14horas.  Antes, os supermercados podiam permanecer abertos até as 22 horas.
            Desprezado nas negociações, o consumidor não gostou da decisão. Prefere o regime anterior, que lhe dava mais tempo, conforto e facilidade para fazer compras.
            Por outro lado, interesses classistas à parte, uma cidade tipo Governador Valadares, com “status” de polo regional, precisa se dispor a fazer concessões, flexibilizar e romper com certos paradigmas.
O Cadastro Geral de Empregados e Desenvolvimento (Caged) mostra que em março último o número de desempregos nos setores de comércio e serviços valadarenses foi maior que o registrado no mesmo mês do ano anterior.
Na análise de Geralda Gonçalves, gerente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL-GV), entre os fatores que para isso contribuíram, está, especificamente, a redução do horário de funcionamento dos supermercados, nos domingos e feriados. Segundo ela, houve uma significativa quantidade de demissões em função disso.
Nada de ferir preceitos religiosos, muito menos contribuir para a desagregação familiar, tolhendo o descanso e o lazer a que todos têm direito. Na realidade, entretanto, pouco adianta brigar por essas regalias, sem ter condições econômico-financeiras de delas usufruir. Tanto assim que, se alguma empresa abrir inscrições para trabalho aos domingos e feriados, é provável que o número de interessados exceda as expectativas. Quando cada um sabe onde o sapato aperta, prevalece a Teoria da Conveniência.
            É sempre ruim restringir ou obrigar.  Ideal seria chegar-se a um consenso, onde cada segmento do comércio tivesse autonomia para determinar seu tempo de funcionamento.
            O horário livre, praticado em muitos outros locais, é também possível em Valadares, desde que, além de boa vontade, visão empresarial, e respeitadas as exigências legais, haja prévio entendimento entre patrões e empregados.
            No mais, é ouvir e acatar a vontade daquele que compra, gera impostos e faz as coisas acontecerem: Sua Majestade, o Consumidor.  

 

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sábado, 10 de maio de 2014

O SABOR DA CONQUISTA

            A mídia local não se cansa de ressaltar a importância do segmento educação, para o desenvolvimento sustentável de Valadares. Extensas reportagens têm mostrado, com riqueza de detalhes, a origem, as características e a importância das faculdades, universidades e outros educandários que fazem da cidade uma referência em termos de ensino.
             Sob essa ótica, entretanto, o leque é mais amplo.
            O setor saúde, por exemplo, computadas as ações médicas, odontológicas, hospitalares e afins, é outro que contribui de forma significativa para o prestígio e a sustentação da economia local. Afora os recursos da rede pública, dispomos de hospitais, clínicas, institutos e profissionais da melhor qualidade. Fatores que dão tranquilidade e conforto à população, atraem usuários de fora, gerando impostos e, principalmente, muitos empregos.
            Não menos importantes têm sido as realizações que fazem parte do calendário de eventos da cidade. Destaque para a Expoagro e a Expoleste, fundamentais para a divulgação dos produtos da terra, o intercâmbio comercial e a troca de experiências com empresários de outras regiões.
            Sem esquecer as datas festivas, a já tradicional Festa da Fantasia, as jornadas desportivas, os campeonatos de voo livre, as feiras, os eventos religiosos e outros acontecimentos, mesmo os de menor porte. Todos contribuem para aquecer as vendas do comércio, a utilização da rede hoteleira e as atividades ambulantes, elevando a receita municipal.
            Mas, se é pra enaltecer, nada mais justo que direcionar  aplausos para o Gevê Folia. O carnaval fora de época que há vários anos aqui acontece,  sempre com renovado êxito. Aliás, se todos os projetos locais fossem precedidos de semelhante planejamento e conduzidos com o mesmo zelo, igual competência e idêntico profissionalismo, Valadares seria campeã de sucessos.
            Na sua 19ª edição, acontecida no primeiro final de semana deste maio, nada saiu dos trilhos, como de praxe. Foram dois dias de festa, alegria e vibração, para um enorme público. Mega-atrações musicais, perfeita organização, horários, segurança, serviços, tudo conforme programado. Nenhuma decepção. Promotores, foliões, comunidade, todos ficaram satisfeitos e lucraram com o evento. Já começam a acumular energias para o próximo.
            É a forma como Valadares avança no tempo, suprindo suas carências e curtindo o sabor de cada conquista.  Resultado do louvável esforço de uma comunidade que não se acomoda, nem se rende às dificuldades. Pelo contrário, encara os desafios, utilizando seus próprios recursos, mas aberta a ajudas e boas parcerias. E é bola pra frente, porque a Copa vem aí, trazendo mais agitação! 

