quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

TEMPO DE MUDANÇA


Por Etelmar Loureiro

- Revista “Mais Mais PERFIL” – Dez-2018

            De olho no calendário, o povo brasileiro conta nos dedos os dias que faltam para terminar o ano. Essa época é naturalmente marcada por um clima emocionante, em que despedidas, expectativas e ansiedades se misturam. Desta vez, um novo ingrediente se junta à fórmula, tornando mais tensa e intrigante a temporada.
            Nada que coloque em risco o especial de Roberto Carlos, as trocas de presentes e mensagens de época, os comes e bebes próprios do tempo de manjedoura, tampouco as queimas de fogos que agitam a virada de ano. Tudo isso certamente acontecerá, conforme mandam as tradições. O suspense também não se deve ao fim do governo Temer. Esse está se despedindo em silêncio e da forma melancólica como transcorreu, sem deixar saudade.
            O que está mesmo roubando as atenções é a posse do 38º presidente da República Federativa do Brasil, Jair Bolsonaro, prevista para o primeiro dia de janeiro próximo. Tornando-se cada vez mais cintilante, a estrela de Bolsonaro vem ofuscando todas as demais. Após a significativa vitória que obteve nas urnas, quase não se fala em outra coisa. Os holofotes estão voltados para aquele que, de um momento para outro, se transformou em símbolo nacional.
Sobre qualquer outro sentimento, paira no ar uma grande esperança de que o futuro governo possa colocar freios na enorme corrupção e na descontrolada criminalidade que assolam o país. Espera-se que, a um só tempo, ele consiga coibir os desmandos administrativos, as orgias políticas, as negociatas entre agentes de governo, seus aliados e fornecedores, o tráfico de drogas, o contrabando, e tantas outras mazelas que mancham o currículo nacional.
O próprio Bolsonaro, na apresentação do seu plano de governo, denominado “O Caminho da Prosperidade”, prometeu uma gestão “decente, diferente de tudo aquilo que nos jogou em uma crise ética, moral e fiscal. Um governo sem toma lá dá cá, sem acordos espúrios. Um governo formado por pessoas que tenham compromisso com o Brasil e com os brasileiros”.
A sua intenção é fazer uma administração liberal democrata, onde educação, saúde e segurança tenham prioridade. Na sua visão, o liberalismo “reduz a inflação, baixa os juros, eleva a confiança e os investimentos, gera crescimento, emprego e oportunidades”. Outro propósito é ter “tolerância zero com o crime, com a corrupção e com os privilégios”. Isso sem falar na redução do número de ministérios e extinção da abundância de órgãos hoje mantidos apenas com o objetivo de lotear o Estado e acomodar apadrinhados políticos. Ou seja: o homem que para muitos é um “mito” pretende mudar radicalmente a forma de conduzir o país. Se conseguir, será também um herói.
Claro que não será fácil levar a cabo tão ambicioso projeto, sobretudo num contexto onde, além dos entraves legais, a arraigada polarização entre vencedor e vencidos ficou longe de ser eliminada pelo resultado das urnas.  Remanesceu uma oposição que promete ser vigorosa, liderada por alto número de lulopetistas, que não hesitará em complicar a vida do capitão.
De outra parte, certo de que nem tudo são flores, o povo não esconde algum temor em relação às medidas “um pouco amargas” mencionadas mas ainda não  inteiramente reveladas por Bolsonaro. Lembrando-se de Fernando Collor, que no primeiro dia de seu governo confiscou os depósitos bancários, inclusive as cadernetas de poupança dos brasileiros, não falta quem esteja com um pé atrás. Afinal, um sábio ditado ensina que “cão mordido por cobra tem medo de linguiça”.
Mas a hora é de acreditar, ainda que não convenha colocar todas as fichas numa mesma jogada. Vale a pena reservar algumas, para, se houver chance, arriscar de novo.
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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

