segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

TUDO NOS TRINQUES

Por Etelmar Loureiro

              A cidade e a mulher possuem algumas características comuns. Ambas têm seus encantos, seus dilemas e suas crises. Gostam de bom tratamento, de dedicação e carinho, de se sentir belas e sedutoras, de conquistar espaços e de atrair parceiros de qualidade, sobretudo os dispostos a gastar e investir.
Apostam nos filhos, e, gratificadas, ficam orgulhosas das vitórias por eles conquistadas. Fazem projetos auspiciosos e acalentam sonhos de crescimento. Têm um coração pulsante, alimentado pela confiança no futuro.
         O célebre Moraes Moreira, em uma de suas aplaudidas composições, reconheceu que “a mulher e a cidade / representam para mim / amor e liberdade. / A cidade é uma moça / também não tem idade. / É o espírito, a força da mocidade”. 
          Parecidas em muitos aspectos, uma e outra se distanciam no modo de refletir a ação do tempo.
          Despercebido enquanto ela é jovem, o amadurecimento acaba se tornando algoz da mulher. Faz encolher suas energias, inibe-lhe o ânimo, modifica sua beleza externa, antes de tirá-la de cena. Roteiro próprio dos viventes.
            Para a cidade, ao contrário, o passar dos anos costuma ter efeito remoçante e inovador. Abre novos horizontes, induz crescimento, progresso, consagra usos e costumes, ou revela outras vocações. Para o bem ou para o mal, em algum sentido a cidade vai em frente; dificilmente retrocede. 
            Quem há muitos anos acompanha a evolução de Governador Valadares percebe o quanto o aumento da idade lhe tem sido saudável e benéfico. Resultados positivos são inegáveis.
           Desde a emancipação política, em 30/01/1938, sua história registra constantes avanços, de maior ou menor intensidade. Transformou-se no polo econômico regional, com larga influência sobre o leste e o nordeste mineiros, alcançando algumas áreas do Espírito Santo.
Mesmo sem céu de brigadeiro, sempre há teto e coragem para voar.
A cidade vem acumulando importantes conquistas; a Universidade Federal foi uma delas. A inclusão do município na área de atuação da Sudene, se afinal consumada, poderá representar outro grande passo rumo ao desenvolvimento. O Hospital Regional, em fase de construção, contribuirá para consolidar a excelência dos recursos médicos locais. Enquanto isso, o comércio, a construção civil e outros ramos da atividade privada se juntam às ações institucionais, para sustentar bons índices econômicos. E não seria absurdo apostar em dias melhores, assim que se tornarem realidade a modernização do Aeroporto Coronel Altino Machado e a duplicação da BR-381. Isso sem falar na sempre sonhada e muitas vezes prometida extensão de um gasoduto até Valadares.
A localização estratégica, o perfil geográfico, a tranquilidade político-social, a boa estrutura urbana, a estabilidade econômica e a visão empreendedora de suas lideranças são qualidades que explicam esse cenário.
Como toda cidade e toda mulher, Valadares requer manutenção periódica. Um retoque na maquiagem, um “reaperto” no esqueleto, um check-up, uma limpeza de pele, uma tintura de cabelos são imprescindíveis, saudáveis e fazem parte da rotina e da vaidade. 
           A eterna "Princesa do Vale" acaba de chegar aos 80 anos, sem demonstrar necessidade de uma grande recauchutagem. Nada de silicones, lipoaspirações ou bariátrica; “tá tudo nos trinques”! Quando muito, um “peeling”, ou um botox, aqui ou acolá.
            Sob uma administração municipal dedicada e merecedora de confiança, que recriou expectativas em torno de um futuro mais promissor, a cidade vive momentos de indisfarçável otimismo. 
        Bonita e cativante, apenas lhe faltam mais pretendentes de visão, que tenham dote, disposição e seriedade para investir no seu potencial.
Dispensados, com certeza, os príncipes encantados que proporcionam uma maravilhosa noite de Cinderela, seguida de frustrante vida de Gata Borralheira. De “malas”, oportunistas e enganadores, Valadares já se cansou.

