quinta-feira, 13 de setembro de 2018

"SONHO MEU"


Por Etelmar Loureiro


- Diário do Rio Doce - 13.09.2018

 

Em linhas gerais, curiosidade é o desejo de ver ou conhecer algo até então ignorado. É uma das características do ser humano. Quando bem dosada, ela se torna estimulante, acalentando sonhos e gerando gratas expectativas.

            Não faz muito tempo, a gravidez era uma das maiores fontes de curiosidade. Tão logo a mulher se descobria gestante, instalava-se enorme e contagiante suspense em relação ao sexo do bebê.

            Não faltavam adivinhações, palpites e prognósticos baseados em experiências, sintomas ou superstições. Promessas e apostas mobilizavam os pais, avós, outros familiares, amigos e todos os que se dividiam entre ser homem ou mulher. Velas eram queimadas, e muita cerveja foi paga por conta dessa doce incerteza.
            Não adiantava exercitar a imaginação. O resultado só era conhecido ao final de nove meses, depois de o bebê “dar as caras” e mostrar suas “credenciais”.
            O ultrassom, com cem por cento de acerto, desvendou o segredo do ventre materno. Ele acabou com as ansiedades, simpatias, dúvidas quanto às cores do enxoval, e tantas outras curtições que empolgavam o enigma do ele ou ela. Agora, com poucos meses, já se sabe se o bebê é homem ou mulher, atleticano, flamenguista ou corintiano, mocinho ou bandido, político ou gente séria. Sem risco de errar.
            Outra incógnita, que no passado também provocava grandes aflições, girava em torno dos resultados eleitorais.
            Os candidatos se apresentavam, assim como hoje, mas os medidores de opinião eram escassos e inseguros. As mudanças de cenário aconteciam, sem que pudessem ser convenientemente avaliadas.  Certeza de vitória só depois de concluída a contagem manual dos votos; coisa que a ansiedade transformava em sôfrega eternidade.
                Esse quadro só começou a se modificar em 1942, quando surgiu no Brasil o Ibope – Instituto Brasileiro de Opinião Pública, especializado em medir, por meios científicos, a audiência das emissoras de rádio que operavam no país.
            A despeito da relevância de seu trabalho, o próprio Instituto teve que superar as dificuldades iniciais, para inspirar confiança.  Os aplausos que recebia, quando os resultados agradavam, davam lugar a pesadas críticas, se as expectativas das emissoras fossem contrariadas.
A primeira pesquisa eleitoral a cargo do Ibope, entretanto, aconteceu em São Paulo, em 1945, sobre as eleições presidenciais daquele ano, vencidas por Eurico Gaspar Dutra.  
            Desde então, com o aparecimento da urna eletrônica,  e graças a pesquisas aperfeiçoadas pelo uso de técnicas e ferramentas cada vez mais modernas, a disputa entre os políticos perdeu a graça. O suspense, que mexia com o emocional do eleitor, deixou de existir.  Antes mesmo da votação, o resultado é facilmente presumível, quando não imexível.  Não há mais aquela longa e emocionante espera pela proclamação dos vencedores; a apuração acontece em questão de horas.
            As atenções agora se voltam mais para o futuro.
             Em família, a torcida é para que o recém-nascido cresça fiel ao seu gênero. Nada de trocar de lado.
            Na política, espera-se que o eleito honre os compromissos assumidos, sem se entregar às seduções do poder.
            Dois sonhos por demais ambiciosos!

