domingo, 10 de novembro de 2013

NA BASE DO OTIMISMO

            Na contramão do contexto nacional, onde tudo caminha em frenéticos passos lentos, Valadares parece atravessar outra época de bons presságios, com rápidos avanços presumíveis. O horóscopo garante incertas conquistas em todas as casas do zodíaco.
            Não custa relembrar que a atual onda de otimismo surgiu com a chegada da universidade federal. A ampliação da base educacional elevou a crença em um futuro mais promissor. E essa confiança adquiriu maior dimensão depois que TCU concedeu sinal verde para que se inicie a construção do campus local da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).   
            Outro concreto empurrão na fé valadarense foi dado pelo governo mineiro, quando contemplou a cidade com um hospital regional que promete ser dos mais modernos e bem equipados. A obra evolui conforme cronograma.
            No campo das probabilidades, entretanto, se alojam velhas e grandes aspirações. Todas objeto de promessas que constantemente saem das bocas políticas, mas nunca saem do papel.
            Bons exemplos são a ampliação e modernização do Aeroporto Coronel Altino Machado e a restauração do prédio da Açucareira.  Vira e mexe entram na ordem do dia, ocupam os noticiários, criam expectativas, mas não decolam. Enquanto isso a cidade segue contabilizando prejuízos irreparáveis: perde visitantes e negócios, por não dispor de um campo de pouso à altura das exigências modernas, e elimina a chance de utilizar como atração turística, empresarial e sociocultural um espaço que integra seu patrimônio histórico.
            Motivo de muitas noites de insônia, a perspectiva em torno da duplicação da BR 381 mudou o foco. Agora é brigar para que a obra – finalmente autorizada – alcance Valadares. As lideranças locais se dizem mobilizadas nesse sentido. Tomara que os políticos “chapas-brancas” estejam juntos e de fato tenham cacife para peitar o Governo Federal!
            A inclusão do município na área de abrangência do Instituto de Desenvolvimento do Norte e Nordeste de Minas Gerais (Idene) deverá refletir positivamente. Mas ainda depende de aprovação da Assembléia Legislativa de Minas Gerais. Parece certa, porém é bom esperar o “preto no branco”.
.A esperança do momento é a vinda de uma grande empresa do setor atacadista de alimentos. Especula-se ser o Carrefour, que compraria da União Ruralista parte do Parque de Exposições José Tavares Pereira. Ali faria um investimento de R$ 30 milhões, que, já na primeira etapa, geraria 250 empregos diretos e 400 indiretos. Nem assim é dado como certo. O risco de aborto é um inusitado Projeto de Lei Complementar que tramita na Câmara Legislativa, impondo limites e exigências para execução de obras de grande porte no local cogitado.  
Amenizando a fama de que Valadares é uma cidade “amarrada” em sonhos, a Prefeitura entregará, amanhã, 151 moradias populares, construídas com recursos do Fundo de Arrendamento Familiar, ao amparo do Programa Minha Casa Minha Vida. Nada menos de 600 pessoas serão beneficiadas.
No atacado, tem gente oferecendo ovos que ainda não estão no ninho.
 Alguns receiam que tudo não passe de repetidas promessas eleitoreiras; a maioria tem certeza. É esperar, pra ver! 
           


