domingo, 19 de abril de 2015

ADEUS, GISELE!

                Nada de marasmo, calmaria ou paradeira.  A temporada 2015 tem sido pródiga em agitos e acontecimentos bombásticos.
            Tudo começou com a posse da Dilma Rousseff no seu segundo mandato. Nada demais, exceto o fato de ela haver assumido com ares de quem herdava um governo que só teria feito besteiras. A pretexto de ajustar a economia do país, mandou às favas o discurso de campanha. Elevou juros e impostos, reduziu benefícios do trabalhador, majorou o custo da energia elétrica e dos combustíveis, afora outras medidas que só contribuíram para aumentar a inflação e o descontentamento popular. Esquecida de que sucedeu a si mesma, Dilma agora tenta colocar cadeado numa porta que ela própria arrombou. E espera que o povo confie na sua capacidade para tanto. Mas isso é tema para especialistas.
            Melhor falar de mais coisas que também chamaram a atenção e mexeram com os nervos de brasileiros e brasileiras.
            Em termos urbanos, o destaque ficou por conta do gigantesco incêndio irrompido em um depósito de combustíveis próximo ao Porto de Santos. As chamas arderam por quase 10 dias, provocando o que já é considerado um dos maiores desastres comerciais do Brasil. Não houve mortes. Entretanto, afora incalculáveis prejuízos financeiros, são enormes os danos causados ao meio ambiente e aos moradores da área.
            Enquanto a Baixada Santista era abalada pelo fogo, na Câmara dos Deputados o tumulto ficou por conta de ratos que um servidor da Casa soltou no plenário da CPI da Petrobras. Era o momento em que João Vaccari Neto, agora ex-tesoureiro do PT, entrava no recinto, para prestar depoimento. Em meio à confusão, não faltou um engraçadinho aconselhando que ninguém se apavorasse, pois os bichinhos eram meros assessores de Vaccari. Sempre espirituoso, o humorista José “Macaco” Simão preferiu dizer que os roedores “foram visitar os colegas”. Logo contornado, o incidente em nada prejudicou a sessão. Isso coube ao depoente, que, desobrigado de dizer a verdade e de até mesmo responder às perguntas que lhe fossem formuladas, se limitou a irritar seus inquisidores. Vexame total!
            As manifestações de rua, no último domingo (12), foram marcantes, mas não tanto quanto seus organizadores esperavam. A adesão popular foi menor do que a contabilizada no movimento do 15 de março anterior. Segundo fontes oficiais, o governo recebeu com alívio esse resultado, mas prefere não se iludir. Na “cozinha” do Planalto, ninguém ignora que permanece alto o desagrado popular. Em análise que coincide com a da oposição, a ex-ministra Marina Silva disse que “menos gente nas ruas não significa menor insatisfação; ao contrário, pode até significar um aumento da desesperança, o represamento de uma revolta que pode retornar mais forte depois de algum tempo”. O problema é que protestos são como surpresas: se muito combinados e repetitivos, acabam perdendo a graça e a força.
            Política à parte, o que de fato marcou a atual temporada foi a inesperada atitude da bela Gisele Bündchen, que, na última quarta-feira (15), abandonou as passarelas. A despedida aconteceu na 39ª edição do São Paulo Fashion Week, onde a famosa top model comandou um emocionante desfile “verão 2016” da consagrada grife Colcci.

            A prisão do petista João Vaccari Neto, efetuada pela Polícia Federal, na mesma data, como parte da Operação Lava-Jato, poderia ter ofuscado o adeus de Gisele, mas ficou longe disso. A explicação é que a opinião pública, acostumada a tantos impactos, não mais se excita com a captura de coadjuvantes. Prefere guardar emoções para quando chegar a vez dos atores principais. Questão de tempo!