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

ZEBRA NO BOLSO


Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 30.08.2018

            Faltando pouco mais de um mês para o seu primeiro turno, não há lembrança de uma eleição tão prestigiada pelo desinteresse popular. Como se fosse uma retrospectiva de campanhas, só se vê a repetição de chavões e promessas surradas, feitas por candidatos também desgastados ou incapazes de gerar qualquer esperança de renovação.
            Há nada menos de 13 aspirantes à Presidência da República. Alguns são velhos conhecidos, figurinhas carimbadas. Nem mesmo com a ajuda de hábeis e onerosos marqueteiros, conseguem fugir da mesmice que torna ridículas as suas exposições.  Os neófitos também não causam empolgação, inclusive quando acenam com metas arrojadas, pois não indicam a origem dos recursos que lhes permitirão executá-las.
            Sempre depositei nas pesquisas eleitorais a inabalável confiança que tenho nos horóscopos sentimentais. Dessa vez, entretanto, elas estão se superando em termos de eficiência: entre tantos concorrentes, conseguem passar a ideia de que não há mais do que uma acirrada disputa entre dois candidatos, um de esquerda, outro de direita, cada um tentando se impor como o mais legítimo representante de sua tendência. Os demais pretendentes, com índices inexpressivos, não passam de coadjuvantes, ou meros figurantes, pelo menos por enquanto.
            De um lado está um militar da reserva, 63 anos, paulista, que cumpre atualmente seu sétimo mandato de deputado federal, o mais votado do Rio de Janeiro, nas eleições de 2014, hoje filiado ao Partido Social Liberal.
Esse é Jair Bolsonaro, político franco, polêmico, não raro irreverente, célebre por seu perfil populista e de extrema-direita, simpatizante do movimento militar de l964, contrário aos direitos LGBT, apologista do combate enérgico à criminalidade, defensor intransigente dos princípios familiares, e conhecido por muitas afirmações controversas que já lhe renderam várias dores de cabeça judiciais. Em resumo, é um misto de Silas Malafáia, Capitão Nascimento e Papa Francisco, que, dado o seu estilo diferenciado, a cada dia conquista mais seguidores.
            Na outra ponta, aparece a surreal candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, 72 anos, que, mesmo na condição de presidiário, se mantém líder nas pesquisas.
Nada ofusca o indiscutível prestígio popular do maior líder petista. Por mais que lhe façam acusações, seus apoiadores se multiplicam, crendo ser ele vítima de injustiça e perseguição. Mas, dentro do seu próprio PT, não faltam os que reconhecem ser esse um quadro que só se sustenta graças a muita “mágica” no sentido de manter em evidência o nome mais representativo da agremiação. Mesmo conscientes de que se trata de caso praticamente perdido, admitem não haver outro meio de o partido preservar-se e sair menos chamuscado do próximo pleito.
Caso Lula seja alijado do processo, e não consiga transferir maior parte de seus votos para o seu substituto, ou para os demais candidatos, haverá a possibilidade de Bolsonaro liquidar a fatura no primeiro turno. Se assim considerada, ainda que improvável, mas não impossível, a zebra já estaria no bolso.
Começa amanhã (31) a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão. Por tradição, sensíveis mudanças poderão ocorrer no cenário aqui comentado, contribuindo para que a disputa fique mais competitiva e empolgante.
O sábio e saudoso político mineiro Magalhães Pinto certa vez sentenciou que "Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já muda". A meteorologia está prevendo céu de muitas nuvens, até as eleições. Sinal de que poderão ocorrer chuvas e trovoadas.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

