quinta-feira, 16 de agosto de 2018

UNIDOS PELO IBITURUNA

Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 16.08.2018

A mudança para os grandes centros, em busca de maiores oportunidades de estudo e trabalho, é um comportamento típico do ser humano, especialmente dos jovens.
Esgotadas suas chances nos locais onde vive, o indivíduo sai em busca de novos horizontes, deixando para trás família, namorada, amigos, objetos e locais com os quais até então conviveu. De repente, tudo vira recordações que dificilmente se apagarão, sobretudo para quem soube viver o passado.
Hoje declinante, esse movimento migratório teve sua fase áurea nos anos 1950/70, quando os cursos superiores existiam apenas nas capitais e em algumas localidades mais adiantadas.
Foi nessa época que muitas famílias de Governador Valadares assistiram ao êxodo de seus filhos.  Após concluir o então chamado segundo grau, eles não tiveram alternativa, senão fazer as malas e partir para onde pudessem prosseguir seus estudos. E assim se espalharam por Belo Horizonte, Vitória, Rio, São Paulo e outras metrópoles, inclusive do exterior. Ali lá se formaram, se estabeleceram, constituíram família e acabaram criando raízes. Nos quatro cantos do mundo, é possível encontrar valadarenses notáveis e bem sucedidos, nas mais diversas áreas.
 Muitos desses “emigrantes”, agora na faixa dos 70 anos, embora dispersos, conseguem manter um estreito relacionamento entre si, como se nunca houvessem se distanciado uns dos outros.
Entre os diferentes modos de manter essa sadia convivência, eles formam no WhatsApp um grupo, já bem numeroso, que se comunica de forma constante, falando de amenidades, família, política, esporte, humor, sacanagem, viagens e tudo o mais que possa agregar valores e perenidade à confraria.
            A explicação para tanto entrosamento poderia se resumir nos laços de amizade que ligaram esses personagens na infância e na juventude, quando eram vizinhos ou integravam a mesma tribo. Mas há outro forte elo, que inclusive contribui para que o grupo se torne cada dia mais numeroso: o Colégio Ibituruna, onde, na década de 1960, eles cursaram o primeiro e segundo graus.
´           É surpreendente a influência desse educandário sobre o emocional de seus alunos. Mesmo após muitos anos de separação, as salas de aula, os professores, os colegas, os desafios, as brincadeiras, as rusgas e emoções sobrevivem na memória de todos, alimentando um espírito de união que se fortalece com o passar do tempo.
            Não se contentando com o simples contato virtual, essa turma partiu para um corpo a corpo periódico, com direito a comes e bebes, camiseta, muita alegria e nenhuma influência política. Isso já aconteceu duas vezes, ambas na capital mineira.
            Neste ano, coincidindo com 80º aniversário de fundação do Colégio Ibituruna, o encontro será em Governador Valadares, nos dias 14 e 15 de setembro próximo. Esperam-se mais de 100 participantes, muitos dos quais virão de várias partes do país.
            A programação, a cargo de um grupo coordenador, inclui duas festivas reuniões etílico-gastronômicas, uma missa de agradecimento e homenagens presenciais e “in memoriam” a algumas personalidades ligadas à escola.
            Embora de natureza informal, o evento é da maior importância. Além do desejo de confraternização que o motiva, ele oferecerá aos ex-alunos, em especial os que vêm de fora, a rara oportunidade de um reencontro com velhos amigos e com o colégio onde iniciaram a caminhada rumo ao sucesso. Haja coração!