- Diário do Rio Doce (19.04.2015)

domingo, 12 de abril de 2015

PADRE JOÃO VERBEEK - Um holandês de coração valadaense


               No relacionamento homem/comunidade, a interação costuma ser tanta, que não sobra margem para análises isoladas. É a origem das famosas “histórias que se confundem”, do que JK e Brasília são ótimo exemplo.
            Sem fugir à regra, a cidade de Governador Valadares coleciona “chamegos” e parcerias antológicas. Sua biografia inclui bastante gente com quem se envolveu intensamente, a ponto de ambas se tornarem “um só corpo e uma só alma”. Pessoas que vestiram, valorizaram e suaram a camisa valadarense, como se fosse a própria pele.
            É o caso do padre João Verbeek, o holandês que aqui chegou em meados do século passado, na plenitude de seus 30 anos, acompanhado pelos conterrâneos e também sacerdotes Antônio Goolsens e Teodoro Grond, todos da Congregação do Espírito Santo.
            Em janeiro de 1951, ele assumiu e logo se tornou vigário da Paróquia de Santo Antônio, a única existente na cidade.
            Presença marcante, chamava atenção, não apenas por sua avantajada estrutura física, mas pela forma simpática e descontraída de se relacionar com a comunidade. Nem as dificuldades de idiomas atrapalhavam essa sinergia.
Naquele tempo em que os padres só se apresentavam de batinas, ora pretas, ora brancas, ele circulava pela cidade, pedalando uma humilde bicicleta, enquanto distribuía sorrisos, acenos e santinhos que cativavam paroquianos de todas as idades. Apesar do olhar severo, tinha um sorriso aberto e cativante, sobretudo para as crianças. Possuía o hábito de apertar forte a mão daqueles que cumprimentava, assim como forte era o tom de sua voz, nas pregações. 
            Na condição de vigário, recebeu da Arquidiocese de Diamantina a incumbência de aparelhar Valadares para acolher a futura diocese. A agenda incluía aprontar o palácio episcopal, a catedral e o seminário diocesano, além de angariar fundos que ajudassem na execução do plano. Paralelamente, deveriam ser construídas a igreja e a casa paroquial do bairro de Lourdes, para onde iriam os padres espiritanos, depois de instalado o novo bispado.
            Dinâmico e incansável, não se limitou a essas tarefas, que “tirou de letra”. Executou diversas outras, todas relevantes. E o fez sem comprometer a qualidade do trabalho pastoral, que sempre priorizou.
            De cara, desmistificou a ideia de que padre só constrói igrejas e obras do gênero. Edificou o Cine Pio XII, na esquina das ruas Israel Pinheiro e Arthur Bernardes, que, por muito tempo, foi confortável e excelente fonte de entretenimento para os valadarenses. Até uma missa dominical “das crianças” ali era celebrada.
            Na sequência, vieram a Maternidade Dom Serafim; o Hospital Menino Jesus; o edifício destinado a uma escola profissionalizante, mais tarde utilizado pelo Minas Instituto de Tecnologia (MIT); além de várias capelas e escolas. Sem contar a primeira Igreja de Lourdes (hoje Capela do Espírito santo) e a Casa Paroquial, ambas na Rua Paraná, o Clube Metrópole e a Matriz de Nossa Senhora de Lourdes, um dos mais belos templos da cidade.
Não é tudo o que fez, mas são obras que mostram a grandiosidade e a importância do legado que deixou para Valadares. Algo sem precedentes, em se tratando de alguém que não tinha envolvimentos políticos ou empresariais.
            Realizador por excelência, carismático e muito admirado, não raro era assediado para filiar-se a agremiações partidárias e, com grande chance de vitória, candidatar-se a prefeito municipal. Não falta quem diga que seu prestígio chegava a incomodar e a enciumar certos “caciques” da época. Ele, entretanto, consciente de seus deveres e fiel à sua vocação, não se deixou seduzir.
            Seu desapego ao sucesso ficou bem evidente quando, em 1968, abriu mão das conquistas valadarenses, fez as malas e mudou-se para a paróquia de Anápolis (GO).  Ainda passou algum tempo em Matozinhos (MG), antes de regressar à Holanda, pensando em lá viver como padre aposentado. Não conseguiu. A saudade o trouxe de volta ao Brasil, para rever e despedir-se do povo que aprendeu a amar.
            Já deficiente auditivo, e locomovendo-se com dificuldade, retornou de vez à Holanda, onde, no seu convento de origem, com 83 anos, faleceu sentado numa poltrona e lendo jornal. O calendário marcava 24 de outubro de 2004.
            Em tributo ao muito que fez por Valadares, o viaduto sobre a linha férrea da Vale, ligando o Bairro Altinópolis e adjacências,  recebeu seu nome. É pouco, comparado aos seus méritos. Mas, pelo menos, faz lembrar a forma obstinada com que lutava para encurtar caminhos e aproximar pessoas.
            Em meio ao egoísmo, à individualidade e à indiferença que hoje proliferam, poucos têm a coragem de abandonar o aconchego familiar, a tranquilidade e a proteção da terra natal, para sair mundo afora, ajudando o próximo. Só os idealistas, desprendidos e solidários se dispõem a tanto. Eles se impõem metas e missões que colocam acima de obstáculos. João Verbeek fez disso o seu postulado.