UNIDOS PELO IBITURUNA

Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 16.08.2018

A mudança para os grandes centros, em busca de maiores oportunidades de estudo e trabalho, é um comportamento típico do ser humano, especialmente dos jovens.
Esgotadas suas chances nos locais onde vive, o indivíduo sai em busca de novos horizontes, deixando para trás família, namorada, amigos, objetos e locais com os quais até então conviveu. De repente, tudo vira recordações que dificilmente se apagarão, sobretudo para quem soube viver o passado.
Hoje declinante, esse movimento migratório teve sua fase áurea nos anos 1950/70, quando os cursos superiores existiam apenas nas capitais e em algumas localidades mais adiantadas.
Foi nessa época que muitas famílias de Governador Valadares assistiram ao êxodo de seus filhos.  Após concluir o então chamado segundo grau, eles não tiveram alternativa, senão fazer as malas e partir para onde pudessem prosseguir seus estudos. E assim se espalharam por Belo Horizonte, Vitória, Rio, São Paulo e outras metrópoles, inclusive do exterior. Ali lá se formaram, se estabeleceram, constituíram família e acabaram criando raízes. Nos quatro cantos do mundo, é possível encontrar valadarenses notáveis e bem sucedidos, nas mais diversas áreas.
 Muitos desses “emigrantes”, agora na faixa dos 70 anos, embora dispersos, conseguem manter um estreito relacionamento entre si, como se nunca houvessem se distanciado uns dos outros.
Entre os diferentes modos de manter essa sadia convivência, eles formam no WhatsApp um grupo, já bem numeroso, que se comunica de forma constante, falando de amenidades, família, política, esporte, humor, sacanagem, viagens e tudo o mais que possa agregar valores e perenidade à confraria.
            A explicação para tanto entrosamento poderia se resumir nos laços de amizade que ligaram esses personagens na infância e na juventude, quando eram vizinhos ou integravam a mesma tribo. Mas há outro forte elo, que inclusive contribui para que o grupo se torne cada dia mais numeroso: o Colégio Ibituruna, onde, na década de 1960, eles cursaram o primeiro e segundo graus.
´           É surpreendente a influência desse educandário sobre o emocional de seus alunos. Mesmo após muitos anos de separação, as salas de aula, os professores, os colegas, os desafios, as brincadeiras, as rusgas e emoções sobrevivem na memória de todos, alimentando um espírito de união que se fortalece com o passar do tempo.
            Não se contentando com o simples contato virtual, essa turma partiu para um corpo a corpo periódico, com direito a comes e bebes, camiseta, muita alegria e nenhuma influência política. Isso já aconteceu duas vezes, ambas na capital mineira.
            Neste ano, coincidindo com 80º aniversário de fundação do Colégio Ibituruna, o encontro será em Governador Valadares, nos dias 14 e 15 de setembro próximo. Esperam-se mais de 100 participantes, muitos dos quais virão de várias partes do país.
            A programação, a cargo de um grupo coordenador, inclui duas festivas reuniões etílico-gastronômicas, uma missa de agradecimento e homenagens presenciais e “in memoriam” a algumas personalidades ligadas à escola.
            Embora de natureza informal, o evento é da maior importância. Além do desejo de confraternização que o motiva, ele oferecerá aos ex-alunos, em especial os que vêm de fora, a rara oportunidade de um reencontro com velhos amigos e com o colégio onde iniciaram a caminhada rumo ao sucesso. Haja coração!

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

ROYALTIES PROVIDENCIAIS


Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 02.08.2018

            O Fórum Emergencial de Saúde e Educação acontecido em Governador Valadares, no último dia 27, do qual participaram cerca de 40 prefeitos de cidades mineiras, mostrou um compartilhamento de problemas e dificuldades bem mais preocupantes do que se pensava.
O evento serviu para desnudar, em toda a sua extensão, a aflitiva situação financeira em que se encontram aqueles municípios, devido à falta de repasses por parte do Governo mineiro. A inadimplência do estado se refere a verbas garantidas pela Constituição Federal, destinadas à saúde, educação e segurança, afora outras necessidades essenciais e inadiáveis. Dados recentes mostram uma dívida superior a R$ 100 milhões, apenas para com a prefeitura valadarense. 
            Pelo que ficou demonstrado, já há cidades com serviços comprometidos e até mesmo paralisados.
            Os prefeitos optaram por reagir com medidas enérgicas, entre elas a paralisação de todas as atividades escolares, a partir de 20.08, e a proposição de uma Ação Civil Pública, caso a pendência se mantenha.
            A queda de braços envolvendo repasses do governo de Minas para os municípios não é novidade, mas se intensificou na administração atual. E não há muita esperança de que o impasse se resolva a curto prazo.
            A experiência ensina que nas situações de dificuldade é que são encontradas as melhores saídas.
            Pode ser que nem todas as prefeituras tenham conhecimento da Lei 13.540/2017, de 18.12.2017. Ela destina 15% da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), aos municípios escoadores da produção de minério de ferro, ou afetados por operações de embarque e desembarque, ou ainda para cidades onde se localizam pilhas de estéril, barragem de rejeitos e instalações de beneficiamento.
            Significa dizer que, mesmo sem possuir nem ao menos uma jazida, as localidades diretamente impactadas pela atividade mineradora passaram a ter direito a parte dos “royalties” da mineração, o que certamente aliviará os cofres municipais.
            Para que isso se tornasse possível, os municípios mineradores, que antes recebiam 65% dos royalties, ficarão com 60%. Já o Estado, que até então abocanhava 23%, terá que se satisfazer com 15%. A fatia do Governo Federal caiu de 12% para 10%.
            O presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM), Julvan Lacerda, considera que esse foi um avanço muito importante. “Antes, esses vizinhos, apesar de sofrerem os impactos do transporte do minério e da presença das barragens, não ganhavam nada. Agora, vão ganhar”, festeja Lacerda.
            Alguns noticiários dizem que esse benefício foi instituído graças a uma emenda apresentada na Medida Provisória 789/17 pelo senador Roberto Rocha (PSDB-MA), para quem a vitória é de todos os prefeitos que se uniram para chegar a essa conquista. Segundo ele, “ao longo de décadas, a única coisa que os municípios maranhenses recebiam era o pó de minério e o apito do trem. Não ficava nada além disso”.
            A situação se equipara à do Vale do Rio Doce, onde há décadas enormes comboios da Vale percorrem dezenas de municípios mineiros e capixabas, transportando para o porto de Vitória milhões de toneladas de minério extraídas em Itabira. Tanto lá quanto cá, o legado é o mesmo.
            A partir de agora, essas cidades terão direito à recompensa pelos transtornos que lhes são impostos. Resta às autoridades competentes inteirar-se de seus direitos e correr atrás do prejuízo. Enquanto “seu lobo” não vem.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