- Diário do Rio Doce - 01.02.2018
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CULPAS DIVIDIDAS

Por Etelmar Loureiro
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            Certos temas são maçantes, desagradáveis, indesejáveis, mas inevitáveis. Recorrentes por natureza, estão sempre na ordem do dia, “esquentando” todos os noticiários. É o caso dos acidentes de trânsito.
Em maior ou menor dimensão, eles acontecem diariamente. Entretanto, é nas épocas festivas, presumidamente mais alegres, que as tragédias se multiplicam, desmanchando prazeres e enlutando famílias e comunidades. A explicação estaria no fato de serem períodos que envolvem muitas mobilizações e longas caminhadas, em busca de entretenimento e confraternizações.
            Durante a recente temporada de Natal e réveillon, aconteceram nas estradas federais perto de 2,4 mil acidentes, com cerca de 440 mortos e mais de 2.300 feridos. O balanço apresentado pela Polícia Rodoviária Federal mostra que as ocorrências diminuíram, em comparação com o ano anterior. Ainda assim, são números assombrosos e inaceitáveis, superiores aos contabilizados em muitos casos de epidemias, tragédias ambientais e conflitos armados. Não merecem celebração.
            Dividindo espaço com aqueles festejos, existem as férias, que neste ano se prolongarão até pelo menos meados de fevereiro, após o término do Carnaval.
            A corrida à procura de repouso e prazer aumenta a circulação nas estradas e eleva a reunião de pessoas nas praias, nas estâncias hidrominerais e em outros pontos turísticos. É quando o bicho costuma pegar, pra valer.
          O fluxo de veículos cresce consideravelmente, e as pistas são tomadas por motoristas que dirigem muito bem nas ruas e avenidas urbanas, mas são inexperientes nas rodovias. As consequências costumam ser diabólicas.
Some-se a isso o maior consumo de bebidas alcoólicas e outras drogas, além de imprudências ao volante, ingredientes perfeitos para finais melancólicos.
As autoridades procuram ser criteriosas na análise desse cenário, apontando com precisão as causas das tragédias. Chegam a discriminar o percentual de cada uma. De modo geral, elas se dividem entre ultrapassagens irregulares (campeãs absolutas), excesso de velocidade e direção após o consumo de álcool.
Não se vê, entretanto, qualquer estatística oficial dando conta do percentual de acidentes causados pelas estradas obsoletas, esburacadas, mal sinalizadas, sem adequada fiscalização e congestionadas por uma frota de veículos que cresce descontroladamente, afora outras deficiências que cabe ao poder público sanar. Na quase totalidade dos desastres, a culpa recai sobre um determinado motorista, acusado de excesso de velocidade, ultrapassagem em local proibido, embriaguez ao volante e outras loucuras.
Sem intenção de defender os infratores motorizados, é tempo de compartilhar responsabilidades. Não é possível que as autoridades responsáveis pela boa qualidade das estradas, independentemente dos cargos que ocupem, permaneçam isentas das punições aplicáveis aos cidadãos comuns, quando elas não fazem a sua parte. Em tais circunstâncias, tanto quanto os demais infratores das leis, esses agentes públicos são criminosos que merecem ser duramente punidos, por omissão, negligência, indiferença e desrespeito à vida.
A estação do lazer está em curso. O Carnaval bate às portas. Viagens de ida e vinda estarão ocorrendo a todo o momento, chova ou faça sol. 
           Tudo faz crer que o “salve-se quem puder” continuará sendo a lei maior.
 Fatalidades são incontroláveis, mas há formas de tentar evitá-las, ou de,  quando nada, minimizar suas consequências. Uma delas é conscientizar-se de que o risco existe, e não é pequeno. Fuja dele; o ganho será seu!