AINDA HÁ CHANCE


Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 06.12.2018

                Resta pouco tempo para o Brasil virar mais uma página de sua agitada história republicana. Na contagem regressiva, o presidente Michel Temer limpa as gavetas, faz as malas, e se apronta para, no dia 1º de janeiro, passar o bastão a Jair Bolsonaro. Espera-se que isso marque o fim de um dos períodos mais conturbados da vida nacional.
            Como se recorda, Temer, até então vice-presidente, assumiu a Presidência em 2016, após o impeachment de Dilma Rousseff. A troca de comando aconteceu num clima de euforia e otimismo. Não que o povo gritasse “#quero Temer”, mas o “#fora Dilma” fazia com que qualquer substituto fosse bem-vindo.
Esse entusiasmo, entretanto, foi efêmero. Logo pipocaram acusações contra o novo presidente, seus aliados e auxiliares mais diretos, todos suspeitos de envolvimento em escândalos, negociatas e falcatruas do arco da velha. As duas primeiras partiram do então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que denunciou o chefe do governo por crimes de corrupção passiva, organização criminosa e obstrução da justiça, no âmbito da Operação Lava Jato. Ambas foram barradas pela Câmara dos Deputados, ficando assim impedidas de prosseguir no STF. Mas surgiram outras graves incriminações, feitas pela Polícia Federal, que indiciou o presidente por lavagem de dinheiro e corrupção. Tudo isso estará paralisado, enquanto Temer estiver no cargo. Depois, só Deus e a Justiça saberão como agir.
Esses e outros rolos contribuíram para que, a certa altura, com apenas 7% de aprovação, Temer fosse considerado o presidente mais impopular desde a redemocratização do país, e o mais rejeitado do planeta.
Se em termos éticos o governo Temer sofre questionamentos, o mesmo não se pode dizer com relação à sua performance administrativa. Não fez maravilhas, mas realizou um básico satisfatório. Entre os seus méritos, reconhecidos até por seus adversários, estão o controle da inflação, a queda da Taxa Selic e a reforma do ensino médio. Há quem inclua nesse rol a reforma trabalhista e a PEC do Teto (que estabelece limites para os gastos públicos pelos próximos 20 anos), mas quanto a isso as opiniões se dividem.
Em recente entrevista concedida à revista Época, Temer emitiu algumas afirmações e considerações interessantes. Disse que ninguém fez mais do que ele por estados e municípios. Lembrou também que, após assumir, o PIB cresceu de 6 pontos negativos para 1 ponto positivo, “ou seja, caminhamos 6,9 em um ano e meio”. No seu entendimento, os livros de história o tratarão primeiro como um “injustiçado” e depois como um estadista. Mas, ao ser indagado se acreditava que os brasileiros sentiriam falta de seu governo, respondeu: “Espero que não. Porque se sentirem falta, é porque o próximo será ruim, e não quero isso”.
Um dos presentes na entrevista lembrou uma frase de Fernando Henrique Cardoso, segundo a qual o governo Temer não era uma “ponte para o futuro”, como dizia o MDB, mas sim uma pinguela, que corria o risco de quebrar. O presidente rebateu: “atravessei soberanamente a pinguela. E ela se revelou uma ponte vigorosa”.
No esporte, é normal um atleta passar maior parte do tempo recebendo vaias, e se consagrar nos momentos finais da competição, fazendo uma jogada de gênio. Temer parecia caminhar nessa direção, até que novamente pisou na bola com a opinião pública, sancionando o reajuste salarial de 16,38% para ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e para o procurador-geral da República. O tempo é curtíssimo, mas ele ainda tem chance de ficar bem na foto. Afinal, o jogo só termina com o derradeiro apito, e, segundo os sábios, a última impressão é a que fica. Basta saber produzi-la.