A PRAÇA É AUREA


Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 19.07.2018

As cidades mais antigas e tradicionais, donas de um passado mais amplo, preferem batizar suas ruas, avenidas, praças e outros locais públicos com nomes das pessoas ilustres que ali tiveram alguma importância histórica ou atuação relevante. É a melhor forma de reverenciar e, ao mesmo tempo, perpetuar a memória daqueles que se destacaram, e, de alguma forma, contribuíram para o desenvolvimento da comunidade. Por isso, além de merecedores de deferências, é importante que sirvam de exemplo e permaneçam vivos na lembrança das gerações seguintes.
Em Valadares essa prática ainda não alcançou níveis desejáveis. Não porque a cidade seja jovem, ou porque lhe faltem personagens dignos de homenagens. A verdade é que, durante certo tempo, a questão foi negligenciada pelos que por ela deveriam zelar.
Nos seus 80 anos de emancipação, o município exibe um desenvolvimento próprio dos grandes centros, a ponto de ser considerado um polo regional. E essa posição só foi alcançada graças ao trabalho incansável e à dedicação de incontáveis homens e mulheres cujos nomes engrandeceriam quaisquer logradouros.
Há pontos em que a justiça já se faz presente, como na Praça Serra Lima, no Aeroporto Coronel Altino Machado D’ Oliveira, na Avenida Moacyr Paletta, na Escola Municipal Padre Eulálio Lafuente Elorz, na Univale-Campus Armando Vieira, na Eteit-Campus Antônio Rodrigues Coelho, na Vila (Afonso)Bretas, na Praça Euzébio Cabral e no Estádio José Mammoud Abbas, entre outros. Isso sem contar vários edifícios que herdaram nomes dos patriarcas das famílias que os construíram. Mas tem muito mais gente a homenagear.
Em texto recente (Chance de Se Redimir – 21.06.18), falei sobre o extraordinário, mas esquecido, Hermírio Gomes da Silva, falecido há quase 10 anos, e tomei a liberdade de aponta-lo como patrono da Praça de Esportes, existente no centro da cidade; tomara que a ideia repercuta!
A atual administração municipal tem dado inequívoca demonstração de que pretende recuperar o terreno perdido. Ainda há pouco, reverenciou o músico Jacenguay Souza Pettersen, o saudoso Guay, dando seu nome à concha acústica da Praça dos Pioneiros.
Na última terça-feira (17), as atenções se voltaram para a memória de Áurea Franco Machado, uma das mais queridas e ilustres mulheres de sua época. Na ocasião, aconteceu a reinauguração da Praça Treze de Maio, que, revitalizada, passou a se chamar Praça Aurita Franco Machado.  Popularmente conhecido como “Praça da Mulher da Boca Aberta”, o logradouro foi construído nos anos de 1964 e 1965, pelo então prefeito Joaquim Pedro Nascimento. À época, a intenção era homenagear as mulheres valadarenses que, lideradas por Áurea Machado, foram às ruas, aos gritos, protestando contra as ameaças ideológicas que pairavam sobre a nação. Esse grito, aliás, explica a mulher de boca aberta que inspirou o busto erguido no local.
Dona Aurita, como era carinhosamente chamada, se destacou como esposa e mãe, além do seu elevado nível cultural, do dinamismo, da coragem, e do espírito público que sempre pautaram sua maneira de agir. Esteve presente nos grandes momentos da vida comunitária valadarense, coadjuvando ou liderando ações quase impossíveis, mas afinal bem sucedidas. Entre essas, a entronização da imensa imagem de Nossa Senhora que hoje resplandece no Pico da Ibituruna. Sua participação foi também decisiva na criação da Escola Técnica de Enfermagem da Fadivale e na fundação da Sodami.
Para potencializar os seus méritos, Dona Aurita teve a graça e o privilégio de deixar herdeiros valorosos, que, tal como ela, alimentam e demonstram grande amor e dedicação por Valadares. Precisa mais?

