domingo, 17 de maio de 2015

NOIVAS DA CORTE

            A crônica dos enlaces matrimoniais é recheada de episódios inusitados. Alguns bem humorados e interessantes, sempre lembrados com alegria e satisfação. Outros decepcionantes, desastrosos, premeditados por gente mal-intencionada, entram para o rol das tristes recordações que todos tentam apagar.
            Para os principais personagens, o casamento é o evento “top” de suas vidas. Por isso, não medem esforços para que tudo seja o melhor possível (e impossível!). O envolvimento costuma ser tanto, que eles nem se dão conta de que estão promovendo um evento, que, como tal, está sujeito a “eventualidades”. E essas são praticamente inevitáveis.
            O imprevisto mais comum é aquele em que, na hora “H”, um dos nubentes “pipoca”, deixando o outro a ver navios, no pé do altar. Mas não faltam celebrantes que se esquecem da cerimônia e vão rezar em outra paróquia; apagões que se iniciam no momento em que a noiva está entrando na igreja e duram até além da festa; sem falar nos “ex-casos” que não raro se apresentam, tentando impedir o “sim”.
            O último baque para noivos e noivas teve como palco a cidade mais condizente com sua natureza. Aconteceu em Brasília, onde, segundo as más línguas, as festas de casamento só perdem, em quantidade, para as celebrações extraconjugais. E as vítimas nada têm a ver com a elite da “Bolsa Família”. São humildes integrantes da classe média alta que, incautas, caíram no conto do vigário de um modesto mas competente trambiqueiro. Cheio de boas intenções, ele aplicou um calote que vai além de R$ 1,4 milhão, em dezenas de noivas contratantes de seus serviços. Muitas delas com bodas em vias de acontecer.
            O “gente fina” é Chrisanto Lopes Netto Galvão, dono de uma das mais requisitadas empresas de decoração de eventos da Capital Federal.
Ele foi até atencioso. Através de e-mail, informou à sua vasta clientela que, devido a problemas financeiros, não poderia cumprir os compromissos assumidos.  Acrescentou que estava sob sofrimento psicológico e pediu desculpas por “comprometer o sonho das noivas”. Isso depois de se submeter aos cuidados de um salão de beleza, fazer as malas e se mandar para Paris, com o propósito de curtir depressão, às margens do Sena, no aconchego de Pigalle, contemplando a Torre Eiffel. Enquanto isso, suas vítimas, financeira e emocionalmente abaladas, estão se segurando na base do Lexotan e de outros tranquilizantes, sem saber como agir.
            O golpe foi manchete nos principais jornais brasilienses, e mereceu destaque nos meios de comunicação nacional. O episódio repercutiu mais do que os desdobramentos da Operação Lava-Jato e as maldades com que, nos últimos dias, os trabalhadores e aposentados do país foram “premiados” pelo governo petista, com as bênçãos do Congresso Nacional.
            Indiciado por estelionato, o malandro teve pedida sua prisão preventiva, e corre o risco de tornar-se objeto de desejo da Interpol.
            Mas o caso pode ser equacionado antes do que se pensa. A boca miúda, espirituosos gozadoress têm espalhado que Netto Galvão, fiel à tendência da temporada, estaria disposto a abrir o jogo, em uma delação premiada que tenta negociar. Logrando êxito, revelaria que tudo não passou de complô com alguns noivos interessados em “vazar” do compromisso.

E esse plano ia bem, até que uma desconfiada noiva, metida a detetive, acabou descobrindo, também, que seu futuro cônjuge estava comprometido com dois eventos do gênero. Um dos quais não era com ela. Como de hábito, ninguém sabe, ninguém viu. Mas dizem que o pau quebrou. Coisa de mulher! 

Diário do Rio Doce

quarta-feira, 13 de maio de 2015

ADEUS, RONALDO!

Ronaldo Perim será sempre lembrado pelo espírito progressista, pelo dinamismo, pelo talento realizador e pelo muito que fez por Governador Valadares. Tais virtudes, somadas aos seus muitos méritos pessoais, o colocam entre os mais representativos homens públicos locais, além de ser o único a se eleger primeiro vice-presidente da Câmara dos Deputados, condição que o incluía na linha sucessória do Presidente da República.
Sua prematura partida abre imensa lacuna no cenário econômico, político e social da cidade à qual ele se dedicou de corpo e alma, deixando as  melhores recordações.