quinta-feira, 22 de novembro de 2018

MESES COLORIDOS


Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 22.11.2018

                O mês de outubro foi marcado pela campanha de conscientização da sociedade, em particular as mulheres, sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama.
            Carinhosamente chamado Outubro Rosa, o movimento originou-se em Nova York, na primeira Corrida pela Cura, realizada em 1990. Desde então, vem acontecendo em várias partes do mundo, de forma cada vez mais intensa e representativa.
            Seu símbolo é o laço rosa, que representa a luta contra a doença e estimula a união das pessoas, empresas e entidades em torno da causa. A iluminação rosa, quando projetada sobre monumentos e prédios públicos, é emblemática em qualquer parte do planeta.
            Depois do Outubro Rosa, é a vez do Novembro Azul. O penúltimo mês do ano tornou-se mundialmente reservado a ações ligadas ao câncer de próstata e à saúde dos “machões”. A ideia nasceu na Austrália, em 2003, inspirada no Dia Mundial de Combate ao Câncer de Próstata, celebrado em 17 de novembro.
            No Brasil, o movimento já faz parte do calendário nacional das campanhas de prevenção. Tem o objetivo de combater o mal e, sobretudo, motivar a galera masculina a submeter-se aos exames de praxe, inclusive a temida e, para muitos, humilhante “dedada”.
            Semelhante ao que acontece no Outubro Rosa, há distribuição de lacinhos e iluminação dos marcos e pontos turísticos das cidades, tudo na cor azul (o que alguns cruzeirenses, este ano, entendem ser também homenagem a seu time, pela conquista do hexa da Copa do Brasil).
            O Outubro Rosa sempre repercute mais do que o Novembro Azul, graças ao maior engajamento, à melhor disciplina e à mais apurada intuição da mulher em relação aos cuidados para com saúde.
            No cômputo geral, entretanto, ambas as temporadas têm cumprido sua finalidade. Está cada vez mais difícil alegar inadvertência ou ignorância quanto à necessidade um “check-up” periódico.
            O resultado tem sido tão auspicioso que a “colorização” poderia se estender a mais meses, na tentativa de estancar outros males que afligem a sociedade.
            Boa ideia seria instituir o Dezembro Verde-Amarelo, inspirado no Dia Internacional de Combate à Corrupção, ao qual é reservado o 9 de dezembro.
            Em clima de manjedoura, o mês do Natal acomodaria também implacável campanha contra os “maus hábitos” cultivados por empresários, políticos e autoridades de todo o mundo, com justificada ênfase para a turma do “patropi”.
            Para maior interação dos festejos da época, a cauda da Estrela Guia teria as cores da seleção canarinho, enquanto a iluminação, no mesmo tom, se estenderia a todos os presídios do país.
            Maquetes de presépios seriam colocadas nas penitenciárias, onde os Reis Magos, em homenagem aos “hóspedes”, chegariam trajando o honroso modelito listrado.
            Papai Noel, incorporado pelo ex-juiz e agora futuro ministro Sérgio Moro, abandonaria seu tradicional trenó. Apareceria pilotando um robusto e aconchegante camburão, preparado para acomodar corruptos de qualquer tribo.
            De início, apenas o símbolo do movimento seria trocado. O lacinho cederia lugar a delicadas algemas, compostas de uma argola verde e outra amarela.
            A Polícia Federal, como de praxe, se encarregaria de animar a festa.
            Lançada a ideia!


quinta-feira, 8 de novembro de 2018

TRÊS DÉCADAS DE DEMOCRACIA


Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce – 08.11.2018

            Com a atenção voltada para os desdobramentos das eleições deste ano, o brasileiro quase não se deu conta do 30º aniversário da Constituição Federal vigente. Por sorte, a data foi celebrada pelo Congresso Nacional, na última terça-feira (06), em cerimônia da qual participaram os presidentes dos três poderes e outras autoridades. A bem da verdade, entretanto, o que mais realçou no evento foi a presença do presidente eleito, Jair Bolsonaro, marcando o início do processo da transição do governo de Michel Temer para o dele.
            A atual Carta Magna resultou da Assembleia Nacional Constituinte instalada em 01.02.1987, com o objetivo de produzir uma Constituição democrática para o país. Era uma promessa de campanha presidencial de Tancredo Neves, que, eleito, morreu antes de assumir o cargo. Em seu lugar, José Sarney foi empossado, e honrou o compromisso. Presidida pelo deputado Ulysses Guimarães, essa Assembleia trouxe muitas mudanças, fruto de um trabalho que durou 20 meses e teve a participação de 559 parlamentares, sendo 72 senadores e 487 deputados federais.
Desde sua independência, o Brasil teve sete constituições. Nenhuma delas, porém, esteve tão aberta à opinião pública como a atual. Tanto assim que o Congresso Nacional recebeu em torno de 120 emendas, assinadas por mais de 12 milhões de populares.
                A promulgação do texto constitucional aconteceu no dia 05 de outubro de l988, em uma histórica sessão solene do Poder Legislativo. Naquela data, após assinar os originais da nova constituição, Ulysses Guimarães se levantou da cadeira, empunhou um exemplar e, em memoráveis palavras, proclamou “o documento da liberdade e da dignidade. Da democracia. Da justiça social. Do Brasil”. Esse se transformou num dos momentos mais importantes de nossa história, em que o povo brasileiro, marcado pela repressão dos 21 anos de regime militar, pactuou o início de um novo tempo.
A Constituição Cidadã, como Ulysses a chamou, tornou-se emblemática do processo de redemocratização do país, assegurando a liberdade de pensamento e criando instrumentos para evitar excessos de poder do Estado.  Além disso, estabeleceu a independência dos poderes constituídos, com voto direto para a eleição de presidente, governadores e prefeitos.
            Promulgada com 245 disposições permanentes e 70 transitórias, ela, ao longo do tempo, foi modificada mais de 100 vezes, um recorde que divide opiniões.   
            Para Gilmar Mendes, ministro do STF, “há excesso de emendas constitucionais no Brasil. Isso decorre de um modelo constitucional, que é um texto analítico, e um texto analítico acaba provocando emendas. Nenhuma emenda constitucional, no entanto, foi feita para atacar cláusulas pétreas”.
            Por sua vez, Carlos Ayres Britto, ex-ministro do mesmo STF, considera esse número elevado. Para ele, não havia necessidade de tanta emenda. Britto, entretanto, pontua que “o que nos cabe é nos convencermos de que ela é de excelente qualidade. Nos torna um país juridicamente primeiro-mundista. A mais democrática de todas as nossas constituições, seja no seu processo de elaboração, seja no seu conteúdo. Fez da democracia o princípio dos princípios”.
            Os 30 anos de nossa Lei Maior se completam no momento em que o Brasil acalenta sonhos de novos tempos, a partir de uma mudança de governo em que todos depositam enorme esperança.
            No entendimento do ministro Edson Fachin, outro integrante do STF, "a última palavra na sociedade democrática não é de juiz, mas da própria sociedade que constrói e reconstrói seu contrato social e o projeta para a ordem normativa".
            Sábia e oportuna, essa reflexão enfatiza a necessidade de se preservar uma Constituição que valha para todos, pois disso depende uma nação democrática que busque a justiça e a igualdade social. Nosso caso!