quinta-feira, 5 de julho de 2018

DE OLHO NO HEXA


Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 05.07.2018
           
            As reações humanas surgem na hora certa; não há como antecipá-las.
            Pelo menos em copas do mundo, essa é a regra. O início da competição é sempre marcado pela desconfiança e pelo desinteresse de boa parte dos torcedores. É a fase em que muitos desconhecem ou ainda duvidam da capacidade de sua seleção.  Por isso, preferem ficar em casa, em pequenos grupos, para assistir às partidas.
Na Copa deste ano esse comportamento intensificou-se, sobretudo nos dias em que os jogos aconteceram em horários matinais, impróprios para se entregar aos agitos e desdobramentos do evento.
Em resumo, as multidões que lotam e animam bares, restaurantes, clubes, praças e outros logradouros públicos se formam naturalmente, à medida que a disputa avança. E isso está acontecendo, com saudável e crescente intensidade.
            Não obstante a forma categórica e brilhante como se classificou, a seleção Canarinho chegou à competição atual com uma credibilidade ainda abalada pela sua medíocre participação na Copa de 2014. A vergonhosa derrota de 7x1 para o time da Alemanha, em pleno Mineirão e sob os olhos de sua torcida, ainda não foi esquecida, tampouco perdoada. Nesse clima, o empate contra a Suíça (1x1), logo na primeira partida, contribuiu para que o torcedor mantivesse sua barba de molho.  O pessimismo, entretanto, foi se diluindo, e acabou cedendo espaço ao otimismo, graças aos dos resultados positivos alcançados nos jogos seguintes, em especial a boa vitória obtida contra a respeitável seleção mexicana.
            O grande torneio chegou às quartas de final. Das 32 equipes que o iniciaram, oito permanecem no páreo, e o Brasil é uma delas.
            Nessa fase, a nossa primeira rival será a seleção belga, em jogo marcado para as 15 horas de amanhã.
            As duas equipes se enfrentaram apenas uma vez em copas do mundo, com vitória brasileira de 2x0, gols de Rivaldo e Ronaldo Fenômeno. Isso aconteceu nas oitavas de final de 2002, ano em que a nossa seleção, comandada por Luiz Felipe Scolari, conquistou o pentacampeonato. Naquela época, embora o Brasil tenha vencido, a crítica destacou o seu confronto com a Bélgica como o mais difícil na briga pelo título.
            Se passar pelos chamados “demônios vermelhos”, nossa seleção terá dado um decisivo passo para a conquista do título.
            A Copa 2018 caminha para o seu final, acumulando um saldo extremamente positivo.
            Os jogos, de excelente nível técnico, têm sido empolgantes, disputados com garra, lealdade, determinação e muita persistência, haja vista que vários deles só foram decididos nos seus últimos momentos
Nesse frenético desenrolar, gratas revelações de talentos se misturam a justas consagrações e lamentáveis despedidas de craques responsáveis pela alegria de milhares de torcedores.
            Confirmando ser o futebol uma caixinha de surpresas, muitas das seleções tidas como favoritas decepcionaram e foram precocemente eliminadas, algumas já na primeira fase. Em contrapartida, equipes menos cotadas surpreenderam com um desempenho moderno e vigoroso, mostrando que também no futebol a renovação acontece. 
            O técnico do time belga, Roberto Martinez, disse que o Brasil é o favorito no jogo de amanhã. É bom não acreditar nisso. Ele teria dito a mesma coisa na última segunda feira, quando seu time enfrentou e desclassificou o Japão.
            O ideal é o Brasil jogar seu futebol da forma como vem fazendo até agora, ou até melhor, sempre consciente de que a grande dificuldade para chegar ao hexa será vencer a partida final.  