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

ROYALTIES PROVIDENCIAIS


Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 02.08.2018

            O Fórum Emergencial de Saúde e Educação acontecido em Governador Valadares, no último dia 27, do qual participaram cerca de 40 prefeitos de cidades mineiras, mostrou um compartilhamento de problemas e dificuldades bem mais preocupantes do que se pensava.
O evento serviu para desnudar, em toda a sua extensão, a aflitiva situação financeira em que se encontram aqueles municípios, devido à falta de repasses por parte do Governo mineiro. A inadimplência do estado se refere a verbas garantidas pela Constituição Federal, destinadas à saúde, educação e segurança, afora outras necessidades essenciais e inadiáveis. Dados recentes mostram uma dívida superior a R$ 100 milhões, apenas para com a prefeitura valadarense. 
            Pelo que ficou demonstrado, já há cidades com serviços comprometidos e até mesmo paralisados.
            Os prefeitos optaram por reagir com medidas enérgicas, entre elas a paralisação de todas as atividades escolares, a partir de 20.08, e a proposição de uma Ação Civil Pública, caso a pendência se mantenha.
            A queda de braços envolvendo repasses do governo de Minas para os municípios não é novidade, mas se intensificou na administração atual. E não há muita esperança de que o impasse se resolva a curto prazo.
            A experiência ensina que nas situações de dificuldade é que são encontradas as melhores saídas.
            Pode ser que nem todas as prefeituras tenham conhecimento da Lei 13.540/2017, de 18.12.2017. Ela destina 15% da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), aos municípios escoadores da produção de minério de ferro, ou afetados por operações de embarque e desembarque, ou ainda para cidades onde se localizam pilhas de estéril, barragem de rejeitos e instalações de beneficiamento.
            Significa dizer que, mesmo sem possuir nem ao menos uma jazida, as localidades diretamente impactadas pela atividade mineradora passaram a ter direito a parte dos “royalties” da mineração, o que certamente aliviará os cofres municipais.
            Para que isso se tornasse possível, os municípios mineradores, que antes recebiam 65% dos royalties, ficarão com 60%. Já o Estado, que até então abocanhava 23%, terá que se satisfazer com 15%. A fatia do Governo Federal caiu de 12% para 10%.
            O presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM), Julvan Lacerda, considera que esse foi um avanço muito importante. “Antes, esses vizinhos, apesar de sofrerem os impactos do transporte do minério e da presença das barragens, não ganhavam nada. Agora, vão ganhar”, festeja Lacerda.
            Alguns noticiários dizem que esse benefício foi instituído graças a uma emenda apresentada na Medida Provisória 789/17 pelo senador Roberto Rocha (PSDB-MA), para quem a vitória é de todos os prefeitos que se uniram para chegar a essa conquista. Segundo ele, “ao longo de décadas, a única coisa que os municípios maranhenses recebiam era o pó de minério e o apito do trem. Não ficava nada além disso”.
            A situação se equipara à do Vale do Rio Doce, onde há décadas enormes comboios da Vale percorrem dezenas de municípios mineiros e capixabas, transportando para o porto de Vitória milhões de toneladas de minério extraídas em Itabira. Tanto lá quanto cá, o legado é o mesmo.
            A partir de agora, essas cidades terão direito à recompensa pelos transtornos que lhes são impostos. Resta às autoridades competentes inteirar-se de seus direitos e correr atrás do prejuízo. Enquanto “seu lobo” não vem.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