- Diário do Rio Doce - 18.01.2018




quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

INTERMINÁVEL FIM DE ANO

Por Etelmar Loureiro

            Terminados os agitos do Natal e do “réveillon”, o desafio passa a ser acomodar na agenda tudo o que está programado para o “restinho” de 2018.
            De cara, Governador Valadares estará às voltas com o aniversário da cidade, 30/01. Cairá numa terça-feira, com toda pinta de ser o primeiro feriadão do ano.
            Até 13 de fevereiro, não tem pra ninguém; Momo já reina absoluto. O espírito carnavalesco que habita a alma do povo brasileiro se sobrepõe a qualquer outro chamamento.  Nada consegue desviar a concentração dos foliões, exceto – claro! – a fatura do cartão de crédito, engordada pelas compras de fim de ano, e os gastos com IPTU, IPVA, matrículas e materiais escolares, inevitáveis nesta época.
            Quando o pessoal começar a se recompor da refrega carnavalesca, virá a Semana Santa, nova pausa para descanso de pelo menos três dias. Chance de outra esticada às áreas de lazer, em busca de bronzeado e forças para enfrentar o feriadão que virá logo a seguir. Para a “tristeza” geral, o Dia do Trabalhador, 01/05, também será uma terça-feira, e, como de praxe, deverá ser engordado pelos três dias que o antecederão.
Os que perderem essa “boca” não precisarão ficar tristes. O “Corpus Christi” virá no final de junho, e, pra variar, será celebrado numa quinta-feira, com certeza de “espichamento”.
Bafejado pela sorte, o valadarense terá, ainda, de lambuja, numa plena quarta-feira, o feriado de 13/06, dedicado a Santo Antônio, o seu padroeiro.
             A essa altura, o Brasil já estará vestido de verde e amarelo. Todas as antenas estarão voltadas para a Rússia, onde, em 14.06, se iniciará a Copa do Mundo, envolvendo jogos quase todos imperdíveis. Nos 30 dias seguintes, ninguém pensará noutra coisa, senão em futebol.
            Além de incluir partidas do Mundial, julho é época de férias escolares, que sempre acarretam mais viagens e outras induções ao relax.
            Quando setembro vier, haja coração!  Afora as festividades alusivas à Semana da Pátria – e o 07/09 será uma sexta-feira!!! –, o brasileiro estará convivendo com a reta final da campanha política.
            As eleições para presidente, governadores, senadores, deputados federais, estaduais e distritais (estes só em Brasília) acontecerão no início de outubro (07), e tudo leva a crer que a disputa será ferrenha.
            Se necessário, o segundo turno está previsto para 28/10, na base do salve-se quem puder. Será “briga de cachorro grande”.
            Num piscar de olhos, novembro e dezembro estarão de volta. Abre-se nova temporada de luzes coloridas, vitrines, ruas e árvores iluminadas, Papai Noel, “jingle Bells”, perus, leitoas, frutas de época, panetones, champanhes e show de Roberto Carlos. Tudo na base do “vale a pena ver (e consumir) de novo”.
            Nesse ponto, quem até então nada fez, dificilmente fará alguma coisa; “Inês estará morta”! Outra folhinha irá para a lixeira, sem direito a prorrogação.
            O calendário oficial deste ano contempla 14 datas comemorativas, entre feriados nacionais e pontos facultativos.
            Muitos consideram essa quantidade excessiva, responsabilizando-a por prejuízos econômicos. Entretanto, em comparação com Estados Unidos, Canadá, França e outros grandes países, a análise não se sustenta. Quanto a isso, estamos bem próximos deles, que nada reclamam.
            O detalhe é que, em várias dessas nações, os feriados móveis são transferidos para segunda ou sexta-feira, como forma de evitar os “enforcamentos”. O Brasil quer fazer o mesmo, mas depende da aprovação de projeto de lei que tramita no Congresso Nacional.
            Até então, o 1º de janeiro continuará sendo apenas o começo de um novo epílogo.
Melhor para os que se mantêm no “clima”, e só descansam nos finais do ano. Curtem eterna malandragem!