Reverenciar sua memória, mais que um dever, é um gesto de grandeza e reconhecimento de uma sociedade que se orgulha de ser justa.

(Ronaldo Perim faleceu em 12.05.2015, em São Paulo(SP), onde estava sob tratamento, devido a complicações cardíacas.. Seu corpo foi sepultado no dia seguinte, no Cemitério Santo Antonio, em Governador Valadares-MG).

domingo, 3 de maio de 2015

GUERRA É GUERRA

            Apesar das pancadas que tem levado e dos engodos de que tem sido vítima, a opinião pública brasileira ainda consegue reagir a provocações, mesmo quando sabe que estará chovendo no molhado.
            Nem sempre atua de forma coesa. Ao contrário, costuma polarizar-se, de forma explicita e categórica, cada parte defendendo ardorosamente seu modo de pensar. Prova disso são as mais diferentes reações observadas em relação ao brasileiro Rodrigo Gulart, executado na última quarta-feira (28), na Indonésia, onde foi condenado à morte, por tráfico de drogas.
            Diferente do que se poderia imaginar, o ato contou com o aval, ou, no mínimo, a compreensão de grande maioria dos que sobre ele opinaram. No Facebook, no Twiter e em outras redes sociais, foram fartas as manifestações de apoio ao presidente indonésio Joko Widodo, que não cedeu às pressões e aos apelos internacionais pela comutação da pena imposta a Gulart e a outros sete condenados que também foram fuzilados, na mesma ocasião. Segundo Widodo, as execuções constituem "uma terapia de choque" imperiosa para combater o que ele considera "emergência" em um país que, ao longo dos anos, se tornou um centro de distribuição de drogas.
Ao se dirigir àquela unidade asiática, todo estrangeiro o faz ciente de que ali o tráfico de drogas é punido com pena de morte. Dessa forma, Goulart e seus companheiros de infortúnio, inclusive Marcos Archer, outro brasileiro que, em janeiro último, teve idêntico destino, sabiam do risco que corriam. Pagaram pra ver, e viram!
Claro que não faltaram opiniões adversas, emitidas, sobretudo, por aqueles radicalmente avessos à pena capital. Muitos, entretanto, assim se posicionaram por questões humanísticas ou sentimentais, pensando no sofrimento de familiares, amigos e da própria sociedade, que, no fundo, acaba se sentindo de alguma forma culpada pelo desajuste de seus membros.
A pena de morte, hoje ainda adotada em diversos países, é um tipo de punição extremamente polêmico, sobretudo pelo caráter irreparável das consequências de sua aplicação. Uma vez consumada a execução do condenado, não há mais que o que fazer. Pouco importa se aconteceu uma injustiça, um erro jurídico ou qualquer outra impropriedade; a vaca foi pro brejo, de forma irremediável. Por isso, até mesmo seus mais ardorosos defensores costumam “balançar”, no momento em que se aproxima a hora fatal dos que a ela estão expostos. Na verdade, parece que são favoráveis à condenação, mas não à execução do réu.
Para surpresa de muitos, o Brasil está entre os países onde a pena de morte é prevista em lei. Do artigo quinto, inciso 47 da Constituição Federal consta que "não haverá penas de morte, salvo em caso de guerra declarada".
Enquanto se divide em relação à inclemência do governo indonésio, no caso de Rodrigo Gulart, o brasileiro está unido no protesto contra a parcimoniosa decisão do Supremo Tribunal Federal, que concedeu habeas corpus a nove diretores de empreiteiras seriamente implicados no escândalo Petrobras. A liberalidade, defendida pelos ministros Teori Zavascki, Dias Toffoli (sempre eles) e Gilmar Mendes, recebeu os votos contrários dos ministros Celso Mello e Carmem Lúcia, esta argumentando que, embora as investigações estejam próximas do final, “não existe instrução quase acabada”. Para muitos juristas, foi um duro golpe na operação Lava-Jato, no exato momento em que os beneficiados estavam na iminência de “abrir o bico”, fazendo revelações que poderiam levar aos mais “ilustres” responsáveis pelo escândalo.
Depois disso, ninguém se espante se o clamor popular se direcionar para o aperfeiçoamento do dispositivo constitucional que trata da pena de morte, de modo que também alcance os crimes de corrupção. Guerra é guerra, e já estamos nela!