A PRAÇA É AUREA


Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 19.07.2018

As cidades mais antigas e tradicionais, donas de um passado mais amplo, preferem batizar suas ruas, avenidas, praças e outros locais públicos com nomes das pessoas ilustres que ali tiveram alguma importância histórica ou atuação relevante. É a melhor forma de reverenciar e, ao mesmo tempo, perpetuar a memória daqueles que se destacaram, e, de alguma forma, contribuíram para o desenvolvimento da comunidade. Por isso, além de merecedores de deferências, é importante que sirvam de exemplo e permaneçam vivos na lembrança das gerações seguintes.
Em Valadares essa prática ainda não alcançou níveis desejáveis. Não porque a cidade seja jovem, ou porque lhe faltem personagens dignos de homenagens. A verdade é que, durante certo tempo, a questão foi negligenciada pelos que por ela deveriam zelar.
Nos seus 80 anos de emancipação, o município exibe um desenvolvimento próprio dos grandes centros, a ponto de ser considerado um polo regional. E essa posição só foi alcançada graças ao trabalho incansável e à dedicação de incontáveis homens e mulheres cujos nomes engrandeceriam quaisquer logradouros.
Há pontos em que a justiça já se faz presente, como na Praça Serra Lima, no Aeroporto Coronel Altino Machado D’ Oliveira, na Avenida Moacyr Paletta, na Escola Municipal Padre Eulálio Lafuente Elorz, na Univale-Campus Armando Vieira, na Eteit-Campus Antônio Rodrigues Coelho, na Vila (Afonso)Bretas, na Praça Euzébio Cabral e no Estádio José Mammoud Abbas, entre outros. Isso sem contar vários edifícios que herdaram nomes dos patriarcas das famílias que os construíram. Mas tem muito mais gente a homenagear.
Em texto recente (Chance de Se Redimir – 21.06.18), falei sobre o extraordinário, mas esquecido, Hermírio Gomes da Silva, falecido há quase 10 anos, e tomei a liberdade de aponta-lo como patrono da Praça de Esportes, existente no centro da cidade; tomara que a ideia repercuta!
A atual administração municipal tem dado inequívoca demonstração de que pretende recuperar o terreno perdido. Ainda há pouco, reverenciou o músico Jacenguay Souza Pettersen, o saudoso Guay, dando seu nome à concha acústica da Praça dos Pioneiros.
Na última terça-feira (17), as atenções se voltaram para a memória de Áurea Franco Machado, uma das mais queridas e ilustres mulheres de sua época. Na ocasião, aconteceu a reinauguração da Praça Treze de Maio, que, revitalizada, passou a se chamar Praça Aurita Franco Machado.  Popularmente conhecido como “Praça da Mulher da Boca Aberta”, o logradouro foi construído nos anos de 1964 e 1965, pelo então prefeito Joaquim Pedro Nascimento. À época, a intenção era homenagear as mulheres valadarenses que, lideradas por Áurea Machado, foram às ruas, aos gritos, protestando contra as ameaças ideológicas que pairavam sobre a nação. Esse grito, aliás, explica a mulher de boca aberta que inspirou o busto erguido no local.
Dona Aurita, como era carinhosamente chamada, se destacou como esposa e mãe, além do seu elevado nível cultural, do dinamismo, da coragem, e do espírito público que sempre pautaram sua maneira de agir. Esteve presente nos grandes momentos da vida comunitária valadarense, coadjuvando ou liderando ações quase impossíveis, mas afinal bem sucedidas. Entre essas, a entronização da imensa imagem de Nossa Senhora que hoje resplandece no Pico da Ibituruna. Sua participação foi também decisiva na criação da Escola Técnica de Enfermagem da Fadivale e na fundação da Sodami.
Para potencializar os seus méritos, Dona Aurita teve a graça e o privilégio de deixar herdeiros valorosos, que, tal como ela, alimentam e demonstram grande amor e dedicação por Valadares. Precisa mais?

quinta-feira, 5 de julho de 2018

DE OLHO NO HEXA


Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 05.07.2018
           
            As reações humanas surgem na hora certa; não há como antecipá-las.
            Pelo menos em copas do mundo, essa é a regra. O início da competição é sempre marcado pela desconfiança e pelo desinteresse de boa parte dos torcedores. É a fase em que muitos desconhecem ou ainda duvidam da capacidade de sua seleção.  Por isso, preferem ficar em casa, em pequenos grupos, para assistir às partidas.
Na Copa deste ano esse comportamento intensificou-se, sobretudo nos dias em que os jogos aconteceram em horários matinais, impróprios para se entregar aos agitos e desdobramentos do evento.
Em resumo, as multidões que lotam e animam bares, restaurantes, clubes, praças e outros logradouros públicos se formam naturalmente, à medida que a disputa avança. E isso está acontecendo, com saudável e crescente intensidade.
            Não obstante a forma categórica e brilhante como se classificou, a seleção Canarinho chegou à competição atual com uma credibilidade ainda abalada pela sua medíocre participação na Copa de 2014. A vergonhosa derrota de 7x1 para o time da Alemanha, em pleno Mineirão e sob os olhos de sua torcida, ainda não foi esquecida, tampouco perdoada. Nesse clima, o empate contra a Suíça (1x1), logo na primeira partida, contribuiu para que o torcedor mantivesse sua barba de molho.  O pessimismo, entretanto, foi se diluindo, e acabou cedendo espaço ao otimismo, graças aos dos resultados positivos alcançados nos jogos seguintes, em especial a boa vitória obtida contra a respeitável seleção mexicana.
            O grande torneio chegou às quartas de final. Das 32 equipes que o iniciaram, oito permanecem no páreo, e o Brasil é uma delas.
            Nessa fase, a nossa primeira rival será a seleção belga, em jogo marcado para as 15 horas de amanhã.
            As duas equipes se enfrentaram apenas uma vez em copas do mundo, com vitória brasileira de 2x0, gols de Rivaldo e Ronaldo Fenômeno. Isso aconteceu nas oitavas de final de 2002, ano em que a nossa seleção, comandada por Luiz Felipe Scolari, conquistou o pentacampeonato. Naquela época, embora o Brasil tenha vencido, a crítica destacou o seu confronto com a Bélgica como o mais difícil na briga pelo título.
            Se passar pelos chamados “demônios vermelhos”, nossa seleção terá dado um decisivo passo para a conquista do título.
            A Copa 2018 caminha para o seu final, acumulando um saldo extremamente positivo.
            Os jogos, de excelente nível técnico, têm sido empolgantes, disputados com garra, lealdade, determinação e muita persistência, haja vista que vários deles só foram decididos nos seus últimos momentos
Nesse frenético desenrolar, gratas revelações de talentos se misturam a justas consagrações e lamentáveis despedidas de craques responsáveis pela alegria de milhares de torcedores.
            Confirmando ser o futebol uma caixinha de surpresas, muitas das seleções tidas como favoritas decepcionaram e foram precocemente eliminadas, algumas já na primeira fase. Em contrapartida, equipes menos cotadas surpreenderam com um desempenho moderno e vigoroso, mostrando que também no futebol a renovação acontece. 
            O técnico do time belga, Roberto Martinez, disse que o Brasil é o favorito no jogo de amanhã. É bom não acreditar nisso. Ele teria dito a mesma coisa na última segunda feira, quando seu time enfrentou e desclassificou o Japão.
            O ideal é o Brasil jogar seu futebol da forma como vem fazendo até agora, ou até melhor, sempre consciente de que a grande dificuldade para chegar ao hexa será vencer a partida final.  