- Diário do Rio Doce – 04.01.2018I

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

A UM PASSO DA MANJEDOURA

Por Etelmar Loureiro
            É inegável que, ao longo do tempo, o Natal vem se mostrando uma festa cada vez mais mercantilista, mais consumista e menos reflexiva.
Ficou de tal modo condicionada à troca de presentes e a tantos símbolos, que muitos pensam estar celebrando o aniversário de Papai Noel, não o nascer do Menino Jesus. Nessa onda, as tradições se perdem, desfazendo sonhos e fantasias.
Saudosa época em que carrinhos de madeira, bonecas de pano e outros brinquedos simples, às vezes produzidos por pais, avós ou tios, faziam a felicidade da garotada. Quando a ceia natalina, realizada quase só em família, era antecedida de uma prece de agradecimento. Tempo místico, no qual os sentimentos de solidariedade emergiam em toda a sua grandeza, como se quisessem pôr fim às desigualdades sociais, bem mais visíveis no período natalino.
Da forma como a modernidade avança, não será surpresa se, em futuro próximo, o bom velhinho pendurar seu tradicional uniforme vermelho, aposentar o velho trenó, liberar as já extenuadas renas e aparecer com um look de herói intergaláctico, distribuindo só presentes eletrônicos, em uma sofisticada nave espacial.
Ainda assim, o Natal continua sendo a mais emblemática e carismática das celebrações. Nas diversas partes do mundo, mobiliza pessoas de todas as idades, das mais humildes às mais sofisticadas. É fenômeno universal, sempre aguardado com ansiedade.
O clima de manjedoura se faz sentir logo no começo de outubro, com o surgimento dos primeiros anúncios comerciais, os primeiros “jingles” natalinos, e age como um vendaval que se fortalece enquanto avança de forma incontrolável, levando todos de roldão.
Quando menos se espera, o “christmas time” entra em cena, poderoso, sedutor e envolvente.
  Para milhões deadmiradores, abre-se a temporada de esperanças, de sonhos e ideais. Chega o tempo de agradecer a Deus, estender as mãos, pedir desculpas (hei, você aí, é consigo mesmo que estou falando!), perdoar, chorar ou sorrir, sem contrariar o coração. É tempo de amor, compreensão, tolerância, humildade e solidariedade. É tempo de família, de amigos e de abraços. É tempo de ser gente!
A rigor, o Natal é um dia como qualquer outro. A diferença é que ele oferece ao ser humano a chance de se render ao “me engana que eu gosto”. De acreditar, pelo menos uma vez por ano, que não há injustiças, não há violência, não há corrupção, não há fome, não há abandono, não há sofrimentos, nem angústias, nem desamor. Só felicidade e nada mais!
Sempre ouvi dizer que o melhor da festa esperar por ela. Acabei convencido disso. Chega a ser excitante a expectativa de um acontecimento que provoque ansiedade. Nisso o Natal é insuperável. Aguardá-lo, entretanto, requer tolerância, paciência e até preparo físico. São quase três meses de confraternizações, troca de presentes, amigos ocultos, cartinhas para Papai Noel, mobilizações e viagens em busca da companhia querida. Na reta de chegada as tensões se agigantam. A movimentação nas ruas, lojas, shoppings, aeroportos, rodoviárias, ferroviárias, bares e restaurantes atinge seu ponto máximo. Cada qual na sua, a hora é de presentear, festejar, brindar, abraçar e beijar. Tudo faz parte desse incrível espetáculo da vida.

A grande noite bate às portas; será do próximo domingo para segunda. Quem não curtiu a atual temporada ainda tem até lá para entrar no clima. Depois … só no ano que vem. Que sua expectativa seja correspondida, com um feliz Natal!

