quinta-feira, 24 de maio de 2018

LOUCOS POR FIGURINHAS


Por Etelmar Loureiro

             Se para elas a disputa só começará no próximo dia 14, faz tempo que as 32 seleções da Copa vêm sendo frenética e intensamente disputadas. Seus jogadores têm sofrido implacável perseguição; o Brasil e o resto do mundo estão à sua procura.
            São os colecionadores de figurinhas, que não descansarão enquanto não os capturarem, um a um.
            Incrível como certos hábitos atravessam o tempo, sem perder a magia, o encanto e o poder de seduzir.
Os cromos da Copa 2018 mobilizam gente de qualquer idade, em várias partes do planeta. Homens, mulheres, crianças, jovens, famílias inteiras se envolveram no processo. Todos se apressam para completar suas coleções, de preferência antes de o campeonato começar. Nessa corrida, valem negociações nos pontos de troca, locais de trabalho, escolas, hospitais, consultórios, festas sociais, onde quer que seja. Até em cultos e velórios surge alguém com uma listinha na mão, perguntando pelos números que lhe faltam.
Conforme pesquisa de mestrado do paulista Paulo Cezar Goulart, as primeiras figurinhas surgiram na Europa, por volta de 1870. Vinham em maços de cigarros, igual apareceram no Brasil, duas décadas depois.
Com o passar do tempo, vinham também em balas e sabonetes, na forma de promoções tipo “achou ganhou”. Encontradas, podiam ser trocadas por pequenos brindes. Foi a fase em que, nas balas “Americanas”, começaram a surgir as figurinhas de jogadores de futebol.
Inicialmente guardadas soltas, as figurinhas só passaram a ter local próprio em 1934, quando as balas “A Holandeza” lançaram o primeiro álbum.
Na metade do último século, a figurinha deixou de ser brinde, para ser vendida.
            “Craques do Campeonato Mundial de Futebol 1950” foi o primeiro álbum brasileiro que tratou apenas de futebol; os anteriores misturavam vários temas. Estranhamente, ele foi lançado meses depois que a Seleção Brasileira perdeu o título para o Uruguai, em pleno Maracanã. Ainda assim fez sucesso.
            O Brasil tornou-se líder no consumo e coleção do álbum de figurinhas da Copa do Mundo. Dos quase 100 países onde o produto é comercializado, somos o campeão de venda, atingindo mais que o dobro da Alemanha, a segunda colocada.
A cada 24 horas, aqui são produzidos cerca de oito milhões de envelopes, cada um contendo cinco cromos. Isso significa 40 milhões de figurinhas por dia, quantidade que tende a diminuir à medida que se aproxima o início dos jogos na Rússia, quando maioria dos colecionadores já terá completado seus álbuns.
Passada a Copa, elas deverão sair de cena, deixando saudade. Poderão retornar daqui a dois anos, nos Jogos Olímpicos, ou só no Mundial de 2022.
Sempre que surgem, criam um clima contagiante. Têm o condão de mostrar o quanto é tênue o meridiano que separa crianças e adolescentes, jovens e adultos. Chega a ponto de fazer crer que essa distinção só existe na Lei, nada tendo a ver com a personalidade e as características físicas de cada geração.
Como bem ressaltou a antropóloga Cláudia Pereira, do Departamento Social de Comunicação da PUC-Rio, “a febre (de colecionar figurinhas) está maior porque as fronteiras da idade estão cada vez mais borradas por conta da expansão da idéia da juventude. Nesse contexto, é permitido acessar a infância o tempo todo”.  Ainda segundo ela, “… é uma forma de (re)viver a infância, sem vergonha de ser feliz”.
            A propósito: faltam-me as do Neymar e do Cristiano Ronaldo ...