CHANCE DE SE REDIMIR

Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 21.06.2018

Há muito venho percebendo certo descaso de Valadares para com os fatos e personagens de sua história. Eles são abundantes, às vezes épicos e empolgantes. Muitos, entretanto, são desconhecidos, ignorados, ou estão relegados a um melancólico esquecimento.
Impressões colhidas junto à geração atual, sobretudo a camada mais jovem, têm se mostrado preocupantes. Para se ter uma ideia, muitos não sabem que o nome do bairro SIR representa uma homenagem a Sotero Inácio Ramos, o empresário que durante muitos anos instalou e manteve os melhores cinemas da cidade. Também ignoram que Vila Isa seja um tributo à Imapebra S.A, a indústria de madeira e pecuária que foi uma das maiores expressões locais no ramo.
Com relação a pessoas, o desconhecimento é ainda mais inquietante. A maior parte dos pioneiros, dos responsáveis pelo surgimento e pela consolidação da cidade, já se foi. Dos poucos remanescentes, ainda há quem possa falar da epopeia desbravadora, dos obstáculos enfrentados e das vitórias conquistadas. Mas não lhes resta muito tempo e muito fôlego para testemunhar, nem para aguardar o reconhecimento a que fazem jus.
O tempo passa e as baixas se tornam mais constantes. Os heróis do passado se despedem, abrindo espaço para novas ideias e lideranças.
Essa renovação é compreensível, faz parte do ciclo humano. Reprovável é a súbita amnésia que se apossa da comunidade, a ponto de o passado ser rapidamente esquecido.
E esse destino tem sido inexorável. Dos mais modestos aos mais notáveis, todos tendem a cair no ostracismo.
É o que está acontecendo com Hermírio Gomes da Silva.  Cidadão de méritos indiscutíveis e um currículo que dispensa galanteios, ele foi um dos ícones de sua época. Homem de visão, perseverante e otimista, era requisitado nas mais diferentes áreas. Sua marca está em quase tudo que se fez pelo desenvolvimento de Valadares. Consagrou-se como vereador, vice-prefeito, prefeito por duas vezes, presidente da Associação Comercial, diretor da Univale, um dos fundadores do Diário do Rio Doce, da Companhia Telefônica e da Fundação Percival Farquhar, diretor da Fadivale, e muito mais. Até agora, entretanto, nada disso lhe valeu uma homenagem pública. Nenhuma rua ou avenida, nenhuma praça, nem mesmo um beco ou um banco de jardim leva seu nome. Inclusive a data de sua morte tem passado em branco. Se sua memória recebeu alguma homenagem em anos anteriores, foi coisa discreta e reservada, incondizente com seus valores. Situação imperdoável, que se repete em relação a outros vultos da história local.
Hermírio faleceu em 18.06.2009.  Significa dizer que no próximo ano esse lamentável acontecimento completará sua primeira década. Seria a grande chance de a cidade se redimir da desatenção que vem dispensando a esse ilustre cidadão.
Em se tratando de vulto tão proeminente, ainda que desprovido de vaidades, teria que ser uma homenagem à altura do que ele fez e representa para a cidade. Evidentemente, não se cogitaria substituir pelo seu o nome da Avenida Minas Gerais, ou algo parecido. Mas também não seria justo tributá-lo com um marco de pouca visibilidade, fora do meio em que sobressaiu.
Ressalvado melhor juízo, poder-se-ia dar o seu nome à tradicional e consagrada Praça de Esportes situada no centro da cidade, que, aliás, embora exista há várias décadas, nunca teria sido batizada.
Reverenciar o passado é tão necessário quanto perseguir o futuro. Afinal, os jovens de ontem são os adultos de hoje e os saudosos de amanhã. Se não souberem valorizar seus antecessores, os notáveis do presente serão os esquecidos do futuro.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