- Jornal de Domingo                     

 

 

domingo, 4 de maio de 2014

SABEDORIA DE RACHEL

             Por muitos anos, a cearense Rachel de Queiroz (1910-2003) deteve o cetro de grande dama da imprensa brasileira, escrevendo crônicas para a revista semanal “O Cruzeiro”, uma das mais importantes de seu tempo. Isso sem falar no prestígio que desfrutava como romancista, tradutora e teatróloga, primeira mulher a ter assento na Academia Brasileira de Letras.
            Em “Votar”, memorável artigo publicado na “O Cruzeiro” de janeiro/1947, ela ministrou verdadeira aula aos eleitores brasileiros.
            Começou realçando a importância da expressão “governo do povo”, que deve ser tomada no seu sentido mais literal, “porque, numa democracia, o ato de votar representa o ato de fazer o governo”.
            Na sequência, advertiu que “pelo voto não se serve a um amigo, não se combate um inimigo, não se presta ato de obediência a um chefe, não se satisfaz uma simpatia. Pelo voto a gente escolhe, de maneira definitiva e irrecorrível, o indivíduo ou grupo de indivíduos que nos vão governar por determinado prazo de tempo”.
            Em linguagem simples e didática, apontou quem são os escolhidos através do voto, alertando para os poderes de que eles se investirão.
            Lembrou “aqueles que nos vão cobrar impostos e, pior, aqueles que irão estipular a quantidade desses impostos”. E complementou: “Vejam como é grave a escolha desses cobradores. Uma vez lá em cima podem nos arrastar à penúria, nos chupar a última gota de sangue do corpo, nos arrancar o último vintém do bolso”.
            Noutra reflexão, fez ver que “pelo voto escolhem-se não só aqueles que vão receber, guardar e gerir a fazenda pública, mas também aqueles que vão ‘fabricar’ o dinheiro”. Considerou ser essa uma das missões mais delicadas que os votantes confiam aos seus escolhidos, “pois, se a função emissora cai em mãos desonestas, é o mesmo que ficar o país entregue a uma quadrilha de falsários. Eles desandam a emitir, sem conta nem limite, o dinheiro se multiplica tanto que vira papel sujo, e o que ontem valia mil, hoje não vale mais (que) zero”.
            Sob esses e outros exemplos, sugeriu que “quando vocês forem levianamente levar um voto para o Sr. Fulaninho que lhes fez um favor, ou para o Sr. Sicrano que tem tanta vontade de ser governador, coitadinho, ou para Beltrano que, tão amável, parou o automóvel, lhes deu uma carona e depois solicitou o seu sufrágio – lembrem-se de que não vão proporcionar a esses sujeitos um simples emprego bem remunerado. Vão lhes entregar um poder enorme e temeroso; vão fazê-los reis; vão lhes dar soldados para eles comandarem – e soldados são homens cuja principal virtude é a cega obediência às ordens dos chefes que lhes dá o povo”.
            Por isso, Rachel aconselha aos votantes: “Escolham com calma, pesem e meçam os candidatos, com muito mais paciência e desconfiança do que se estivessem escolhendo uma noiva. Porque, afinal, a mulher, quando é ruim, dá-se uma surra, devolve-se ao pai, pede-se desquite. E o governo, quando é ruim, ele é que nos dá a surra, ele é que nos põe na rua, tira o último pedaço de pão da boca dos nossos filhos e nos faz apodrecer na cadeia”.
            A brilhante escritora arriscou uma sugestão final: “se você estiver comprometido a votar com alguém, se sofrer pressão de algum poderoso para sufragar este ou aquele candidato, não se preocupe. Não se prenda infantilmente a uma promessa arrancada à sua pobreza, à sua dependência ou à sua timidez. Lembre-se de que o voto é secreto”.
            E arrematou: “Se o obrigam a prometer, prometa. Se tem medo de dizer não, diga sim. O crime não é seu, mas de quem tenta violar a sua livre escolha. Se, do lado de fora da seção eleitoral, você depende e tem medo, não se esqueça de que dentro da cabine indevassável você é um homem livre. Falte com a palavra dada à força, e escute apenas a sua consciência. Palavras o vento leva, mas a consciência não muda nunca, acompanha a gente até o inferno”.
            O texto foi escrito há 67 anos, mas a sabedoria de Rachel é duradoura; vale pra qualquer época!
 