- Diário do Rio Doce - 24.05.2018

sexta-feira, 11 de maio de 2018

CONFRONTANDO CIDADES


Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 10.05.2018

            Sempre que visito outras localidades, sobretudo as que se parecem com Governador Valadares, esforço-me para conhecer ao máximo as suas características, na intenção de estabelecer comparações.
            Refiro-me a Passo Fundo, norte do Rio Grande do Sul, onde agora estou.
            Fundado em 1857, esse belo rincão gaúcho possui em torno de 200 mil habitantes.  Situa-se a 290 quilômetros da capital do estado, Porto Alegre. O clima é tido como temperado, mas, no correr do ano, se divide entre um verão causticante e um inverno de assustar esquimó.
            A economia local se baseia no agronegócio, no comércio e na prestação de serviços, com ênfase para os setores de saúde e educação.
            Dispõe de boa infraestrutura de hotéis, lojas de vestuário e eletrodomésticos, bares, restaurantes, cinemas, teatro, museus, bom shopping Center, além de um cemitério crematório de alto nível, recurso pouco comum em cidades interioranas.
Abriga algumas empresas de grande porte, inclusive uma usina de biodiesel (BSBIOS) e uma fabricante de máquinas e implementos agrícolas (KHUL), que em muito contribuem para turbinar a receita tributária.
Considerada polo em saúde, conta com nove hospitais, inclusive o Hospital São Vicente de Paulo, considerado a quinta empresa mais rentável dos três estados do Sul, no setor saúde.
No campo educacional, há nove instituições de ensino superior, entre elas uma universidade federal.
A taxa de analfabetismo da localidade é de 2,18%, bem abaixo da média brasileira, situada em quase 12%.
Afora todos esses detalhes, Passo Fundo chama a atenção por apresentar um bom aspecto de limpeza urbana; ruas, avenidas, praças públicas e passeios bem conservados; afora um visual arquitetônico que impressiona pela quantidade e boa qualidade de elevados edifícios residenciais e comerciais.
Passo Fundo e Valadares têm muito em comum, a começar pela precariedade de seus aeroportos acanhados, carentes de equipamentos de navegação aérea e de outras melhorias. Além disso, estão adequadamente localizadas em relação aos pontos com os quais precisam interagir, são urbanisticamente bem traçadas, progressistas, hospitaleiras e possuem vasto campo para se desenvolver.
            Intrinsecamente, entretanto, as divergências parecem ser bem maiores do que as convergências.
            No quesito cultura, por exemplo, Passo Fundo se posiciona bem à frente, a ponto de deter o título de Capital Nacional da Literatura, outorgado por Lei Federal. Ademais, a cidade possui inúmeras entidades de tradições regionais, inclusive 10 Centro de Tradições Gaúchas.
            Enquanto isso, Valadares, com seus mais de 280 mil habitantes, aguarda há vários anos a prometida restauração do prédio da antiga Açucareira (Cardo), hoje em ruínas, onde, só Deus sabe quando, um dia funcionará um Centro de Convenções. Isso sem falar no Teatro Atiaia, o único existente, desde muito interditado, devido às péssimas condições de suas instalações.
            Uma das explicações para essa diferença, e também para outras que poderiam ser oportunamente abordadas, é o fato de a terra de Teixeirinha possuir 160 anos, o dobro, pois, da idade da terra de Serra Lima.
            Não significa que uma seja melhor do que a outra. Cada qual com suas peculiaridades, ambas são cidades que oferecem ótimas condições de vida e muito espaço para os que a elas se integram, dispostos a contribuir para seu progresso. A opção é individual!