DINÂMICA HISTÓRICA


Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 07.06.2018

            A história não produz nem escolhe fatos ou personagens - ela apenas os registra. Grandes ou pequenos acontecimentos, artistas ou bandidos, gênios ou abestados, santos ou demônios, autênticos ou charlatães, tudo e todos nela têm seu lugar.
É um retrato nu e cru daquilo que narra. Em nome da autenticidade, rejeita photoshop; nada de edições, retoques ou contas de chegar. Diversamente dos romances, não tem compromisso com aparências, cenários ou finais felizes, tampouco se vincula a tradições, previsões, horóscopos ou superstições.
            Mas nem sempre é assim.
            Não raro, um mesmo fato ou personagem costumam comportar mais de um enfoque. Tudo depende do contexto em que os anais são produzidos e, sobretudo, da visão, da imparcialidade e da autonomia do historiador. Nos casos que abrangem política e questões de Estado, quase sempre movidos por interesses conflitantes, é onde as verdades mais se divergem. No interesse das partes, as narrativas são distorcidas, transformando vitórias em derrotas, heróis em vilões, e vice-versa, cada um puxando a brasa para sua sardinha.
                A intervenção militar ocorrida no Brasil, em 1964, que durou 21 anos, é um exemplo. Sobre ela, a versão oficial é inteiramente contrária à apresentada pelos opositores. Figuras como João Goulart, Leonel Brizola, Carlos Lacerda, Castelo Branco, Costa e Silva, Emílio Médici, Ernesto Geisel, João Figueiredo e outros envolvidos nos acontecimentos, inclusive o ex-presidente Juscelino Kubitschek, tanto são exaltadas quanto abominadas por suas ações, dependendo de onde venha e de quem faça o julgamento.
Dinâmica por natureza, a história se renova, à medida que o passado se atualiza. Dia após dia novos capítulos são escritos, acrescentando novidades, revendo conceitos, corrigindo erros, restabelecendo verdades, ou fazendo justiça.
            Essa metamorfose é bem nítida no caso de Luiz Inácio Lula da Silva. De humilde metalúrgico, chegou à Presidência da República, onde se consagrou graças a seu inegável carisma. Ao longo dessa trajetória, porém, pôs tudo a perder, aliando-se a pilantras e oportunistas que o levaram para o buraco. Hoje amarga a solidão de uma carceragem, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro. Mas, se de lá sair a tempo e em condições de disputar o pleito deste ano, tem chance de retornar ao Palácio do Planalto, mesmo que isso represente um paradoxo. Em síntese, tudo o que se escreve sobre ele tende a ser provisório; sua biografia ainda estaria longe do epílogo.
            Outra impressionante mudança biográfica aconteceu com o senador Aécio Neves. Há pouco tempo, ele era o político mais proeminente do PSDB, uma espécie de cereja do bolo tucano, virtual vencedor da próxima corrida presidencial. Processado por trapalhadas que não consegue explicar, caiu em desgraça, e até mesmo os companheiros de partido querem dele se distanciar.
A corrupção que assola o país é outro fator responsável por modificações de cenário.   Enquanto desmistificam alguns, os desdobramentos do mensalão e da Lava Jato têm entronizado fatos e indivíduos antes desconhecidos.  É o caso do juiz Sérgio Moro, que rapidamente deixou a obscuridade para garantir espaço na história, graças à forma determinada, competente e corajosa como tem se comportado no exercício de sua função.
            Tais revertérios mostram que a história é sempre repaginada, a ponto de tornar efêmeros julgamentos e conceitos de toda sorte. O segredo para preservar o statu quo é não se deixar seduzir pelos elogios e aplausos. O que nem todos conseguem!