- Diário do Rio Doce - 21.12.2017

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

TRIBUTO À CORRUPÇÃO

Por Etelmar Loureiro

            Se houvesse no Brasil um concurso destinado a eleger a atividade criminosa que mais se destacasse durante o ano, a corrupção teria conquistado todos os troféus distribuídos nas 14 últimas edições.  Para dar chance ao tráfico de drogas, ao contrabando, à exploração sexual, à violência urbana, à compra e venda de votos, ou a qualquer outra prática ilícita, ela teria que participar do certame na condição de “hors concours”.
            Vale lembrar que, em 2016, um estudo divulgado pelo Fórum Econômico Mundial, na Suíça, apontou o Brasil como a quarta nação mais corrupta do planeta, atrás apenas do Chade, da Bolívia e da Venezuela.
            Inúmeras teorias tentam explicar esse fenômeno delituoso. Fala-se em complacência das leis; morosidade da Justiça; excesso de partidos, de ministérios, de estatais e de outros órgãos públicos; cumplicidade entre os poderes constituídos, afora outros, com justificada ênfase para a ganância e a desonestidade dos agentes públicos e privados mancomunados no processo.
            A corrupção não é causa, mas consequência dos erros e abusos cometidos no país. Difícil é diagnosticar todos eles. Alguns, porém, saltam aos olhos. As medidas provisórias (MPs) editadas pelo governo estão nesse rol.
            Desenterrada no último período revolucionário, a MP foi mantida na Constituição de 1988, para ser adotada pelo Executivo nos casos em que urgência e relevância se completem. Desde então, entretanto, ela se tornou um instrumento utilizado a bel-prazer, por todos os presidentes que sobrevieram ao regime militar. E, segundo a operaçujão Lava Jato, várias MPs teriam sido criminosamente elaboradas, ou alteradas, quando convertidas em lei, por pressão de empresas, mediante o pagamento de vultosas propinas. Nem por isso se cogita o seu fim.
            Outro grande responsável por essa depravação é o controvertido foro privilegiado. No Brasil, ele contempla cerca de 55.000 autoridades, quantidade da qual nenhum país se aproxima. O Congresso e a Justiça fingem querer extinguir, ou pelo menos limitar essa regalia, mas tudo caminha na base de “um passo à frente, outro atrás”.  Na forma como aqui se sustenta, esse foro não passa de refúgio para requintados criminosos, que nele se escondem até que a tormenta passe, ou que o seu delito prescreva.
            Houve no STF uma recente tentativa de concluir o julgamento em que se discute a restrição do foro privilegiado concedido a autoridades.
A questão começou a ser debatida em maio deste ano, quando o julgamento foi sobrestado, por pedido de vista do ministro Alexandre de Moraes. Agora, quando oito dos 11 ministros já haviam votado a favor da proposta, a discussão foi novamente interrompida, por outro pedido de vista, dessa feita formulado pelo ministro Dias Toffoli, que não tem prazo para devolver o processo. Diante de um placar tão majoritário, a inusitada decisão “pegou mal”, considerada claramente protelatória. Aliás, não só no STF, mas em outros tribunais, muitos pedidos de vista têm o único objetivo de obstruir importantes decisões do plenário.  Há casos que estão há mais de uma década à espera de definição, alguns deles com carga para ministros que nem mais estão na ativa.
Conclui-se, pois, que, se depender da pronta adoção de medidas saneadoras e corretivas, por conta dos detentores do poder, o Brasil terá que esperar muito, para se livrar dos males que corroem suas entranhas. Sempre que se quer eliminar falhas, reprimir falcatruas ou punir delinquentes graúdos, a má vontade, a prepotência e o corporativismo se sobrepõem à Justiça e ao anseio popular. Paira no ar a impressão de que, para os poderosos, mais convém premiar do que punir os atos de corrupção. Que eu esteja enganado!