quinta-feira, 25 de outubro de 2018

NA RETA DE CHEGADA


Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 25.10.2018

            Mais três dias, e o Brasil conhecerá o seu próximo presidente.
            A campanha política deste ano contrariou as mais abalizadas previsões. Depois de uma modorrenta largada, transformou-se em acirrada disputa, num clima de quase beligerância. Em todos os momentos, sobretudo no segundo turno, o desrespeito, a troca de farpas e agressões, as mentiras, as tentativas de desconstrução entre os adversários e muitas outras baixarias têm prevalecido sobre a apresentação de projetos e a discussão dos grandes temas de interesse nacional. Um ambiente surreal, onde as “fake news” e as tramas de bastidores repercutem muito mais do que os arranjos de vitrine.
            Neste cenário, as redes sociais vêm dando verdadeiro banho na TV, na propaganda eleitoral gratuita e até mesmo nos debates e sabatinas com candidatos. Na visão de Daniel Machado, especialista em marketing político, “há um descontentamento com o político tradicional e isso reverbera também no modelo de se fazer campanha”. E é bom que os eleitores estejam preparados para as surpresas e pegadinhas que poderão pintar no apagar das luzes. Sempre há tempo para mais uma sacanagem!
            Desde o primeiro turno, instalou-se uma forte polarização entre petismo e antipetismo, centrada nos dois candidatos que se mantiveram na pista. Cada uma deles conta com a simpatia e o apoio de um exército de seguidores autênticos e leais. Mas há muitos eleitores que não simpatizam com nenhum dos dois.  Entre esses, uns votarão em Haddad, apenas defender conquistas sociais e democráticas que imaginam estar ameaçadas. Outros vão de Bolsonaro, para impedir que o PT retorne ao governo, trazendo consigo todas as mazelas que tanto afligiram o Brasil, nos 13 recentes anos em que ele esteve sob o comando petista. No fundo, ambos se inclinam pelo que julgam ser o menos ruim.
            É entre a cruz e a espada que o brasileiro chega à reta final das eleições de 2018. Os analistas são unânimes em dizer que a atmosfera que abarca a competição entre os dois finalistas é a mais tensa, desde que o país foi redemocratizado. Perguntado sobre isso, o ministro Marco Aurélio Mello, do STF, respondeu à Rede Brasil Atual (RBA) ser apenas “um período conturbado, e que sugere uma incógnita”. Dizendo esperar que não tenhamos o pior, o magistrado finalizou a entrevista acrescentando que “eu não estou tranquilo, e julgo os demais por mim. Penso que a pessoa conscientizada não está vendo com bons olhos o contexto. Mas vamos esperar”.        
            Bem ou mal aceitas, as eleições continuam sendo o grande ponto de convergência da opinião pública. É o meio democrático pelo qual pessoas da sociedade são escolhidas para exercerem o poder que a elas é outorgado pelo povo.
Mesmo nos países onde o voto é facultativo, o processo eleitoral mobiliza as atenções populares, envolvendo acirradas disputas.
Na hora H, há os que pensam em votar em branco, anular voto ou simplesmente não comparecer. Boa forma de se rebelar contra as promessas enganosas, a demagogia, o cinismo, a incompetência, a falta de idealismo, e outras vergonhas que enodoam a campanha eleitoral.
            Seria essa a decisão mais sensata, não fosse o perigo de ela se transformar no que os contraventores da vida pública mais gostam. Na omissão dos que podem julgar se sustenta a vitória dos não merecem nem mesmo a oportunidade de competir.
            As eleições oferecem valiosa ocasião de exercer-se a cidadania, e ninguém deve abdicar desse direito. A legitimidade do processo político só será alcançada com a participação de todos.
            Ademais, segundo o filósofo Platão, “o castigo dos bons que não fazem política é ser governados pelos maus”. Palavras de sábio!