quinta-feira, 24 de maio de 2018

LOUCOS POR FIGURINHAS


Por Etelmar Loureiro

             Se para elas a disputa só começará no próximo dia 14, faz tempo que as 32 seleções da Copa vêm sendo frenética e intensamente disputadas. Seus jogadores têm sofrido implacável perseguição; o Brasil e o resto do mundo estão à sua procura.
            São os colecionadores de figurinhas, que não descansarão enquanto não os capturarem, um a um.
            Incrível como certos hábitos atravessam o tempo, sem perder a magia, o encanto e o poder de seduzir.
Os cromos da Copa 2018 mobilizam gente de qualquer idade, em várias partes do planeta. Homens, mulheres, crianças, jovens, famílias inteiras se envolveram no processo. Todos se apressam para completar suas coleções, de preferência antes de o campeonato começar. Nessa corrida, valem negociações nos pontos de troca, locais de trabalho, escolas, hospitais, consultórios, festas sociais, onde quer que seja. Até em cultos e velórios surge alguém com uma listinha na mão, perguntando pelos números que lhe faltam.
Conforme pesquisa de mestrado do paulista Paulo Cezar Goulart, as primeiras figurinhas surgiram na Europa, por volta de 1870. Vinham em maços de cigarros, igual apareceram no Brasil, duas décadas depois.
Com o passar do tempo, vinham também em balas e sabonetes, na forma de promoções tipo “achou ganhou”. Encontradas, podiam ser trocadas por pequenos brindes. Foi a fase em que, nas balas “Americanas”, começaram a surgir as figurinhas de jogadores de futebol.
Inicialmente guardadas soltas, as figurinhas só passaram a ter local próprio em 1934, quando as balas “A Holandeza” lançaram o primeiro álbum.
Na metade do último século, a figurinha deixou de ser brinde, para ser vendida.
            “Craques do Campeonato Mundial de Futebol 1950” foi o primeiro álbum brasileiro que tratou apenas de futebol; os anteriores misturavam vários temas. Estranhamente, ele foi lançado meses depois que a Seleção Brasileira perdeu o título para o Uruguai, em pleno Maracanã. Ainda assim fez sucesso.
            O Brasil tornou-se líder no consumo e coleção do álbum de figurinhas da Copa do Mundo. Dos quase 100 países onde o produto é comercializado, somos o campeão de venda, atingindo mais que o dobro da Alemanha, a segunda colocada.
A cada 24 horas, aqui são produzidos cerca de oito milhões de envelopes, cada um contendo cinco cromos. Isso significa 40 milhões de figurinhas por dia, quantidade que tende a diminuir à medida que se aproxima o início dos jogos na Rússia, quando maioria dos colecionadores já terá completado seus álbuns.
Passada a Copa, elas deverão sair de cena, deixando saudade. Poderão retornar daqui a dois anos, nos Jogos Olímpicos, ou só no Mundial de 2022.
Sempre que surgem, criam um clima contagiante. Têm o condão de mostrar o quanto é tênue o meridiano que separa crianças e adolescentes, jovens e adultos. Chega a ponto de fazer crer que essa distinção só existe na Lei, nada tendo a ver com a personalidade e as características físicas de cada geração.
Como bem ressaltou a antropóloga Cláudia Pereira, do Departamento Social de Comunicação da PUC-Rio, “a febre (de colecionar figurinhas) está maior porque as fronteiras da idade estão cada vez mais borradas por conta da expansão da idéia da juventude. Nesse contexto, é permitido acessar a infância o tempo todo”.  Ainda segundo ela, “… é uma forma de (re)viver a infância, sem vergonha de ser feliz”.
            A propósito: faltam-me as do Neymar e do Cristiano Ronaldo ...


- Diário do Rio Doce - 24.05.2018