domingo, 3 de novembro de 2013

NA HORA CERTA


A violência não é problema incomum, tampouco exclusividade de qualquer nação. Pelo contrário, é mal genérico e banal.  Com maior ou menor intensidade, acontece no mundo inteiro.
No Brasil, se alastrou de tal forma, que ficou endêmica e fora de controle. Cada vez mais pavorosos, os índices crescem com incrível velocidade, como se nada fosse capaz de interceptar seus formadores.
Nos quatro cantos do país a insegurança e o medo tomam conta da sociedade. Mulheres, idosos e crianças são as maiores vítimas.
A mídia despeja uma enxurrada diária de notícias sobre roubos, assassinatos, sequestros, estupros e outros delitos. Crimes das mais diferentes naturezas acontecem com impressionante frequência.
Repetindo John Lennon, "Vivemos num mundo onde temos que nos esconder para fazer amor, enquanto a violência é praticada à luz do dia". Nossa Constituição diz que a segurança pública é dever do Estado, mas deve ser compromisso de todos. Sob esse fundamento, fica claro que o êxito do combate à violência depende de mútua colaboração entre a sociedade e as forças oficiais.
Igual entendimento foi demonstrado pelo papa Bento XVI, no encerramento da 81ª da Assembleia Geral da Interpol (nov/2012). Naquela ocasião, Sua Santidade defendeu que "combater a violência é um compromisso que deve envolver não só as instituições e organismos, mas a sociedade como um todo, incluindo as entidades religiosas. Cada um tem a sua parcela específica de responsabilidade por um futuro de justiça e de paz".
Trocando em miúdos, na luta contra a brutalidade não bastam uma polícia de boa qualidade e um judiciário competente. Impõem-se também investimentos na saúde, educação, transporte habitação e outros serviços públicos, além de mais justa distribuição de renda e medidas geradoras de empregos. Exige sobretudo forte mudança nas políticas públicas e maior participação da comunidade nos debates e equacionamento do problema.
Dados do “Mapa da Violência 2013: Homicídios e Juventude no Brasil” deixam Minas em posição desconfortável entre os estados do Sudeste. Foi o único a registrar aumento no número de crimes. Ainda assim, o governo mineiro tem dado provas de que o combate ao mal está entre suas metas. Independentemente do que vem sendo feito em outras áreas do estado, Governador Valadares é bom exemplo dessa conduta.
Desde novembro de 2011, a cidade conta com o Programa Olho Vivo, que instalou 54 câmeras de videomonitoramento para diminuir o índice de delinquência. Tudo graças a uma profícua parceria entre a Prefeitura e o governo do Estado. O resultado foi uma queda superior a 50% no número de crimes violentos registrados nos primeiros cinco meses de 2012, em comparação com igual período do ano anterior (dados da Polícia Militar de Minas Gerais).
Outra demonstração de intolerância para com a violência aconteceu na última quarta-feira (30). A 8ª Região da PMMG, aqui localizada, recebeu 20 novas viaturas a serem utilizadas no trabalho de prevenção e repressão à criminalidade. Segundo o coronel Sérgio Henrique Soares Santos, comandante da unidade, “este é apenas o primeiro lote de viaturas recebidas. Outros 73 veículos serão entregues em 2014”.
O presente chegou em boa hora e a comunidade está grata. Mas não é suficiente para alcançar o que se pretende. O inimigo é forte e, para derrotá-lo, há necessidade de muito mais.
Tudo bem que “de grão em grão a galinha enche o papo”. Na briga contra a violência, entretanto, haja grão para tamanho papo. Aqui ou acolá.

domingo, 27 de outubro de 2013

FORA DE CONTEXTO

            Enquanto os moradores de quase todas as grandes cidades brasileiras se afogam em lixo, o carioca festeja uma limpeza urbana que foge dos padrões convencionais.
            Sem envolver milagres ou ações extraterrestres, as calçadas e praias do Rio de Janeiro vêm se apresentando cada vez mais limpas. A receita está no Programa Lixo Zero, implantado pela Prefeitura, em agosto deste ano. Trata-se de iniciativa que visa diminuir a quantidade de sujeira nas ruas, conscientizando a população e multando os “sujismundos”. Busca-se ainda reduzir os gastos com a limpeza pública, avaliados em quase R$ 100 milhões/mês.
            Estimulado por resultados positivos contabilizados em Nova York, Paris, Tóquio e outras grandes metrópoles mundiais, o prefeito Eduardo Paes resolveu adotar uma agressiva estratégia de repressão à imundície: multar o cidadão que sujar espaços públicos. O valor da canetada varia de R$ 157 a R$ 3 mil, conforme o volume do lixo descartado.
Inicialmente visto com ceticismo, o programa esta dando certo. O balanço relativo ao primeiro mês de vigência mostra que mais de duas mil pessoas foram multadas, a maioria por pequenos resíduos, tipo pontas de cigarro.
Na avaliação da Companhia Municipal de Limpeza Urbana, a cidade já ficou mais limpa.  A quantidade de resíduos no chão diminuiu 50% no Centro e 46% em Copacabana. Em Ipanema, Leblon, Lagoa, Gávea e Jardim Botânico a queda foi de 42%.
Em ritmo de evolução, o programa começou a multar também motoristas e passageiros de veículos. Qualquer descarte feito pela janela está sendo punido, desde a última quarta-feira (23/10).
Falando sobre perspectivas em relação ao comportamento das pessoas no descarte do lixo, Eduardo Paes disse que “o que a gente espera é que seja uma mudança cultural mesmo. Se não houver uma participação da sociedade, muito pouco vai poder ser feito”.
Bem sucedido, o programa tem despertado o interesse de muitas outras prefeituras. Não faltam prefeitos desejosos de adotar a mesma tática em suas localidades.
O problema é que não se pode cogitar de limpeza em áreas onde a conservação é tratada com absoluta indiferença; em que avenidas, ruas e calçadas são quase intransitáveis, devido à absurda quantidade de buracos, desníveis e outros obstáculos. Moralmente, não é justo cobrar cidadania de quem não é respeitado em seus direitos, muito menos retribuído pelos extorsivos impostos que paga.
Para ter êxito, o Lixo Zero envolve, antes de tudo, um bom acordo com pombos, pardais e outros pássaros, além das árvores, para que nada despejem no chão. Afora isso, requer que os locais públicos recebam um mínimo de atenção dos responsáveis pela sua boa qualidade. Valadares não se enquadra, pelo menos de momento.