- Diário do rio Doce 

domingo, 26 de abril de 2015

A IDADE DO CRIME

           No Brasil, várias são as leis que só foram aprovadas após intensa luta e muito bate-boca.
            Alguns exemplos são a da anistia, a da Ficha Limpa, a Lei Seca, o Estatuto do Desarmamento e a Lei Maria da Penha.
 A mais polêmica teria sido a Lei do Divórcio, que enfrentou enérgica resistência religiosa.
No geral, entretanto, mesmo polarizando opiniões, todas acabaram bem aceitas e vigoram na sua plenitude.
            A bola da vez é o artigo 228 da Constituição Federal, que torna inimputáveis os menores de 18 anos.
            Tramita no Congresso Nacional, agora aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC), formulada em 1993, que reduz essa idade para 16 anos.
            Como se não bastassem duas décadas de gaveta, o imbróglio continua longe de ser desfeito.. Ainda lhe resta um longo e desafiante caminho a percorrer, até que a proposta chegue à apreciação do Senado, onde receberá a palavra final. Se bobear, a recuperação da Petrobras, a duplicação da BR-381 e a canonização de Lula acontecerão antes.
            O “resumo da ópera” mostra que tudo gira em torno do tratamento a ser dado a uma categoria de bandidos que agem com a brutalidade de adultos, mas são punidos com a benevolência do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), reservado aos menores de até 18 anos. Se a mudança acontecer, grande parte desses brutamontes perderia a moleza.
            Além de arguir a constitucionalidade da PEC, seus opositores acham absurdo que jovens entre 16 e 18 anos se exponham às deficiências e mazelas do sistema prisional brasileiro, que os levariam a progredir na  criminalidade. Argumentam que o ECA contempla medidas socioeducativas que, se bem aplicadas, seriam suficientes para orientar os adolescentes e impedir sua reincidência no crime.
            Na outra extremidade, uma significativa maioria defende que o individuo lesivo à sociedade, adulto ou adolescente, deva ser isolado, para não incorrer em mais delitos. Diante dos crimes praticados pelos “dimenores”, cada vez mais frequentes e brutais, a redução da maioridade penal é vista por esse grupo como eficiente e inadiável avanço na batalha por mais segurança e menos impunidade.
            Trata-se, pois, de matéria controvertida, que requer imparcial reflexão sobre os diferentes pontos de vista colocados à mesa.
            Ambas as correntes têm aliados de peso e argumentos capazes de endurecer a queda de braços.  Embora salutar, esse equilíbrio de forças pode adiar indefinidamente, ou até mesmo inviabilizar, um consenso em torno da ideia.
            Partindo do raciocínio de que crueldade e covardia não têm época para serem praticadas, o início da maioridade penal poderia até ser mantido em 18 anos. Entretanto, os benefícios do ECA valeriam apenas para o primeiro delito cometido pelo menor. Na reincidência, ou quando praticasse crime hediondo, ele seria tratado como qualquer bandido.
            Bem argumentada, e havendo boa vontade, essa ideia talvez pudesse ser encaminhada a título de simples aperfeiçoamento da legislação vigente, sem envolver maior mudança na Carta Magna.
                Não se pretende fazer uma omelete sem quebrar os ovos. A intenção é, o quanto antes, evitar que cresça a diferença entre os bons tempos em que era fácil pegar balas de crianças e os dias atuais, quando ficou difícil fugir das balas da molecada.
            A questão é complexa, mas, como sentenciou o sábio Barão de Itararé, "tudo seria fácil, se não fossem as dificuldades”.

- Revista "Mais Mais PERFIL" - ABRIL/2015


domingo, 19 de abril de 2015

ADEUS, GISELE!