            Nas quase duas décadas de convivência, a sintonia entre ele e Valadares foi perfeita.  Juntos, escreveram, a quatro mãos, memoráveis capítulos da epopeia local. Tinham características distintas, mas os objetivos se complementavam: uma cidade buscando ajuda e um sacerdote ávido por ajudar. Só podia dar certo. E deu!

(Texto para a revista "Suindara" - edição de março/2015 - da Academia Valadarense de Letras)

domingo, 29 de março de 2015

SEM AZUL NO CEU

            Se não é das menos favorecidas, Governador Valadares também não está entre as cidades mais privilegiadas em termos de ligação rodoviária com os grandes centros do país.
            As deficiências vêm de longa data, desde quando o valadarense sentiu necessidade de interagir com outras comunidades.
            Basta lembrar que, até 1963, quando foi concluído o asfaltamento da Rio-Bahia, o caminho entre Valadares e o Rio de Janeiro incluía cerca de 400 quilômetros de terra batida e muita poeira, até Leopoldina. Percorrê-los era um sacrifício, sobretudo para os que o faziam em condução própria.
            Não menos desgastante era a viagem para Vitória, feita através de Realeza. De lá à capital capixaba eram outros quase 260 quilômetros repletos de curvas extremamente perigosas. Só muito mais tarde surgiu a estrada que passa por Colatina.
            Pior era deslocar para Belo Horizonte. A maioria das pessoas viajava no trem da Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFVM), até Nova Era. Ali baldeava para o trem da Central do Brasil ou pegava ônibus, para chegar à capital mineira. Tudo porque a implantação e a pavimentação da MG-4, hoje BR-381, entre GV e BH, iniciadas em 1952 e executadas por etapas, só foram concluídas em 1971.
            O passar dos anos amenizou, mas não eliminou os problemas.
            As rodovias que servem à cidade receberam melhoramentos e são alvo de manutenção, porém sempre deixam a desejar.
            A Rio-Bahia há muito se mostra obsoleta, diante do incontrolável aumento da frota de veículos.            Quanto à BR-381, o simples fato de ser chamada Rodovia da Morte basta para desnudar o grau de sua ineficiência e os riscos a que estão expostos seus usuários.
            O trem da EFVM – ou Trem da Vale – permanece como confortável e segura alternativa para a locomoção entre Belô e Vitória. Mas peca pelo itinerário restrito, pela duração da viagem e por oferecer apenas um giro diário.
            Nesse contexto, cresce a importância do transporte aéreo. É o mais capaz de suprir a escassez de tempo dos empresários, a urgência requerida por certos problemas, a comodidade e a agilidade que muitos procuram e por elas podem pagar.
            Valadares foi servida por grandes companhias aéreas, como Nacional, Real e Panair. Já em meados do século passado, elas ofereciam voos para as capitais da Região Sudeste e outras localidades. Na época, operavam no “campo de aviação” localizado onde hoje é o Bairro de Lourdes.
            Com o advento do aeroporto Coronel Altino Machado de Oliveira, outras empresas estiveram em ação, sendo que, no momento, a Azul Linhas Aéreas é a única atuante na cidade.·.
         Pois é justamente ela que, favorecida pela falta de concorrência, anuncia a suspensão dos voos diretos do Aeroporto da Pampulha, em BH, para Valadares, Ipatinga, Montes Claros e Uberlândia, a partir de 11 de maio.
           Inteiramente prejudicial aos interesses comunitários, a decisão requer enérgica reação das autoridades responsáveis pelas cidades atingidas. Isoladamente ou em conjunto, deverão elas esgotar todas as possibilidades de entendimento com a empresa aérea e com os poderes competentes, visando impedir que o despropósito aconteça.
            Pelo menos em Valadares, a Azul pousou com a promessa de manter e até ampliar os serviços então prestados pela Trip Linhas Aéreas. Se romper com tal compromisso, sem explicações e justificativas plausíveis, isso não pode lhe sair barato.
            A bola fica com a Prefeitura, nossos deputados, outros políticos e as entidades representativas do empresariado e da sociedade local. E que ninguém se iluda com facilidades. O jogo promete ser pesado.