quinta-feira, 26 de abril de 2018

TEMPORADA INGLÓRIA


Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 26.04.2018

            A começar pelo Dia da Mentira, abril reúne várias datas comemorativas. Entre outras, o Dia do Hino Nacional Brasileiro (13) e o Dia do Descobrimento do Brasil (22), ambas bastante desgastadas, praticamente ignoradas pelos brasileiros. A quase totalidade das demais não tem alcance nacional, e abrange apenas festejos localizados.  Feriado, mesmo, só no dia 21, quando em Brasília celebra-se o aniversário da cidade, e em todo o país homenagens são prestadas a Tiradentes.
            Este ano, entretanto, o quarto mês do ano incorporou outros episódios marcantes.
O primeiro deles foi a prisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no último dia 07, por condenação penal, coisa inédita na história do país.           
             No passado, outros ex-chefes de estado brasileiros também foram parar na cadeia. Dessa relação fazem parte Hermes da Fonseca, Washington Luis, Artur Bernardes e Juscelino Kubitschek. Nenhum deles, entretanto, foi preso por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.
            Após permanecer dois dias entrincheirado na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, o líder petista finalmente se entregou à Polícia Federal, para cumprir prisão decretada pelo juiz federal Sérgio Moro. 
O homem que se dizia intocável e imbatível capitulou, e está hoje recolhido a uma cela, como qualquer delinquente. Pouco importa se lá permanecerá pelo tempo a que foi condenado. Importa que sua prisão  quebrou a espinha dorsal da quadrilha que, por mais de uma década, dilapidou os cofres públicos, certa de que jamais seria punida. Isso deixou com as barbas de molho outros criminosos do colarinho branco, que adquiriram consciência de sua vulnerabilidade perante a Lei.
Na sequência, 17/04, o Supremo Tribunal Federal consagrou outra data digna de registro, acatando denúncia corrupção e obstrução da justiça contra o senador Aécio Neves (PSDB). Desde então, o tucano responderá ao processo penal na qualidade de réu, lhe assegurado o direito a rebater a acusação com novas provas. Sua culpa ou inocência só será decidida ao término da ação, em julgamento a cargo da Primeira Turma do STF, a mesma que o indiciou.
No geral, a situação de Aécio, antes tranquila e confortável, tornou-se extremamente complicada. O neto de Tancredo Neves parece haver entrado num inferno astral sem retorno, para o qual arrastou seu prestigio pessoal, o conceito familiar e as aspirações políticas não apenas dele, mas daqueles que antes o apoiavam, inclusive o PSDB.
Não menos importante no curso deste mês foi a decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que, em 24/04, rejeitou recurso apresentado por Eduardo Azeredo (PSDB), mantendo sua condenação a mais de 20 anos de prisão. O ex-governador mineiro será punido pelos crimes de peculato e lavagem de dinheiro, no esquema que se popularizou como “mensalão mineiro”.
Os tratamentos dispensados a Aécio Neves e Eduardo Azeredo, ambos do PSDB, têm o mérito de acabar com a história de que só os petistas são perseguidos e punidos pela Justiça.
De tudo isso, resta lamentar que as novas datas destacadas no calendário de abril envolvam fatos lastimáveis e figuras que até há pouco tempo gozavam da irrestrita confiança popular, a ponto de exercerem importantes cargos públicos, inclusive a presidência da República. Hoje, despidos de seus poderes, e expostas suas condutas indecorosas, apenas contribuem para ampliar o descrédito do povo em relação à política e aos políticos de agora. Que venha logo a Copa do Mundo!

sexta-feira, 13 de abril de 2018

LARGADA PARA AS URNAS

Por Etelmar Loureiro

                Se já não era límpido, o horizonte político-eleitoral se tornou bem mais nebuloso, com a prisão de Lula e a possibilidade de ele não participar do próximo pleito.
            Bem verdade que a saga judicial do ex-presidente ainda pode render muitos capítulos. Seus habilidosos e competentes advogados se utilizam de todos os recursos para livrá-lo das grades. Esperam contar até mesmo com a decisiva ajuda do Supremo Tribunal Federal, onde não faltam ministros interessados em acabar com as prisões de condenados em segunda instância.
Mas o Partido dos Trabalhadores garante que, de uma forma ou de outra, seu maior líder estará no páreo. Nas palavras do vice-presidente da legenda, Alexandre Padilha, não será o PT que vai retirar Lula das eleições. “A lei estabelece que em agosto são registradas as candidaturas. O nome de Lula estará lá. Vamos seguir a lei, e caberá ao TSE avaliar esse registro. Lula continuará a ser nosso candidato, preso ou não”.
Por sua vez, a senadora Gleisi Hoffmann, presidente da sigla, não se cansa de repetir que "o PT não tem plano “B”. Lula é e será nosso candidato. O candidato do povo brasileiro”. Falta dizer, entretanto, que o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, a deputada estadual Manuela D’Ávila (PCdoB) e o líder do MTST, Guilherme Boulos, são mantidos no banco de reservas, em aquecimento.
            Nas outras raias da competição, entre certos e incertos, se acumulam mais de 20 nomes.  O mais cotado tem sido Jair Bolsonaro (PSL), segundo colocado nas pesquisas de intenção de voto.  Os demais podem até surpreender, mas ainda não merecem destaque.
            A grande dúvida gira em torno da participação de Michel Temer, que muitos acreditam já ter decidido pela candidatura, mas se finge de morto, para ver quem vem ao enterro. Certo é que ele precisa se reeleger, ou, quando nada, fazer um sucessor que, de alguma forma, lhe assegure mais quatro anos de foro privilegiado.  Tarefa difícil para um campeão de impopularidade.
            Também em Minas Gerais muitos se apresentam como pré-candidatos ao governo do Estado. Até agora, as preferências giram em torno de Fernando Pimentel (PT), Rodrigo Pacheco (DEM), Dinis Pinheiro (PP) e Márcio Lacerda (PSB), não necessariamente nessa ordem. O senador Antonio Anastasia acaba de entrar no páreo, graças a muita pressão do PSDB e de políticos que o apoiam. Sua presença certamente implicará substanciais mudanças no ranking eleitoral.
            Nos últimos dias, o que mais agitou o cenário político mineiro foi a intenção de Dilma Rousseff concorrer ao Senado, por Minas. A decisão foi recebida com grande entusiasmo pelas lideranças petistas estaduais, e tem a bênção de Lula. No lado oposto, o deputado federal mineiro Marcelo Aro (PHS-MG) disse que o fato “é melancólico”.  Segundo ele, “espertos, os gaúchos não quiseram se associar ao que restou do PT. Ela (Dilma) foi descartada pelos próprios companheiros do partido no Rio Grande do Sul. É deprimente e assustador que o PT mineiro tenha achado que nosso Estado é lugar de receber esse fardo”.
            A corrida eleitoral está no seu início. Até o momento, tem sido mínimo o entusiasmo popular em relação ao pleito. A reversão desse quadro dependerá de que os candidatos demonstrem caráter, credibilidade e disposição para não repetir os erros e dolos cometidos pelos políticos atuais. Só assim o eleitor se sentirá motivado a mostrar nas urnas qual é “o Brasil que eu quero”. Sem necessitar de “selfie”!