                Nada de marasmo, calmaria ou paradeira.  A temporada 2015 tem sido pródiga em agitos e acontecimentos bombásticos.
            Tudo começou com a posse da Dilma Rousseff no seu segundo mandato. Nada demais, exceto o fato de ela haver assumido com ares de quem herdava um governo que só teria feito besteiras. A pretexto de ajustar a economia do país, mandou às favas o discurso de campanha. Elevou juros e impostos, reduziu benefícios do trabalhador, majorou o custo da energia elétrica e dos combustíveis, afora outras medidas que só contribuíram para aumentar a inflação e o descontentamento popular. Esquecida de que sucedeu a si mesma, Dilma agora tenta colocar cadeado numa porta que ela própria arrombou. E espera que o povo confie na sua capacidade para tanto. Mas isso é tema para especialistas.
            Melhor falar de mais coisas que também chamaram a atenção e mexeram com os nervos de brasileiros e brasileiras.
            Em termos urbanos, o destaque ficou por conta do gigantesco incêndio irrompido em um depósito de combustíveis próximo ao Porto de Santos. As chamas arderam por quase 10 dias, provocando o que já é considerado um dos maiores desastres comerciais do Brasil. Não houve mortes. Entretanto, afora incalculáveis prejuízos financeiros, são enormes os danos causados ao meio ambiente e aos moradores da área.
            Enquanto a Baixada Santista era abalada pelo fogo, na Câmara dos Deputados o tumulto ficou por conta de ratos que um servidor da Casa soltou no plenário da CPI da Petrobras. Era o momento em que João Vaccari Neto, agora ex-tesoureiro do PT, entrava no recinto, para prestar depoimento. Em meio à confusão, não faltou um engraçadinho aconselhando que ninguém se apavorasse, pois os bichinhos eram meros assessores de Vaccari. Sempre espirituoso, o humorista José “Macaco” Simão preferiu dizer que os roedores “foram visitar os colegas”. Logo contornado, o incidente em nada prejudicou a sessão. Isso coube ao depoente, que, desobrigado de dizer a verdade e de até mesmo responder às perguntas que lhe fossem formuladas, se limitou a irritar seus inquisidores. Vexame total!
            As manifestações de rua, no último domingo (12), foram marcantes, mas não tanto quanto seus organizadores esperavam. A adesão popular foi menor do que a contabilizada no movimento do 15 de março anterior. Segundo fontes oficiais, o governo recebeu com alívio esse resultado, mas prefere não se iludir. Na “cozinha” do Planalto, ninguém ignora que permanece alto o desagrado popular. Em análise que coincide com a da oposição, a ex-ministra Marina Silva disse que “menos gente nas ruas não significa menor insatisfação; ao contrário, pode até significar um aumento da desesperança, o represamento de uma revolta que pode retornar mais forte depois de algum tempo”. O problema é que protestos são como surpresas: se muito combinados e repetitivos, acabam perdendo a graça e a força.
            Política à parte, o que de fato marcou a atual temporada foi a inesperada atitude da bela Gisele Bündchen, que, na última quarta-feira (15), abandonou as passarelas. A despedida aconteceu na 39ª edição do São Paulo Fashion Week, onde a famosa top model comandou um emocionante desfile “verão 2016” da consagrada grife Colcci.

            A prisão do petista João Vaccari Neto, efetuada pela Polícia Federal, na mesma data, como parte da Operação Lava-Jato, poderia ter ofuscado o adeus de Gisele, mas ficou longe disso. A explicação é que a opinião pública, acostumada a tantos impactos, não mais se excita com a captura de coadjuvantes. Prefere guardar emoções para quando chegar a vez dos atores principais. Questão de tempo!

- Diário do Rio Doce (19.04.2015)