- Diário do Rio Doce

domingo, 25 de janeiro de 2015

EFEITO RENOVADOR

              A cidade e a mulher possuem algumas características comuns. Ambas têm seus encantos, seus dilemas e suas crises. Gostam de bom tratamento, de dedicação e carinho, de se sentirem belas e atraentes, de conquistar espaços e de atrair parceiros de qualidade, sobretudo os dispostos a gastar e investir. Apostam nos filhos e ficam gratificadas e orgulhosas das vitórias por eles conquistadas. Fazem projetos auspiciosos e acalentam sonhos de crescimento. Têm um coração pulsante, alimentado pela confiança no futuro.
            O célebre Moraes Moreira, em uma de suas festejadas composições, reconheceu que “a mulher e a cidade / representam para mim / amor e liberdade. / A cidade é uma moça / também não tem idade. / É o espírito, a força da mocidade”. 
            Parecidas em muitos aspectos, se distanciam no modo de sentir os efeitos do tempo.
            Despercebido enquanto ela é jovem, o passar dos anos acaba se tornando algoz da mulher. Faz retrair suas energias, inibe-lhe o ânimo, modifica sua beleza externa, antes de tirá-la de cena.
            Já para a cidade, o adiantar do calendário tem efeito renovador. Abre horizontes, induz crescimento, progresso, consagra usos e costumes ou revela novas vocações. Para o bem ou para o mal, em algum sentido a cidade vai em frente; dificilmente retrocede. 
            Quem há muitos anos conhece Valadares percebe o quanto o aumento da idade lhe tem sido benéfico. O efeito renovador salta à vista.
           Desde a emancipação política, em 30/01/1938, sua história registra constantes avanços de maior ou menor intensidade. Transformou-se no pólo econômico regional, com larga influência sobre o leste e o nordeste mineiros, mais algumas áreas do Espírito Santo.
Mesmo sem céu de brigadeiro, sempre há teto e coragem para voar.
A cidade vem acumulando importantes conquistas; a Universidade Federal é uma delas. Sua inclusão na área de atuação do Instituto de Desenvolvimento do Norte e Nordeste de Minas (Idene) foi outro grande passo rumo ao desenvolvimento. O Hospital Regional e o Hospital da Unimed, ambos sendo construídos, contribuirão para consolidar a excelência dos recursos médicos locais. Enquanto isso,  a construção civil e outros ramos da atividade privada se juntam às ações institucionais, para sustentar bons índices econômicos. E não seria absurdo apostar em dias melhores, se cumpridas as promessas de modernização do Aeroporto Coronel Altino Machado, de duplicação da BR-381 e de extensão do gasoduto até Valadares.
A localização estratégica, o perfil geográfico, a tranquilidade político-social, a boa estrutura urbana, a estabilidade econômica e a visão empreendedora de suas lideranças são qualidades que explicam esse cenário.
Como toda cidade e toda mulher, Valadares requer manutenção periódica. Um retoque na maquiagem, um “reaperto” no esqueleto, um check-up, uma limpeza de pele, uma tintura de cabelos são imprescindíveis, saudáveis e fazem parte da rotina e da vaidade. 
           Na próxima sexta-feira, 30, a cidade chegará aos 77 anos, sem demonstrar necessidade de uma grande recauchutagem. Nada de silicones, lipoaspirações ou redução de estômago; “tá tudo em cima”! Quando muito, um botox aqui ou acolá.
           Bonita e cativante, faltam-lhe apenas mais pretendentes de visão, que tenham dote, disposição e seriedade para investir no seu potencial.
Dispensados, lógico, os príncipes encantados que proporcionam a maravilhosa noite de Cinderela, seguida de uma frustrante vida de Gata Borralheira. De “malas”, oportunistas e enganadores Valadares se cansou.