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domingo, 27 de abril de 2014

CÁRCERES DO SOFRER

            Não é a primeira vez que um tema abordado pelo professor Luiz Alves Lopes serve de âncora para nosso comentário semanal.
            Figura das mais reverenciadas nos meios jurídicos e socioculturais valadarenses, Lopes, que todos conhecem como “Luizinho” da Fadivale (Faculdade de Direito Vale do Rio Doce), dispensa apresentação. Entretanto, para um ou outro desatento, não custa lembrar que se trata de um ferrenho defensor dos interesses comunitários, respeitado pela firmeza de atitudes e pela coerência das teses que defende.
            Em um dos seus mais recentes e preciosos textos, intitulado “Oportunidade para refletir e inovar”, Luizinho fala da “grave crise que assola o sistema prisional brasileiro”.
            Lembra que, alertadas quanto às mazelas que fazem parte do cotidiano das nossas prisões, suas estruturas e funcionamentos precários, as próprias autoridades vieram a público para dizer que alguns condenados por instâncias superiores não poderiam nelas cumprir suas penas. “Esqueceram ou ignoraram outros 500 mil encarcerados que estão a vegetar no mesmo sistema, independentemente do grau de culpabilidade de suas práticas delituosas”, disse ele, alfinetando que “dignidade não se mede pelo grau de escolaridade, cargo ou função exercida”.
            Aponta o presídio de Pedrinhas, no “Maranhão dos nobres Sarneys”, que, a seu ver, “é apenas mais um neste ‘mundão’ de Cabral a causar náusea e indignação a quem tem sentimento e temor a Deus”.
            Contrário ao que chama de “debate baixo, chulo, inconveniente e desumano”, apregoa que vivemos em um estado democrático de direito, onde normas e dispositivos legais devem ser respeitados.
Adverte que aos cidadãos presos e condenados são assegurados direitos e impostas obrigações, cabendo ao Estado zelar, fiscalizar e fazer cumprir a lei. “A pena não é castigo. Tem finalidade específica. Deve-se buscar o alcance de seu real objetivo”, afirmou.
A intenção de Luizinho, pelo visto, é provocar no governo e na sociedade uma reflexão mais profunda sobre a gravidade da situação atual, e mostrar que a Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac) existe e tem condições de ajudar.
Defensor intransigente e colaborador incondicional da entidade, ele acredita que o “Método Apac” poderá, a médio e longo prazo, contribuir para humanizar o sistema prisional brasileiro, ”resgatando a dignidade perdida ou dando dignidade a quem nunca teve: aquele que cumpre pena em nossos estabelecimentos”. Essa metodologia caracteriza-se pelo estabelecimento de uma disciplina rígida, baseada no respeito, na ordem, no trabalho e no envolvimento da família do sentenciado.
Nas palavras de Luizinho, “é objetivo da Apac promover a humanização das prisões, sem perder de vista a finalidade punitiva da pena. Seu propósito é evitar a reincidência no crime e oferecer alternativas para o condenado se recuperar”.
Em síntese, não se cogita acabar com os presídios, sim com os problemas sociais, as truculências e o ambiente perverso que os transformam em locais de humilhação, agruras e embrutecimento. Convenhamos que não seja querer muito!

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domingo, 20 de abril de 2014