- Revista "Mais Mais PERFIL" - dez/2017

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

CALÇADAS ESQUECIDAS

Por Etelmar Loureiro

            Nas cidades civilizadas, as calçadas são mais do que simples vias por onde transitam pedestres. São também locais de convivência, em que as pessoas se veem, trocam cumprimentos e até se detêm em longas conversas.  Elas fazem parte da vida do cidadão, ligando-o aos serviços de que se utiliza e aos lugares que frequenta. Costumam ser, ainda, atrações turísticas, como a “Calçada da Fama”, em Hollywood (USA), ou as mundialmente admiradas calçadas portuguesas, no Brasil tão bem representadas pelo calçadão da Praia de Copacabana.
Com o trânsito cada vez mais caótico, ao que se soma a precariedade do transporte público, caminhar transformou-se em boa alternativa para os deslocamentos pessoais. Conforme o último levantamento do Ibope (2015), cerca de 22% das locomoções cotidianas são realizadas a pé. Não só por ser uma opção saudável, que permite interagir com a cidade e seus moradores, mas devido ao elevado custo do transporte público. São necessárias, pois, calçadas adequadas, em quantidade e qualidade capazes de atender a crianças, jovens, adultos, idosos e deficientes físicos.
Entretanto, nos dias atuais, essa prática passou a ser uma prova de obstáculos para os que a ela se dedicam. Os desafios vão da péssima condição dos passeios públicos, cheios de buracos, desníveis, degraus, alagamentos e outras deficiências, até a sua ocupação por bancas de revistas, camelôs, cavaletes publicitários, filas de bancos, financeiras e casas lotéricas, entulhos, mesas de bares e outras parafernálias. Sem falar nos incômodos pedintes, malandros e drogados que se agrupam em certos pontos das passarelas, constrangendo os transeuntes.
Defensores desse espaço essencial para garantir a mobilidade urbana, os pernambucanos Francisco Cunha (consultor de empresas) e Luiz Helvécio (engenheiro) escreveram o livro “Calçada: o primeiro degrau da cidadania urbana”. Na obra, com rubustos argumentos, eles advogam a ideia de que o desrespeito à calçada é também um desrespeito ao direito de ir e vir, comum a todo cidadão.
Na opinião de Cunha, “sem podermos trafegar por calçadas seguras, desobstruídas e regulares, estamos impedidos – ou não podemos fazê-lo dignamente –, de chegar ao trabalho, à residência, à escola e até mesmo ao transporte público. Ficamos isolados, ou gravemente restringidos por carros invasores, barracas, lixo, esgotos estourados e inúmeros outros abusos que atormentam a vida do cidadão pedestre”.
A importância de preservar e construir calçadas cresce na proporção direta do vertiginoso aumento da frota de veículos, esse fenômeno que a todos vem causando sérias preocupações. Com as ruas tomadas por automóveis, caminhões, motos e bicicletas, o pedestre se sente cada vez mais confinado nos passeios públicos.
O problema é nacional, com ênfase nas localidades onde as prefeituras são mais omissas e as comunidades menos zelosas dos próprios interesses.
Nesse contexto, Valadares, comparada a outras localidades do mesmo porte, deixa muito a desejar. De modo geral, suas calçadas se encontram em estado lastimável. A necessidade de revitalizá-las há muito caiu no esquecimento do Poder Público e de grande parte dos proprietários de imóveis. Que o digam os que preferem andar nos quarteirões próximos às suas residências, os idosos, os deficientes físicos, sobretudo os cadeirantes, os pais que gostariam de transportar seus filhos em carrinhos de bebê, e tantos mais.
Os especialistas em mobilidade urbana asseguram que a qualidade das calçadas é o melhor indicador de desenvolvimento humano, além de funcionar como um sensor para medir o nível de civilidade de um povo. Sem discordância!