- Diário do Rio Doce - 12.04.2018

quinta-feira, 29 de março de 2018

DOIS MARCOS VALADARENSES

Por Etelmar Loureiro

            Muitos são os fatores que contribuem para sedimentar o prestígio de uma cidade, e assim projetá-la além de suas fronteiras.  Podem ser pontos paisagísticos, turísticos, aspectos climáticos, estilos de vida, práticas esportivas, monumentos, edificações, hospitais, escolas e outras particularidades atraentes.
            A Torre Eiffel é um sinônimo de Paris, da mesma forma que a Estátua da Liberdade representa Nova York e o Coliseu identifica Roma. O Cristo Redentor simboliza o Rio de Janeiro, tanto quanto o Monumento às Bandeiras lembra São Paulo. A situação não é diferente em Minas Gerais, onde os colégios Arnaldo, Loyola e Santo Agostinho são representativos de Belo Horizonte, tal qual o Mineirão. No interior do estado, a cidade de Viçosa se notabilizou por abrigar a célebre Universidade Federal que leva seu nome.
            O poder de influência dessas atrações se consolida com o passar dos anos, à medida que suas características e resultados vão adquirindo maior visibilidade. Quanto mais antiga a cidade, maior é o seu acervo de marcos dessa natureza.
            Embora relativamente jovem, Governador Valadares já consegue ser distinguida por alguns dotes intrínsecos. O maior deles é, sem dúvida, a Ibituruna, essa imensa pedra negra internacionalmente conhecida, não apenas por sua beleza, mas por ter conquistado para a cidade a fama de Capital Mundial do Voo Livre. A localidade também se distingue pelo clima quente, pela beleza do Rio Doce, pela excelência dos serviços profissionais que oferece, pelo seu comércio ativo e diversificado, afora uma hospitalidade que a todos cativa.
            A também chamada capital do Vale do Rio Doce já consegue agregar às suas características a condição de grande e importante centro educacional. Possui inúmeras e boas escolas, de todos os níveis, duas das quais estão contabilizando, neste ano, várias décadas de primorosos serviços prestados.    
            Fundado em 1938, ano em que a cidade conquistava sua emancipação política, o Ginásio Ibituruna, veio suprir uma enorme carência das famílias locais, cujos filhos, para estudar, precisavam deslocar-se para outros centros. Os irmãos Wenceslau e Ladislau Salles foram seus criadores.  O hoje Colégio Ibituruna chega aos 80 anos de atividade, gozando de excelente conceito. .
            Outra celebração está por conta da Faculdade de Direito Vale do Rio Doce (Fadivale), que alcança meio século de existência. Entre seus fundadores e os primeiros professores, se combinam figuras notáveis, assim como o Coronel Altino Machado d’Oliveira, o promotor de Justiça Edgard Fontes de Rezende, os juízes de Direito Fulgêncio Pimenta Figueiredo e Joaquim Assis Martins Costa, o jurista Siva Monteiro de Castro, além do então prefeito Hermírio Gomes da Silva, todos de saudosa memória. Esbanjando saúde e vitalidade, permanecem ativos os advogados Alcyr Nascimento, atual diretor da instituição, e Ary Constante Soares, no seu escritório particular.
            Pelos bancos de ambas as instituições, passaram inúmeras gerações de estudantes que, agora profissionais, fazem sucesso no Brasil e mundo afora.
            Tornar-se referência de uma cidade não se consegue apenas graças à estampa e à magnitude dos que galgam essa condição. É proeza que também requer alto nível de competência, qualidade e seriedade no que se faz. O Colégio Ibituruna e a Fadivale preenchem com louvor tais requisitos. Ambos merecem o reconhecimento, o aplauso e a gratidão não apenas dos valadarenses, mas de todos os que se beneficiaram e dos que agora usufruem de seus ensinamentos.