domingo, 20 de outubro de 2013

AJUSTANDO O RELÓGIO

               Corroborando a tese de que não só as coisas boas se repetem, o horário de verão está de volta. Moradores de grande parte do território nacional acordaram sob seu comando. Preciosos 60 minutos lhes foram surrupiados, após a zero hora de hoje.
            Adotado por cerca de 30 nações, o horário de verão originou-se na Inglaterra (1907), embora o primeiro país a adotá-lo tenha sido a Alemanha (1916). Em pleno conflito mundial, a economia de energia foi considerada importante esforço de guerra, diminuindo o consumo de carvão, principal fonte energética da época.
            No Brasil foi instituído em 1931, pelo então presidente Getúlio Vargas, mas só após 1985 tem vigorado sem interrupção, nos estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste (afora Tocantins, excluído a partir deste ano).
            Em 2008 estabeleceu-se que a mudança de horário – antes definida por decretos anuais – acontecerá invariavelmente no terceiro domingo de outubro e terminará no terceiro domingo de fevereiro. Se este coincidir com o carnaval, o encerramento será adiado para o domingo seguinte.
            Sempre que colocada em prática, a medida polariza as opiniões em torno de sua conveniência e eficácia. Poucos se mostram favoráveis, enquanto a grande maioria fica dividida entre os que não gostam, os que abominam e os que gostariam de “exterminar” os responsáveis por sua adoção. Há também os que anseiam por sua chegada, só pra ter a chance de festejar e soltar foguetes no seu enterro.
            Para os muitos opositores, o horário de verão só convém aos políticos, aos servidores públicos do alto escalão, aos aposentados, aos genros de sogro rico e aos malandros que não têm hora para sair da cama, entre outros.
            Os que começam a trabalhar nas primeiras horas do dia, os estudantes do turno matinal, seus pais, e os que curtem a noite mas têm obrigações na manhã seguinte, estão entre os que mais detestam a medida.
            O grande questionamento tem sido em relação ao seu custo/benefício, ou seja, se a economia de energia justifica os transtornos causados à população.
            Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) – entidade responsável pela área –, o estímulo para adoção desse instrumento no Brasil é a segurança do sistema, não predominando a economia de energia elétrica.
            No verão eleva-se o consumo, sobretudo em torno das 18 horas, quando as pessoas voltam aos seus lares e ligam luzes, televisores, chuveiros, etc., no momento em que a iluminação pública também é acionada. Esse súbito aumento da demanda pode desestabilizar o sistema elétrico.
            Com a iluminação natural ainda presente, o horário de verão permite que a entrada da iluminação pública seja retardada, de forma a não coincidir com a chegada das pessoas em casa, após o trabalho. Assim, o aumento da demanda se dá de forma mais gradual, melhorando a segurança do sistema, esclarece o ONS.
            Em termos financeiros, espera-se uma economia de R400 milhões nos quatro meses de vigência do horário, bem maior do que a obtida no último período, em torno de R$ 160 milhões.
                Nesse ponto, é inevitável um parêntesis, para observar que se trata de valor irrisório, comparado com o dinheiro despejado no ralo da corrupção nacional. Segundo estimativa da Federação das Industrias do Estado de São Paulo (Fiesp), divulgada em maio último, o rombo fica entre R$ 40 a R$ 70 bilhões por ano. Mas isso é mero comentário, que nada tem a ver com o tema sob abordagem.
Explicações à parte, o novo horário está em vigor e, gostando ou não, com ele teremos de conviver até zero hora de 16.02.2014.
            O consolo é que, segundo velho ditado, “Deus ajuda quem cedo madruga”. Que seja verdade!  

 

 

sábado, 12 de outubro de 2013

"CASA ARRUMADA"

            Depois que a presidente Dilma Rousseff disse estar numa fase de “grandes beijos” com todo o Brasil, o jeito é mudar o foco e dar um refresco ao leitor. Nada de política, políticos, corrupção, inflação e outros temas enfadonhos e cansativos.
            Pra turbinar a leveza do momento, melhor é reproduzir o poema “Casa Arrumada”, recebido como sendo de Carlos Drummond de Andrade. De ótima qualidade, seria mesmo do grande poeta. Mas no Google há registro de que a autora é a carioca Lena Gino, dona do blog Mundo Paralelo.  

“Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas...
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo: aqui tem vida...
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto.
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos... Netos, pros vizinhos...
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias...
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...
E reconhecer nela o seu lugar.”  

            Veio da minha filha Mônica Cristina, com essa carinhosa introdução: “Primeiro, agradeço ao pai e à mãe, que me deram, por muitos e felizes anos, uma casa com cara da gente. Sinto saudade das bagunças, das vozes, das músicas, das festas. O tempo passou rápido, mas me deixou boas lembranças. Fico feliz por ter aproveitado! As recordações estão por toda parte E estou contente porque eu e meus irmãos, Rodney e Débora, trouxemos pessoas que amamos, que trouxeram mais pessoas para enfeitar nossas festas, nossas fotos. Vivi muito, e que Deus me permita, ainda, viver por bons anos com vocês, escrevendo nossa história, que compõe nossa casa”.
Todo mundo gostou do poema e do que Mônica disse. Sobretudo eu!




COMENTÁRIOS:
From: weber torres (via gmail)
13.10.2013
 Etelmar, bom dia. Que a paz de Deus esteja com você e todos os seus. Acordei hoje com saudade. Saudade não sei de que, ou quem sabe, saudade de tudo. Do que fizemos de certo, do que fizemos errado também. O certo nada é mais que nossa obrigação, pois,  fomos criados apara isto. Porém no errado, caimos, nos machucamos, curamos as feridas e aprendemos a termos mais cuidados para não voltar a cair novamente.  

Tetel,   sua crónica de hoje me tocou muito.  Você está acostumado a falar de muitas coisas, de pessoas que passaram e você viu passar. Porém, hoje você falou de uma coisa muito preciosa. Posso, com certeza, afirmar que é a coisa mais preciosa de sua vida.Falou de seus filhos. Pelo que eu o conheço,  família para você está em primeiro lugar. "È prato que ninguém inventa", como diz o trecho do livro Arroz de Palma. E eu sinto muito feliz em poder estar muito próximo a esta família. Feliz domingo para vocês e todos os que você encontrar.

wmi 

De Flatônio José da Silva (via e-mail)
13.10.2013
Eu também gostei muito, tanto do poema quanto das inspiradas palavras da querida Mônica. Sou testemunha de que sua casa sempre foi “arrumada”, com mesa farta, cerveja gelada (muitas vezes da promoção, é verdade), boa música, festas animadas, muita gente simpática. Que Deus a converse assim.
Bom domingo, com meu abraço amigo pra você e a Marlene.
Flatônio

              De Wanderly Santos (via e-mail)
              13.10.2013
Bom dia E.L
Nao conhecia e gostei muito "CASA ARRUMADA"
" do poeta Itabirano 
 
Mas adorei  as palavras da Mõnica Cristina , parabens pelo amor e carinho, trasmitida  naquela mensagem .
 
Quero tb , se DEUS permitir , receber algo parecido de filha.
 
Parabens a Marlene , ela tb è responsável

 




























































































