domingo, 12 de abril de 2015

PADRE JOÃO VERBEEK - Um holandês de coração valadaense


               No relacionamento homem/comunidade, a interação costuma ser tanta, que não sobra margem para análises isoladas. É a origem das famosas “histórias que se confundem”, do que JK e Brasília são ótimo exemplo.
            Sem fugir à regra, a cidade de Governador Valadares coleciona “chamegos” e parcerias antológicas. Sua biografia inclui bastante gente com quem se envolveu intensamente, a ponto de ambas se tornarem “um só corpo e uma só alma”. Pessoas que vestiram, valorizaram e suaram a camisa valadarense, como se fosse a própria pele.
            É o caso do padre João Verbeek, o holandês que aqui chegou em meados do século passado, na plenitude de seus 30 anos, acompanhado pelos conterrâneos e também sacerdotes Antônio Goolsens e Teodoro Grond, todos da Congregação do Espírito Santo.
            Em janeiro de 1951, ele assumiu e logo se tornou vigário da Paróquia de Santo Antônio, a única existente na cidade.
            Presença marcante, chamava atenção, não apenas por sua avantajada estrutura física, mas pela forma simpática e descontraída de se relacionar com a comunidade. Nem as dificuldades de idiomas atrapalhavam essa sinergia.
Naquele tempo em que os padres só se apresentavam de batinas, ora pretas, ora brancas, ele circulava pela cidade, pedalando uma humilde bicicleta, enquanto distribuía sorrisos, acenos e santinhos que cativavam paroquianos de todas as idades. Apesar do olhar severo, tinha um sorriso aberto e cativante, sobretudo para as crianças. Possuía o hábito de apertar forte a mão daqueles que cumprimentava, assim como forte era o tom de sua voz, nas pregações. 
            Na condição de vigário, recebeu da Arquidiocese de Diamantina a incumbência de aparelhar Valadares para acolher a futura diocese. A agenda incluía aprontar o palácio episcopal, a catedral e o seminário diocesano, além de angariar fundos que ajudassem na execução do plano. Paralelamente, deveriam ser construídas a igreja e a casa paroquial do bairro de Lourdes, para onde iriam os padres espiritanos, depois de instalado o novo bispado.
            Dinâmico e incansável, não se limitou a essas tarefas, que “tirou de letra”. Executou diversas outras, todas relevantes. E o fez sem comprometer a qualidade do trabalho pastoral, que sempre priorizou.
            De cara, desmistificou a ideia de que padre só constrói igrejas e obras do gênero. Edificou o Cine Pio XII, na esquina das ruas Israel Pinheiro e Arthur Bernardes, que, por muito tempo, foi confortável e excelente fonte de entretenimento para os valadarenses. Até uma missa dominical “das crianças” ali era celebrada.
            Na sequência, vieram a Maternidade Dom Serafim; o Hospital Menino Jesus; o edifício destinado a uma escola profissionalizante, mais tarde utilizado pelo Minas Instituto de Tecnologia (MIT); além de várias capelas e escolas. Sem contar a primeira Igreja de Lourdes (hoje Capela do Espírito santo) e a Casa Paroquial, ambas na Rua Paraná, o Clube Metrópole e a Matriz de Nossa Senhora de Lourdes, um dos mais belos templos da cidade.
Não é tudo o que fez, mas são obras que mostram a grandiosidade e a importância do legado que deixou para Valadares. Algo sem precedentes, em se tratando de alguém que não tinha envolvimentos políticos ou empresariais.
            Realizador por excelência, carismático e muito admirado, não raro era assediado para filiar-se a agremiações partidárias e, com grande chance de vitória, candidatar-se a prefeito municipal. Não falta quem diga que seu prestígio chegava a incomodar e a enciumar certos “caciques” da época. Ele, entretanto, consciente de seus deveres e fiel à sua vocação, não se deixou seduzir.
            Seu desapego ao sucesso ficou bem evidente quando, em 1968, abriu mão das conquistas valadarenses, fez as malas e mudou-se para a paróquia de Anápolis (GO).  Ainda passou algum tempo em Matozinhos (MG), antes de regressar à Holanda, pensando em lá viver como padre aposentado. Não conseguiu. A saudade o trouxe de volta ao Brasil, para rever e despedir-se do povo que aprendeu a amar.
            Já deficiente auditivo, e locomovendo-se com dificuldade, retornou de vez à Holanda, onde, no seu convento de origem, com 83 anos, faleceu sentado numa poltrona e lendo jornal. O calendário marcava 24 de outubro de 2004.
            Em tributo ao muito que fez por Valadares, o viaduto sobre a linha férrea da Vale, ligando o Bairro Altinópolis e adjacências,  recebeu seu nome. É pouco, comparado aos seus méritos. Mas, pelo menos, faz lembrar a forma obstinada com que lutava para encurtar caminhos e aproximar pessoas.
            Em meio ao egoísmo, à individualidade e à indiferença que hoje proliferam, poucos têm a coragem de abandonar o aconchego familiar, a tranquilidade e a proteção da terra natal, para sair mundo afora, ajudando o próximo. Só os idealistas, desprendidos e solidários se dispõem a tanto. Eles se impõem metas e missões que colocam acima de obstáculos. João Verbeek fez disso o seu postulado.