- Diário do Rio Doce

quinta-feira, 15 de março de 2018

EM DEFESA DAS ARMAS DE DEFESA


Por Etelmar Loureiro
           
Imaginemos uma família, de férias, hospedada numa casa de campo, em área mais retirada. Certa noite, todos dormindo, a mulher acorda, com um barulho vindo da varanda dos fundos. Levanta-se, olha por uma fresta da janela, e identifica dois indivíduos, tentando abrir a porta de entrada. Na residência estão o casal e duas filhas menores. Assustada, ela cuidadosamente desperta o marido, e relata o que viu. Ele logo se levanta, confirma os fatos, coça a cabeça, e começa a pensar em como agir. Sabe que o risco é grande, iminente, e exige atitude rápida. Ligar para o 190 não resolveria; na redondeza inexiste Polícia Militar. O vizinho mais próximo não tem telefone. Gritar seria inútil; ninguém ouviria. Aflita e desorientada, a mulher sugere que ele pegue o revólver e dê uns tiros para o alto, na tentativa de expulsar os assaltantes. É quando se dão conta de que não mais possuem armas em casa; tê-las é proibido. E agora, José?!
            Essa é apenas uma das muitas contingências que têm provocado a reprovação do Estatuto do Desarmamento, sancionado pelo então presidente Lula, em 2003.
            No clima de insegurança e violência urbanas reinante no país, haja vista o que acontece no Rio de Janeiro, a grande maioria dos brasileiros tem se manifestado favorável a que seja facilitado o acesso às armas de fogo.
            Sob análise no Congresso Nacional existem vários projetos de lei, nesse sentido.  O que mais se aproxima de decisão pertence ao deputado Rogério Peninha Mendonça (PMDB-SC). Propondo flexibilizar as regras em vigor, entre outras mudanças, ele garante a todos os cidadãos o direito de possuir arma de fogo, sem precisar comprovar a necessidade de uso, sob as condições legais. Há previsão de que a matéria seja brevemente colocada em pauta, durante a votação de uma agenda prioritária na área de segurança pública, prometida pelo presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ).
            Em 2005, os brasileiros foram chamados a opinar sobre a manutenção ou suspensão do comércio de armas. Quase 64% dos votantes optaram pela primeira hipótese. Derrotado nas urnas, o governo federal impôs uma legislação tão complexa, que praticamente inviabilizou a aquisição de uma arma, pelo cidadão comum.
            Se a intenção era reduzir a criminalidade e poupar vidas, o tiro saiu pela culatra. As estatísticas mostram que, desde então, a quantidade de homicídios aumentou em cerca de 20%, ultrapassando a marca de 60 mil assassinatos anuais.
            Nesse contexto, o cidadão de bem vem lutando por igualdade de direitos, ou seja, os de possuir e usar, em defesa própria, de sua família e de sua propriedade, armas semelhantes às que os bandidos utilizam para ferir ou matar.
            Nas mãos de um delinquente, de um doente mental, de alguém acometido de súbito transtorno físico ou emocional, um revólver pode de fato tornar-se utensílio arrasador.  De qualquer forma, é melhor tê-lo e não precisar usar, do que precisar usar e não tê-lo.
Também é bom lembrar que, entre outros, carros e cigarros são artigos igualmente mortais. Nem por isso já se cogitou proibir que fossem fabricados, comercializados e utilizados. A ganância tributária talvez explique isso.  
            Há um consenso de que “armas não matam pessoas; pessoas matam pessoas”. Consagrou-se, também, que “a legítima defesa é um direito do ser humano, e não um favor do Estado”.
            A essa altura, vem a calhar a reflexão de Thomas Jefferson, segundo a qual “as leis que proíbem o porte de armas desarmam apenas aqueles não são inclinados nem determinados a cometer crimes”. Que isso repercuta na consciência dos nossos legisladores!