- Diário do Rio Doce

domingo, 11 de janeiro de 2015

FURACÃO TEMER, O RETORNO

FURACÃO TEMER, O RETORNO
Etelmar Loureiro

            Remover montanha é moleza; basta ter fé ou recursos adequados. Difícil é reunir o povo na Esplanada dos Ministérios, em pleno feriado de ano-novo. Justo “naquele” horário vespertino, sol a pino, em que os “sobreviventes” do réveillon gostariam de estar numa praia, numa piscina ou mesmo nos braços de Morfeu, curtindo merecida ressaca. Pior para os “convidados” de alto nível, sujeitos a traje a rigor e maquiagem perfeita, afora “halls” e óculos escuros, pra esconder o bafo e as olheiras.
Se fosse para assistir a um show de Lady Gaga, Beyoncé, Madonna, Ivete Sangalo, Paul MacCartney, Rolling Stones, Roberto Carlos, Jota Quest ou até um “batidão” sertanejo, ainda daria pra “encarar”. Mas para prestigiar posse de políticos, convenhamos, é abusar da boa vontade, da ingenuidade e da indolência que, por sorte ou azar, dominam o povo brasileiro. Uma autêntica “roubada”!
Pois foi exatamente essa a “grande pedida” no nascer de 2015.
No Brasil, graças a uma legislação insólita e despropositada, o presidente da República e os governadores eleitos devem ser empossados no primeiro dia do ano, quando as atenções estão voltadas para coisas bem mais interessantes. Uma ocasião ruim pra todo mundo, por coincidir com as festas de virada de ano. Melhor seria uma época que não sacrificasse outros interesses. Aliás, poucos são os países onde as transições de mandatos ocorrem nessa data. A regra brasileira precisa ser mudada.
Mas a posse de Dilma Rousseff aconteceu e foi concorrida. Milhares de simpatizantes vieram de várias partes do país, em ônibus fretados pelo Partido dos Trabalhadores (PT) ou por conta própria, e chegaram a tempo de ver a festa. Embora em menor número do que em 2011, quando ela sucedeu Lula, seus seguidores lhe foram fiéis. Se não totalidade, os petistas eram maioria na Esplanada. A oposição diz que eles não se mobilizaram só pela posse. Teriam vindo também pelo regabofe, afora outros “estímulos”. O importante, entretanto, é que vieram.
Mas nem tudo transcorreu conforme esperado.
Pra começar, mesmo elegante e mantendo a postura de estadista, Dilma não transmitia a felicidade da vitória. Sem conseguir disfarçar a tensão, parecia caminhar para receber uma herança indesejável, de alguém que teria feito tudo errado. Demonstrava inconsciência de que estava sucedendo a si própria.
No discurso de posse, fria e desmotivada, passou a impressão de estar lendo a ata de uma assembleia de condomínio. Abusando da imodéstia, insistiu na autopromoção, em autoelogios, estatísticas e números que nem a todos convenceram ou empolgaram.
Por sorte, lá estava a vice-primeira-dama Marcela Temer, que mais uma vez roubou a cena e turbinou a festa.
Dessa vez, ela foi “poupada” de desfilar em carro aberto, talvez para não se expor ao sol e aos ventos da Esplanada. Ficou “protegida” em um carrão blindado, com vidros quase opacos. Cuidados que acabaram contribuindo para que Dilma, a bordo do reluzente Rolls Royce presidencial, monopolizasse as atenções populares, ao lado de sua também elegante filha, Paula Rousseff. Mera coincidência!
 Na subida da rampa, entretanto, o protocolo exigiu abertura de foco. Aí, não deu mais pra segurar: explode “furacão”!
Bela e elegante, Marcela brotou na paisagem, esbanjando charme e simpatia. Num vaporoso vestido cor-de-rosa, cabelos soltos, ela causou o mesmo frisson que em 2011 fez estremecer a Esplanada dos Ministérios, quando Dilma assumiu seu primeiro mandato.
Com a discrição que lhe é típica, a jovem senhora Temer procurou manter-se em segundo plano, quase sempre na retaguarda do marido, como se fora seu anjo protetor. Implacáveis refletores, entretanto, a perseguiam.
Marcela pouco se exibe. Mas, quando isso é inevitável, torna-se a musa do momento. Nessa vida cheia de surpresas, o tempo tem sido seu grande aliado. Preserva-lhe a beleza e a simplicidade, enquanto pavimenta o caminho que poderá levá-la a uma posição mais destacada. Predicados e torcida não lhe faltam.
Uma coisa é certa: aonde Michel for, ela irá atrás, sem temer!