IRONIA DAS DATAS

            A extensa agenda comemorativa brasileira aproxima três importantes datas: o Dia de Tiradentes, o aniversário de Brasília e o Dia do Descobrimento, celebrados entre amanhã e terça-feira.
            Essa aglutinação resulta irônica, ao sugerir que o Brasil chore a morte de seu principal herói, no mesmo dia em que festeja o nascimento de sua capital, na véspera de celebrar a própria descoberta.
            Antes comemorados em alto estilo e com grande entusiasmo, esses marcos históricos estão perdendo o magnetismo e enfrentam gradativo esquecimento.
            Se os festejos alusivos à fundação da Capital federal continuam despertando interesse de boa parte da população brasiliense, isso mais se deve aos espetáculos populares, estrelados por desportistas, bandas e artistas famosos incluídos na programação. Os demais eventos, em especial os de natureza cívica, são prestigiados quase só por autoridades e convidados obrigados a marcar presença.
A explicação estaria no fato de Brasília, mesmo permanecendo bela e exuberante, haver perdido parte de seu charme e poder de sedução, graças aos repetidos escândalos de que tem sido palco. Além disso, ostentando crescimento muito acima do imaginado por JK, a cidade completa 54 anos, com problemas de metrópoles centenárias, dificultando a mobilidade e desestimulando um maior envolvimento comunitário.
O Dia de Tiradentes, um dos mais importantes feriados nacionais, ainda resiste bravamente à queda de prestígio, entrincheirado na Terra das Alterosas, berço de Joaquim José da Silva Xavier. Os mineiros não economizam homenagens ao Mártir da Independência. No restante do país, entretanto, não se nota a mobilização de outras épocas, haja vista a melancolia com que a data vem transcorrendo.
            E a situação tende a se agravar, caso evolua a inusitada história de que Tiradentes seria uma farsa produzida pelos Inconfidentes. Segundo versões que circulam na internet, uma delas atribuída ao jornalista Guilhobel Aurélio Camargo, nosso grande herói teria terceirizado seu enforcamento e se mandado para a França, onde depois seria visto mais de pé que a Torre Eiffel. Em troca de ajuda financeira à sua família, o carpinteiro Isidro Gouveia, um ladrão condenado à morte, teria assumido a identidade de Tiradentes, para, com o rosto encoberto, ser executado em lugar do alferes.
            Já a façanha atribuída a Pedro Álvares Cabral ruma célere para a galeria dos grandes acontecimentos irrelevantes. Foi preterida até pela terça-feira de Carnaval, que tem status de feriado.
Pouco se fala do dia em que os navegantes portugueses encontraram a Terra de Vera Cruz. Quando muito, gozadores de plantão fazem piadas e chacotas com o descobrimento. Uma delas conta que, em certo momento, um olheiro da caravela portuguesa gritou que avistava um grande monte.  E Cabral, assustado, teria perguntado:     - De que?!   Era o Monte Pascoal!!!
 Há muitas explicações para a amnésia cívica que ameaça a nação. A mais plausível repousa no quanto as farsas contemporâneas podem ofuscar ou colocar em dúvida os registros históricos. O presente que inibe a confiança no futuro também incita a descrença no passado.
            Ainda bem que o Dia do Descobrimento coincide com o Dia da Mandioca. E o brasileiro é chegado a uma mandioca – a amarelinha, macia e, de preferência, com carne de sol e cerveja gelada. É a garantia de que o achado de Cabral continuará sendo comemorado, pelo menos nos bares da vida.
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domingo, 13 de abril de 2014

CONSELHOS HÍDRICOS

         O ser humano, de modo geral, e o brasileiro, em particular, não costumam levar muito a sério as advertências recebidas, preferem correr riscos. É que o se observa em relação a muitos problemas que poderiam ser evitados, mas acabam acontecendo, por indiferença ou menosprezo para com os sinais de alerta.
            Presente em diferentes circunstâncias, esse comportamento é comum nas tragédias provocadas por secas, enchentes, avalanches, terremotos, tsunamis, incêndios florestais e outros fenômenos naturais. Mesmo ciente dos riscos, o homem insiste em desafiar a natureza, permanecendo onde não devia ou comportando-se de maneira imprópria.
            A escassez de água ora enfrentada por São Paulo dá a exata dimensão desse conflito: o Estado encara sua pior crise em mais de 80 anos.
Segundo consta, a vulnerabilidade do sistema de abastecimento é conhecida pelo governo paulista desde dezembro de 2009. Naquela ocasião, relatório elaborado pela Fundação de Apoio à USP não apenas alertou para o problema como sugeriu medidas que fossem tomadas pelo órgão responsável (Sabesp), com vista a assegurar melhor gestão dos recursos hídricos.
Nada se fez, e a unidade federativa mais desenvolvida do país está às portas de um colapso d’água.
O problema existe em todo o planeta.
A redução do volume de água no mundo é constante e quase sempre sorrateira. Suas consequências nem sempre são imediatas. Quando se mostram, costuma ser tarde demais para que algo seja feito.
Estudos mostram que 40% da população mundial já são afetados pela falta de água.
Nas nações pobres, a dificuldade é mais drástica: grande maioria da população não tem acesso a água potável e saneamento.
Há previsões de que, nos próximos anos, as guerras não mais serão por petróleo, sim por recursos hídricos. O Brasil detém 13,7 % de toda a água potável no mundo. É o país mais rico nesse quesito, consequentemente, poderá tornar-se o mais visado.
Não é necessário percorrer longas distâncias, para achar alguém desperdiçando preciosos litros de água.  O desrespeito não tem jurisdição, porém é maior nas áreas centrais das cidades, onde os mais abastados insistem em longas limpezas de passeios, irrigações de plantas e jardins, lavagens de veículos e outras práticas que chegam a afrontar à comunidade, contribuindo para agravar o problema. Em condomínios, postos de combustíveis, lava-jatos, colégios, mansões, casas e outros locais é banal a água jorrar como se houvesse dilúvio.
A mudança desses hábitos é tão importante quanto a conscientização de que não se deve esperar o arrombamento da porta, para nela colocar um bom trinco.
Melhor prevenir do que remediar, pois, segundo um velho provérbio, “quem não houve conselho, ouve coitado”.
 
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