CHANCE DE SE REDIMIR

Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 21.06.2018

Há muito venho percebendo certo descaso de Valadares para com os fatos e personagens de sua história. Eles são abundantes, às vezes épicos e empolgantes. Muitos, entretanto, são desconhecidos, ignorados, ou estão relegados a um melancólico esquecimento.
Impressões colhidas junto à geração atual, sobretudo a camada mais jovem, têm se mostrado preocupantes. Para se ter uma ideia, muitos não sabem que o nome do bairro SIR representa uma homenagem a Sotero Inácio Ramos, o empresário que durante muitos anos instalou e manteve os melhores cinemas da cidade. Também ignoram que Vila Isa seja um tributo à Imapebra S.A, a indústria de madeira e pecuária que foi uma das maiores expressões locais no ramo.
Com relação a pessoas, o desconhecimento é ainda mais inquietante. A maior parte dos pioneiros, dos responsáveis pelo surgimento e pela consolidação da cidade, já se foi. Dos poucos remanescentes, ainda há quem possa falar da epopeia desbravadora, dos obstáculos enfrentados e das vitórias conquistadas. Mas não lhes resta muito tempo e muito fôlego para testemunhar, nem para aguardar o reconhecimento a que fazem jus.
O tempo passa e as baixas se tornam mais constantes. Os heróis do passado se despedem, abrindo espaço para novas ideias e lideranças.
Essa renovação é compreensível, faz parte do ciclo humano. Reprovável é a súbita amnésia que se apossa da comunidade, a ponto de o passado ser rapidamente esquecido.
E esse destino tem sido inexorável. Dos mais modestos aos mais notáveis, todos tendem a cair no ostracismo.
É o que está acontecendo com Hermírio Gomes da Silva.  Cidadão de méritos indiscutíveis e um currículo que dispensa galanteios, ele foi um dos ícones de sua época. Homem de visão, perseverante e otimista, era requisitado nas mais diferentes áreas. Sua marca está em quase tudo que se fez pelo desenvolvimento de Valadares. Consagrou-se como vereador, vice-prefeito, prefeito por duas vezes, presidente da Associação Comercial, diretor da Univale, um dos fundadores do Diário do Rio Doce, da Companhia Telefônica e da Fundação Percival Farquhar, diretor da Fadivale, e muito mais. Até agora, entretanto, nada disso lhe valeu uma homenagem pública. Nenhuma rua ou avenida, nenhuma praça, nem mesmo um beco ou um banco de jardim leva seu nome. Inclusive a data de sua morte tem passado em branco. Se sua memória recebeu alguma homenagem em anos anteriores, foi coisa discreta e reservada, incondizente com seus valores. Situação imperdoável, que se repete em relação a outros vultos da história local.
Hermírio faleceu em 18.06.2009.  Significa dizer que no próximo ano esse lamentável acontecimento completará sua primeira década. Seria a grande chance de a cidade se redimir da desatenção que vem dispensando a esse ilustre cidadão.
Em se tratando de vulto tão proeminente, ainda que desprovido de vaidades, teria que ser uma homenagem à altura do que ele fez e representa para a cidade. Evidentemente, não se cogitaria substituir pelo seu o nome da Avenida Minas Gerais, ou algo parecido. Mas também não seria justo tributá-lo com um marco de pouca visibilidade, fora do meio em que sobressaiu.
Ressalvado melhor juízo, poder-se-ia dar o seu nome à tradicional e consagrada Praça de Esportes situada no centro da cidade, que, aliás, embora exista há várias décadas, nunca teria sido batizada.
Reverenciar o passado é tão necessário quanto perseguir o futuro. Afinal, os jovens de ontem são os adultos de hoje e os saudosos de amanhã. Se não souberem valorizar seus antecessores, os notáveis do presente serão os esquecidos do futuro.