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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

ARRUMAR A ALMA PARA 20015

Por Mônica Loureiro


Chegou o momento .. Hora da ”boa nova” .. Hora de arrumar as gavetas, tirar do armário o que não quero .. Ventilar o que uso pouco, mas que ainda gosto .. Mudar as coisas de lugar, fazer espaços, encontrar boas soluções .. Limpar os cabides empoeirados, trocar os sachês e experimentar outros aromas .. Dispensar o que não combina comigo .. Descobrir um jeito novo pra fazer o de sempre .. Este é meu momento de reciclar o chato e o fútil, produzir men
os lixo, inventar caminhos mais eficientes, formar novos ciclos, batalhar por novas conquistas .. Porque estou convicta de que a vida é um conjunto de movimentos rápidos, e que a mim cabe escolher: participar ou declinar .. Meu tempo tá curto pras decepções, frustrações, inabilidades, intolerâncias e incompatibilidades .. Não tenho mais tempo pra quebra-cabeças e quedas de braço .. Mais que isto, não quero gastar meu tempo assim .. Quero viver pelo que acredito e valorizo .. Quero despertar sorrisos, agregar, confortar e dividir com quem amo .. Quero a reciprocidade, a gentileza, a fluidez, o que ilumina meu espírito .. Quero praticar mais o desapego das coisas, das manias e vícios, em troca do valor da verdade, do querer bem, do respeito, da cumplicidade e da consideração .. Porque mais vale o esforço em semear, com dedicação, perseverança, uma pitada de utopia, de esperança, do que dispensar energia ignorando, fechando portas, ditando regras, julgando e remoendo .. Para trás não posso voltar, nem devo .. Com o que errei, aprendi .. Me resta seguir em frente, percebendo que os rostos que me trazem referência, afago, história, amor são meus tesouros, meu oxigênio, são velas de uma luz única e perene .. Não há indícios de um ano novo tranquilo .. Há dores, tragédias, injustiças, indignidade espalhadas pelo mundo .. Penso no que nossas crianças enfrentarão .. Investimos uma força tarefa pra que sejam nobres, dignas, educadas, honestas e para que, simplesmente, brinquem .. Mas, creio que a dificuldade amadurece, posiciona e estimula .. Não é possível pensar só num futuro ruim, enquanto ainda houver vontade para abrir as janelas do peito .. Enquanto houver sol e água, sentimentos bons, integridade, informação e fecundação, haverá esperança .. Desejo luz, energia boa e proteção de Deus a nós todos .. Desejo que consigamos nos organizar, desapegar, despoluir, desobstruir .. Que mais um ano sirva pra nos sentirmos privilegiados, pois nos foi concedido outro calendário .. Que possamos praticar atitudes que, efetivamente, contribuam com a dignidade, a justiça, a gentileza, o discernimento e a felicidade .. Que as dificuldades nos motivem a consertar, vacinar, entender, a preservar e valorizar mais pessoas, mais praias, mais árvores, mais bichos .. Desejo um primeiro dia de 2015 com alma limpa, de “brilho definido”, para nosso bom proveito !!