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

ELEIÇÃO DAS SURPRESAS


Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce – 11.10.2018

            Um velho político nordestino, certa vez afirmou que o conteúdo das fraldas de bebê e das urnas eleitorais só se conhece depois que elas são abertas. De nada adiantam imaginações ou suposições. Só abrindo, pra ver.
            A tese é antiga, mas permanece na ordem do dia, válida e incontestável.
            Os resultados do primeiro turno das eleições deste ano outra vez revelaram a fragilidade e a imprecisão das pesquisas eleitorais feitas pelos institutos especializados no assunto.
            Não que elas tenham sido totalmente equivocadas. Em alguns casos, até acertaram, como na avaliação dos concorrentes à Presidência da República. Em outros, porém, incorreram em falhas lamentáveis, bastante comprometedoras da sua já abalada confiabilidade.
            Em Minas Gerais, por exemplo, houve erros inadmissíveis, causadores de surpresas e decepções que muito alteraram o cenário político estadual.
            Basta lembrar a situação de Dilma Rousseff. Durante toda a campanha, as pesquisas diziam ser ela a favorita. Por muitas noites, isso tirou o sono do enorme contingente de mineiros inconformados com a ideia de tê-la como sua representante no Senado Federal. Contados os votos, entretanto, a ex-presidente não passou de um melancólico quarto lugar, com um sufrágio inferior à metade do que foi previsto pelas pesquisas. Seus adversários ainda comemoram.
            Outra enorme divergência entre as urnas e as “profecias” aconteceu na corrida para o governo mineiro.
            No sábado anterior à votação, as pesquisas davam como certo um segundo turno entre Antonio Anastasia e Fernando Pimentel, com larga vantagem para o primeiro. Em modesto terceiro lugar, tido como carta fora do baralho, aparecia Romeu Zema, um ilustre desconhecido nos meios políticos, que jamais participou de eleições. Terminada a apuração, Zema conquistou quase metade dos votos, detonou o petista Pimentel, e vem sendo considerado favorito na briga final, contra Anastasia.  
            Em maior ou menor escala, a inconsistência das pesquisas também se fez sentir em outros importantes redutos eleitorais, inclusive Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, onde os resultados das urnas divergiram em muito dos que foram por elas apontados.
            Alguns especialistas dizem que os institutos não erraram. Na visão do cientista político Malco Camargos, professor da Puc-Minas e diretor do Instituto Ver Pesquisa e Estratégia, “ocorre que as pesquisas captam o momento. O eleitor é perguntado para quem votaria se a eleição fosse naquele dia. E o eleitor muda de opinião”.
            Segundo o Ibope, já se esperava que pesquisas efetivadas antes da eleição mostrassem alguns resultados diversos dos apurados. “Grande parte dos eleitores são indecisos até o dia da eleição, decidindo apenas na hora da votação em quem vão votar”, ponderou o instituto, acrescentando que, por esse motivo, as pesquisas de boca de urna são as que mais refletem a realidade.
            Agora, limitada a dois os candidatos, a escolha tende a ser é mais fácil.
            Escaldado das demagogias e inverdades que lhe empurraram goela abaixo no primeiro turno, o eleitor adquiriu melhor condição de decidir.
            Por outro lado, deverá ser bem mais pressionado por institutos como o Ibope, Datafolha e outros tomadores de opinião, afora a enxurrada de verdades e inverdades que continuarão viralizando na internet.
           O momento é de ficar atento aos lances, em busca de elementos que permitam formar juízo próprio. Lembrando que as pesquisas de opinião, mesmo quando imparciais, só acertam quando erram pouco.