 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
         
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 5 de outubro de 2013

INCONGRUÊNCIAS EXPLÍCITAS

            Há muito o brasileiro vem convivendo com a triste constatação de que quantidade não é sinônimo de qualidade.
            Vários são os setores onde a relação custo/benefício é inteiramente negativa, onde o grau de satisfação está muito aquém do gigantismo das estruturas e dos fatores responsáveis por produzir resultados. O enorme descompasso entre o esperado e o obtido contraria todas as lógicas.
            O Brasil tem um amontoado leis, para tudo e para todos. Batedores de carteira, ladrões de galinha, trombadinhas e até criminosos do colarinho branco são passíveis de enquadramento.
Segundo estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), divulgado há dois anos, desde outubro de 1988, quando surgiu a atual Constituição Brasileira, foram editadas quase cinco milhões de normas federais, estaduais e municipais. Isso significa que, ao longo de 23 anos, o cidadão ficou sujeito a mais de 500 novos normativos/dia, número que gira em torno de 800, se considerados apenas os dias úteis.
            Era de se esperar que essa volumosa legislação assegurasse um país bem mais tranquilo, com menos violência urbana, menor criminalidade e – quem dera! – livre de corrupção. Um local mais justo, onde os infratores, ricos ou pobres, fossem punidos da mesma forma, sem subterfúgios e protelações. Doce ilusão!
            O aumento da frota de veículos faz a alegria de fabricantes, montadoras, revendedores e outros envolvidos no ramo, além de turbinar a arrecadação de tributos. Nada disso, entretanto, tem contribuído para melhorar o trânsito. Na contramão desse crescimento, o conforto e a segurança do cidadão são cada vez menores. Pouco se investe na manutenção e modernização de ruas, avenidas e rodovias não raro ultrapassadas, que, desgastadas pelo tráfego intenso, continuam sendo palco de trágicos acidentes.  Outra incongruência.
            Se o que recebe em troca correspondesse ao peso da carga tributária imposta pelo Governo, o povo brasileiro seria, talvez, o mais bem servido e privilegiado do planeta. No entanto, enquanto paga impostos extorsivos, tem que se conformar com serviços públicos insuficientes e a cada dia piores, mormente nas áreas de saúde, transporte e segurança, onde o caos reina absoluto.
            No campo político-administrativo, a incoerência se torna mais visível. Além dos felizardos integrantes do Congresso Nacional, o país sustenta 27 governadores, seus vices, uma infinidade de deputados estaduais, prefeitos, vereadores e seus milhares de apadrinhados. Com tanta gente disponível, não deveria haver demandas reprimidas, obras em atraso, serviços mal executados, processos engavetados, nada que pudesse colocar em dúvida a competência dos que são pagos pelo contribuinte. Mas, para tristeza geral, a folha de pagamento cresce na razão inversa dos resultados.
            Para completar, o sistema político brasileiro abriga 32 partidos, e só não chegou a 33 porque o Tribunal Superior Eleitoral decidiu rejeitar o registro do Rede Sustentabilidade, pretendido pela ex-Senadora Marina Silva.
            Nesse particular, não há muito o que comentar, tampouco lamentar. Até o Ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal, admitiu que “nenhum sistema político funciona bem com 10, 12 ou 15 partidos políticos, muito menos com 30 partidos”. Onde não há ilusão, inexiste decepção.
 
* Jornal de Domingo
* Diário do Rio Doce
 

 

 

domingo, 29 de setembro de 2013

REAÇÕES ADVERSAS

            É realmente árdua, complexa e inglória a tarefa de governar.
Por mais que o mandatário se esforce, não consegue agradar a gregos e troianos.  Suas decisões e atitudes estão sempre sujeitas a divergentes avaliações e a não menos distintas reações.
O que para uns representa firmeza, determinação e heroísmo, para outros não passa de exibicionismo, insegurança ou bravata.
Vaia-se, quando normal seria aplaudir; absolve-se, quando o certo era condenar, ou faz-se simplesmente o contrário, tudo em função de interesses próprios nem sempre confessáveis.
Foi o que ocorreu com a atuação de Dilma Rousseff, na 68º Assembléia Geral da ONU.
No discurso de abertura do evento, a presidente deu um forte puxão de orelhas em Barack Obama. Em tom enérgico, acusou os EUA de, com seus programas de espionagem, praticarem ação ilegal e antidemocrática, violando o Direito Internacional, os direitos humanos, a soberania dos países e as liberdades civis.
Para o The Guardian, jornal britânico que publicou as primeiras revelações do escândalo de espionagem da Agência de Segurança Nacional (NSA) americana, o “feroz” discurso de Dilma representou um desafio direto a Obama.
Internamente, a presidente foi elogiada até por políticos da oposição. O senador Álvaro Dias (PSDB/PR), por exemplo, achou que ela agiu corretamente, embora, não baste falar sem adotar procedimentos concretos.
Também o líder do DEM, José Agripino (RN), elogiou o tom enérgico do discurso, mesmo acreditando que Dilma atuou apenas na superfície, apegada a orientação de marqueteiros.
Já o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB/PE) classificou como altamente decepcionante, fraco e ridículo o pronunciamento.
Outro a reprovar foi o deputado Ronaldo Caiado (DEM/GO). No seu entendimento, “a postura dela está mais midiática e eleitoreira do que de defesa do país”.
Conhecedor de buracos de fechaduras, binóculos, periscópios, olheiros, detetives particulares, fiscais da receita, outros meios e agentes de espreita, o povo também ficou dividido, mas não deu muita bola. Sabe que a espionagem é tão velha quanto a desconfiança entre homem e mulher. Fatores supervenientes apenas contribuíram para aumentar a indiscrição. Pelo visto, o verbo espionar continuará sendo conjugado em todos os seus tempos e pessoas. Doa em quem doer!
Resta lamentar que Obama, sabedor de tantos segredos da vida brasileira, ainda não tenha revelado onde estão Elisa Samúdio e Amarildo. Bom enredo para um novo 007.