- Diário do Rio Doce - 15.03.2018
                 

quinta-feira, 1 de março de 2018

INTERVENÇÃO POR TEMPO CERTO

Por Etelmar Loureiro

            Entre aplausos e apupos, está em vigor a intervenção federal no Rio de Janeiro.
            A implementação da medida tem sido alvo de diferentes julgamentos. Um dos mais polêmicos insinua que ela teria sido a saída honrosa imaginada pelo governo, para sepultar uma controversa reforma da Previdência que, já se sabia, não seria aprovada pela Câmara. Outra visão é a de que, acalentando o sonho de fazer seu sucessor, ou até mesmo de “suceder a si próprio”, Michel Temer teria desistido da austera agenda reformista, com a qual se dizia comprometido, em favor de ações mais populares, capazes de render votos a ele e ao seu partido. Nesse particular, teria sido convencido de que uma iniciativa rotulada de combate à criminalidade poderia surtir bom resultado.
            Conjeturas à parte, essa intervenção traz consequências que, se não invalidam a sua conveniência, tornam, quando nada, discutível a sua oportunidade. A pior de todas é paralisar o trâmite de mais de 1.100 propostas de emenda à Constituição, que se encontram no Congresso Nacional.
Só no Senado, estão perto de 550 PECs, algumas prontas para serem incluídas na ordem do dia, para votação no Plenário.  Entre essas, por irônica coincidência, a que proíbe o contingenciamento de recursos destinados ao Fundo de Segurança Pública, que já estava na pauta do último dia 20.
Nesse rol, também figuram a proposição que atribui à União a responsabilidade pelo financiamento da educação básica pública; a que cria a possibilidade de apresentação de candidaturas a cargo eletivo sem a obrigatoriedade de filiação partidária — as chamadas candidaturas avulsas ou independentes; a que proíbe a cobrança de impostos sobre medicamentos de uso humano; e a que reduz o número de deputados federais de 513 para 386, e de senadores, de três para dois por unidade da federação, afora outras de grande importância.
Mais lamentável, entretanto, é a solução de continuidade imposta à PEC que restringe o “foro privilegiado”, instituto que atualmente favorece em torno de 55 mil autoridades brasileiras. Em meio a elas, o presidente da República e seu vice, governadores, ministros de estado e de tribunais superiores, senadores, deputados federais e estaduais, prefeitos, juízes, membros do Ministério público e mais “gente fina”. Com o trancamento imposto pela intervenção, resta a esperança de que uma rápida decisão venha do Supremo Tribunal Federal, onde o assunto é contemplado em processo que desde novembro está “sob vistas” do ministro Dias Toffoli
Ainda que bem intencionada, a intervenção na segurança pública do Rio implica efeitos colaterais sugestivos de que a medida também leva em conta uma boa dose de interesses políticos do governo e das forças dominantes.
Por outro lado, a opinião pública, leiga no assunto, não está conseguindo entender a fixação de prazo para combater um inimigo enraizado, astucioso, modernamente aparelhado, que não tem o menor compromisso com o cronograma oficial. O próprio comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, afirmou que o período de nove meses “é insuficiente para que se possa atingir com profundidade as causas que levaram a esse estado de coisas”. O mais provável é isso facilitar a vida do adversário, que, conhecendo o tempo da ação militar, poderá programar férias, fazer cursos de aperfeiçoamento, prestar serviços comunitários, simplesmente se refugiar, ou agir em outras paróquias, até a data estabelecida para o “bye bye” dos seus combatentes.
“Consummatum est”, resta torcer pelo êxito da operação, e para que seus resultados sejam medidos pelos avanços sociais alcançados, e não pela quantidade de cruzes erguidas ao longo da jornada.