quinta-feira, 4 de outubro de 2018

ENTRE O GOL E A URNA


Por Etelmar Loureiro

- Revista "Mais Mais PERFIL" - setembro /2018

Comentar política, em época de eleição, já foi tão elementar e estimulante quanto falar de seleção brasileira, em tempo de Copa do Mundo. Ambas eram temporadas pródigas em novidades, novas táticas, consagração de velhos e revelação de novos talentos, disputas empolgantes, torcidas inflamadas, expectativas otimistas e outros fatores que arrebatavam torcedores e eleitores. A inspiração surgia naturalmente, facilitando a vida dos articulistas.
            O passar do tempo não eliminou essa equivalência, mas colocou-a pelo avesso. Hoje a desmotivação tomou conta dos que se dispõem a abordar esses temas.
            Quanto à seleção, as decepções vêm se acumulando desde 2002, quando, pela última vez, o Brasil conquistou um campeonato mundial. Nos 16 anos que se seguiram, exceto raras exceções, só se viu um amontoado de “astros” individualistas, tatuados, trajes e penteados da moda, cheios de mordomias e vontades próprias. Futebol, que é bom, alguns até possuem, mas não o praticam. Nada a ver com os grandes craques do passado, amantes da camisa, dotados de espírito de equipe, e sempre dispostos a dar o melhor de si por uma vitória. As consequências aí estão: trocam-se dirigentes, técnicos e jogadores, mas nada consegue restabelecer a motivação do torcedor.
            Na política, o desapontamento é o mesmo. Acabou-se a geração dos políticos geniais, que brilhavam pela inteligência, seriedade, honestidade e, sobretudo, pelo comprometimento com os interesses nacionais. Homens que colocavam a honra e a dignidade acima de quaisquer tentações ilícitas.  Homens de palavra, que honravam suas promessas. Homens que só se uniam partidariamente em torno de um ideal, nunca por conveniências pessoais. Homens que correspondiam às expectativas, e assim conquistavam a admiração e o respeito da sociedade.
            Essa saudosa elite praticamente desapareceu, ofuscada por um bando de oportunistas que, posando de sérios e travestidos de políticos, tomaram conta do país. Com inegável habilidade, amparados em costas quentes, e não raro sustentados pela corrupção, estão em todas as áreas, envolvidos em falcatruas e negociatas. Agem por conta própria, ou como herdeiros de “caciques” inescrupulosos, que tudo fazem para manter vivas as suas dinastias.
            As eleições deste ano estão longe de acalentar esperanças de grandes mudanças nesse quadro.
            A julgar pelo que demostram os concorrentes aos mais diversos cargos, “tudo continua como dantes no quartel de Abrantes”. Os discursos vazios e as promessas fantasiosas em nada se modificaram. A falta de projetos exequíveis, capazes de satisfazer às grandes necessidades nacionais, constitui, como sempre, a deficiência mais preocupante. Se algo mudou, foi a arte de mentir, que, bem maquiada pelos marqueteiros de plantão, adquiriu novos tons de desfaçatez.        
Os 13 competidores à Presidência da República se dividem entre políticos desgastados, bastante desacreditados, e estreantes que não trazem novidades, não inspiram maior confiança, tampouco demonstram plena aptidão para o cargo.
            Os prognósticos são difíceis. Por enquanto, a indecisão reina absoluta.
Caso não aconteça uma impulsiva, passional e, por isso mesmo, temerária decisão de primeiro turno, pode ser que um segundo escrutínio dê ao eleitor a chance de uma escolha mais racional.
            Há algo em comum entre o gol e a urna: ambos são perseguidos pelos que buscam a vitória. Na última Copa, o Brasil sofreu nova derrota, porque outra vez seus atletas não souberam marcar os tentos necessários. Espera-se que, agora, na hora do voto, o brasileiro seja mais “bom de bola”. Talento não lhe falta!