domingo, 28 de dezembro de 2014

2014, UM ANO DIFUSO

            A opinião pública e os meios de comunicação têm o hábito de rotular os anos vividos, em função de episódios que os marcaram.
            Em termos internacionais, por exemplo, o fim da Segunda Guerra Mundial (1945), a descida do homem na Lua (1969), a queda do Muro de Berlim (1989) e o ataque às Torres Gêmeas americanas (2001) se tonaram referência dos anos em que aconteceram.
            Na história recente brasileira, essa mesma repercussão alcançou o suicídio do presidente Getúlio Vargas (1954), a primeira conquista da Copa do Mundo de Futebol (1958), a inauguração de Brasília (1960), o fim da ditadura militar (1985) e o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello (1992), entre outros importantes episódios que sozinhos conseguem simbolizar uma época.
            Chegamos ao final de 2014, outro ano que entrará para a história. Não por um fato isolado, mas por acontecimentos difusos que, no mínimo, lhe conferem condição multiface.
            No cenário mundial, será lembrado como o “ano das atrocidades”, em alusão ao genocídio praticado pelo Estado Islâmico, cujos brutais militantes praticam todo tipo de crueldade contra mulheres, crianças e quem mais se atreva a não segui-los. Degolas e execuções brutais são mostradas ao mundo, ao vivo e a corres, em tempo real, como se fossem “pegadinhas do Sílvio Santos” ou “vídeocassetadas do Faustão”.
            Em contrapartida, ninguém se esquecerá de que foi o “ano da reconciliação” entre Cuba e Estados Unidos, pondo fim a uma rusga que bestamente se arrastava por mais de meio século. Ponto para Barack Obama e Raúl Castro, que, num gesto de bom senso, resolveram soltar as amarras do passado e, como disse Obama, admitir que “somos todos americanos”.
            Internamente, não faltarão ao brasileiro alternativas para “batizar” o ano que se encerra. Pode, quando muito, haver necessidade de rever alguns títulos antes concebidos.
            De início, aquele que seria o “ano da consagração” futebolística, transformou-se no “ano da frustração”. Jogando em casa, no “Mineirão”, contra a Alemanha, nossa seleção foi alijada da final do torneio, sob uma esmagadora goleada de 7 x 0. Um vexame bem maior que o de 1950, quando o Uruguai nos derrotou por 2x1, em pleno Maracanã.
            Outra ajuda para que a frustração seja um dos símbolos de 2014 é o imoral e infindável escândalo “petrolão”, envolvendo agentes públicos, empresários e políticos de todos os níveis.
            Como há males que vêm para bem, o mesmo escândalo contribuiu para que este seja também o “ano da coragem”, em reconhecimento ao trabalho do juiz federal Sérgio Moro. Especialista em apurar crimes de lavagem de dinheiro, ele não hesitou em mandar pra cadeia e manter presos influentes figurões do mundo empresarial brasileiro. E tem mais gente graúda na fila de espera.
            Mas nem isso impediu a nódoa de “ano do descaramento”, surgida da desfaçatez de nossos políticos. No apagar das luzes, momentos antes de aumentarem os próprios salários, reincidiram em mais um imoral esquema de troca-troca. Na base do ”é dando que se recebe”, aprovaram o projeto de lei que elimina a meta fiscal deste exercício, livrando a presidente da República do risco ser incriminada por descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal. Uma safadeza sem tamanho.
            Certas práticas e virtudes não têm pátria. Assim, 2014 acabou se salvando como “ano da autocrítica e da humildade”. Com a serenidade e a coerência de sempre, o aclamado Papa Francisco aproveitou uma reunião de Natal, para apontar e prescrever tratamento para muitas “enfermidades” que afligem sua Igreja. Ao final, num inédito encontro com funcionários do Vaticano, pediu perdão pelos seus erros e os de seus colaboradores.
            Ainda que parcial, este é o balanço de uma temporada de múltiplas características, merecedora de análise e reflexão, em busca de alivio para os maus presságios que ameaçam o próximo ano. Sem isso, como diria um renomado e anônimo astrólogo, é melhor passar batido, na próxima virada, e apostar em feliz 2016.

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