- Diário do Rio Doce - 07.12.2017

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A HORA DA MEGA

Por Etelmar Loureiro
           
            Decepcionado e desiludido com o que acontece no cenário político nacional, e sentindo-se impotente diante da triste realidade, o brasileiro, resolveu “entregar pra Deus”.  Seu foco, pelo menos no momento, está voltado para coisas mais amenas, tipo viagens, futebol, cinema, teatro, telenovelas, resenhas botequeiras, passeios em shoppings, e por aí vai.
            Ainda agora, indiferente a mais um jogo de “toma lá, da cá” entre o governo e seus aliados, desta vez envolvendo a polêmica reforma da Previdência, o povo curte outro lance. As atenções da galera se concentram em mais uma edição da tradicional Black Friday, programada para amanhã. Nas lojas físicas ou virtuais, uma avalanche de compradores estará correndo atrás de móveis, eletrodomésticos, equipamentos eletrônicos, roupas, alimentos, bebidas e tudo o mais que alimenta o espírito consumista dos humanos.
A Black Friday, como se sabe, é uma expressão inglesa, reservada à última sexta-feira de novembro, logo após o Dia de Ação de Graças (Thanksgiving Day), que, nos Estados Unidos, é um dos mais importantes feriados. É a data em que o comércio americano promove uma megaliquidação de estoques, com enormes descontos, dando início às vendas de Natal.
A ideia conquistou o mundo. No Brasil, embora o Dia de Ação de Graças não seja muito difundido, o mercado pegou carona na liturgia americana, e a Black Friday segue a mesma agenda. A primeira edição brasileira do evento aconteceu no dia 28 de novembro de 2010, e foi totalmente online. A partir de então, bem aceita pelos consumidores, a iniciativa adquiriu forças e incorporou-se definitivamente ao nosso calendário comercial.
Habilidoso, criativo e como sempre esperto, o brasileiro identificou na Black Friday a oportunidade de alavancar não só a comercialização de produtos de prateleiras, mas também de outros itens e serviços que não figuram entre os convencionais. Nos meios de comunicação, eles estão sendo ofertados à exaustão, sem qualquer constrangimento.
Nutricionistas oferecem planos de tratamento pelos quais a cliente paga para emagrecer dois, mas perde três quilos.
Em um site especializado, garotas de programa se anunciam na base do contrate uma e leve duas, ou do pague cabelo, barba e bigode, e ganhe a costeleta.
Na Justiça, criminosos propõem fazer delações premiadas, com 50% de abatimento, enquanto alguns juízes admitem dobrar a redução das penas desses delatores.
O vigário de uma pequena paróquia, ao Sul do Norte piauiense, também garante diminuir à metade a penitência dos que se confessarem durante o evento.
Mas é na política que a Black Friday promete bombar. Fala-se, inclusive, que as negociações se iniciaram na noite de ontem, no jantar que o presidente ofereceu a seus aliados, na tentativa de persuadi-los a aprovar as mudanças na Previdência, ainda neste ano.  Ali, segundo fontes fidedignas, o “toma lá, dá cá” correu solto. Havia partidos oferecendo apoio, com desconto de 20, 30 e até 50%, outros dando três deputados, por uma diretoria de estatal, ou dois senadores, por um ministério; coisa de doido!
Na internet rolam também comentários bem humorados. Um deles, afirma que “o brasileiro se sente preparado para a Black Friday; só falta achar produtos com 100% de desconto”.  Outro pondera que “Black Friday sem dinheiro é igual pular carnaval com a esposa: nada além de observar as oportunidades passarem”.
Brincadeiras à parte, o negócio é esperar até amanhã, pra conferir se, de fato, a promoção não incorre na já conhecida “black fraude”. O segredo é, antes de “passar o cartão”, ficar atento, para não embarcar em promessas enganosas, tampouco comprar um produto pela “metade do dobro”.
A friday pode ser black, mas que a sua sexta-feira não seja negra!

- Diário do Rio Doce- 23.11.2017