            Nas quase duas décadas de convivência, a sintonia entre ele e Valadares foi perfeita.  Juntos, escreveram, a quatro mãos, memoráveis capítulos da epopeia local. Tinham características distintas, mas os objetivos se complementavam: uma cidade buscando ajuda e um sacerdote ávido por ajudar. Só podia dar certo. E deu!

(Texto para a revista "Suindara" - edição de março/2015 - da Academia Valadarense de Letras)

domingo, 29 de março de 2015

SEM AZUL NO CEU

            Se não é das menos favorecidas, Governador Valadares também não está entre as cidades mais privilegiadas em termos de ligação rodoviária com os grandes centros do país.
            As deficiências vêm de longa data, desde quando o valadarense sentiu necessidade de interagir com outras comunidades.
            Basta lembrar que, até 1963, quando foi concluído o asfaltamento da Rio-Bahia, o caminho entre Valadares e o Rio de Janeiro incluía cerca de 400 quilômetros de terra batida e muita poeira, até Leopoldina. Percorrê-los era um sacrifício, sobretudo para os que o faziam em condução própria.
            Não menos desgastante era a viagem para Vitória, feita através de Realeza. De lá à capital capixaba eram outros quase 260 quilômetros repletos de curvas extremamente perigosas. Só muito mais tarde surgiu a estrada que passa por Colatina.
            Pior era deslocar para Belo Horizonte. A maioria das pessoas viajava no trem da Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFVM), até Nova Era. Ali baldeava para o trem da Central do Brasil ou pegava ônibus, para chegar à capital mineira. Tudo porque a implantação e a pavimentação da MG-4, hoje BR-381, entre GV e BH, iniciadas em 1952 e executadas por etapas, só foram concluídas em 1971.
            O passar dos anos amenizou, mas não eliminou os problemas.
            As rodovias que servem à cidade receberam melhoramentos e são alvo de manutenção, porém sempre deixam a desejar.
            A Rio-Bahia há muito se mostra obsoleta, diante do incontrolável aumento da frota de veículos.            Quanto à BR-381, o simples fato de ser chamada Rodovia da Morte basta para desnudar o grau de sua ineficiência e os riscos a que estão expostos seus usuários.
            O trem da EFVM – ou Trem da Vale – permanece como confortável e segura alternativa para a locomoção entre Belô e Vitória. Mas peca pelo itinerário restrito, pela duração da viagem e por oferecer apenas um giro diário.
            Nesse contexto, cresce a importância do transporte aéreo. É o mais capaz de suprir a escassez de tempo dos empresários, a urgência requerida por certos problemas, a comodidade e a agilidade que muitos procuram e por elas podem pagar.
            Valadares foi servida por grandes companhias aéreas, como Nacional, Real e Panair. Já em meados do século passado, elas ofereciam voos para as capitais da Região Sudeste e outras localidades. Na época, operavam no “campo de aviação” localizado onde hoje é o Bairro de Lourdes.
            Com o advento do aeroporto Coronel Altino Machado de Oliveira, outras empresas estiveram em ação, sendo que, no momento, a Azul Linhas Aéreas é a única atuante na cidade.·.
         Pois é justamente ela que, favorecida pela falta de concorrência, anuncia a suspensão dos voos diretos do Aeroporto da Pampulha, em BH, para Valadares, Ipatinga, Montes Claros e Uberlândia, a partir de 11 de maio.
           Inteiramente prejudicial aos interesses comunitários, a decisão requer enérgica reação das autoridades responsáveis pelas cidades atingidas. Isoladamente ou em conjunto, deverão elas esgotar todas as possibilidades de entendimento com a empresa aérea e com os poderes competentes, visando impedir que o despropósito aconteça.
            Pelo menos em Valadares, a Azul pousou com a promessa de manter e até ampliar os serviços então prestados pela Trip Linhas Aéreas. Se romper com tal compromisso, sem explicações e justificativas plausíveis, isso não pode lhe sair barato.
            A bola fica com a Prefeitura, nossos deputados, outros políticos e as entidades representativas do empresariado e da sociedade local. E que ninguém se iluda com facilidades. O jogo promete ser pesado.

- Diário do Rio Doce