quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

INTERMINÁVEL FIM DE ANO

Por Etelmar Loureiro

            Terminados os agitos do Natal e do “réveillon”, o desafio passa a ser acomodar na agenda tudo o que está programado para o “restinho” de 2018.
            De cara, Governador Valadares estará às voltas com o aniversário da cidade, 30/01. Cairá numa terça-feira, com toda pinta de ser o primeiro feriadão do ano.
            Até 13 de fevereiro, não tem pra ninguém; Momo já reina absoluto. O espírito carnavalesco que habita a alma do povo brasileiro se sobrepõe a qualquer outro chamamento.  Nada consegue desviar a concentração dos foliões, exceto – claro! – a fatura do cartão de crédito, engordada pelas compras de fim de ano, e os gastos com IPTU, IPVA, matrículas e materiais escolares, inevitáveis nesta época.
            Quando o pessoal começar a se recompor da refrega carnavalesca, virá a Semana Santa, nova pausa para descanso de pelo menos três dias. Chance de outra esticada às áreas de lazer, em busca de bronzeado e forças para enfrentar o feriadão que virá logo a seguir. Para a “tristeza” geral, o Dia do Trabalhador, 01/05, também será uma terça-feira, e, como de praxe, deverá ser engordado pelos três dias que o antecederão.
Os que perderem essa “boca” não precisarão ficar tristes. O “Corpus Christi” virá no final de junho, e, pra variar, será celebrado numa quinta-feira, com certeza de “espichamento”.
Bafejado pela sorte, o valadarense terá, ainda, de lambuja, numa plena quarta-feira, o feriado de 13/06, dedicado a Santo Antônio, o seu padroeiro.
             A essa altura, o Brasil já estará vestido de verde e amarelo. Todas as antenas estarão voltadas para a Rússia, onde, em 14.06, se iniciará a Copa do Mundo, envolvendo jogos quase todos imperdíveis. Nos 30 dias seguintes, ninguém pensará noutra coisa, senão em futebol.
            Além de incluir partidas do Mundial, julho é época de férias escolares, que sempre acarretam mais viagens e outras induções ao relax.
            Quando setembro vier, haja coração!  Afora as festividades alusivas à Semana da Pátria – e o 07/09 será uma sexta-feira!!! –, o brasileiro estará convivendo com a reta final da campanha política.
            As eleições para presidente, governadores, senadores, deputados federais, estaduais e distritais (estes só em Brasília) acontecerão no início de outubro (07), e tudo leva a crer que a disputa será ferrenha.
            Se necessário, o segundo turno está previsto para 28/10, na base do salve-se quem puder. Será “briga de cachorro grande”.
            Num piscar de olhos, novembro e dezembro estarão de volta. Abre-se nova temporada de luzes coloridas, vitrines, ruas e árvores iluminadas, Papai Noel, “jingle Bells”, perus, leitoas, frutas de época, panetones, champanhes e show de Roberto Carlos. Tudo na base do “vale a pena ver (e consumir) de novo”.
            Nesse ponto, quem até então nada fez, dificilmente fará alguma coisa; “Inês estará morta”! Outra folhinha irá para a lixeira, sem direito a prorrogação.
            O calendário oficial deste ano contempla 14 datas comemorativas, entre feriados nacionais e pontos facultativos.
            Muitos consideram essa quantidade excessiva, responsabilizando-a por prejuízos econômicos. Entretanto, em comparação com Estados Unidos, Canadá, França e outros grandes países, a análise não se sustenta. Quanto a isso, estamos bem próximos deles, que nada reclamam.
            O detalhe é que, em várias dessas nações, os feriados móveis são transferidos para segunda ou sexta-feira, como forma de evitar os “enforcamentos”. O Brasil quer fazer o mesmo, mas depende da aprovação de projeto de lei que tramita no Congresso Nacional.
            Até então, o 1º de janeiro continuará sendo apenas o começo de um novo epílogo.
Melhor para os que se mantêm no “clima”, e só descansam nos finais do ano. Curtem eterna malandragem!


- Diário do Rio Doce – 04.01.2018I

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

A UM PASSO DA MANJEDOURA

Por Etelmar Loureiro
            É inegável que, ao longo do tempo, o Natal vem se mostrando uma festa cada vez mais mercantilista, mais consumista e menos reflexiva.
Ficou de tal modo condicionada à troca de presentes e a tantos símbolos, que muitos pensam estar celebrando o aniversário de Papai Noel, não o nascer do Menino Jesus. Nessa onda, as tradições se perdem, desfazendo sonhos e fantasias.
Saudosa época em que carrinhos de madeira, bonecas de pano e outros brinquedos simples, às vezes produzidos por pais, avós ou tios, faziam a felicidade da garotada. Quando a ceia natalina, realizada quase só em família, era antecedida de uma prece de agradecimento. Tempo místico, no qual os sentimentos de solidariedade emergiam em toda a sua grandeza, como se quisessem pôr fim às desigualdades sociais, bem mais visíveis no período natalino.
Da forma como a modernidade avança, não será surpresa se, em futuro próximo, o bom velhinho pendurar seu tradicional uniforme vermelho, aposentar o velho trenó, liberar as já extenuadas renas e aparecer com um look de herói intergaláctico, distribuindo só presentes eletrônicos, em uma sofisticada nave espacial.
Ainda assim, o Natal continua sendo a mais emblemática e carismática das celebrações. Nas diversas partes do mundo, mobiliza pessoas de todas as idades, das mais humildes às mais sofisticadas. É fenômeno universal, sempre aguardado com ansiedade.
O clima de manjedoura se faz sentir logo no começo de outubro, com o surgimento dos primeiros anúncios comerciais, os primeiros “jingles” natalinos, e age como um vendaval que se fortalece enquanto avança de forma incontrolável, levando todos de roldão.
Quando menos se espera, o “christmas time” entra em cena, poderoso, sedutor e envolvente.
  Para milhões deadmiradores, abre-se a temporada de esperanças, de sonhos e ideais. Chega o tempo de agradecer a Deus, estender as mãos, pedir desculpas (hei, você aí, é consigo mesmo que estou falando!), perdoar, chorar ou sorrir, sem contrariar o coração. É tempo de amor, compreensão, tolerância, humildade e solidariedade. É tempo de família, de amigos e de abraços. É tempo de ser gente!
A rigor, o Natal é um dia como qualquer outro. A diferença é que ele oferece ao ser humano a chance de se render ao “me engana que eu gosto”. De acreditar, pelo menos uma vez por ano, que não há injustiças, não há violência, não há corrupção, não há fome, não há abandono, não há sofrimentos, nem angústias, nem desamor. Só felicidade e nada mais!
Sempre ouvi dizer que o melhor da festa esperar por ela. Acabei convencido disso. Chega a ser excitante a expectativa de um acontecimento que provoque ansiedade. Nisso o Natal é insuperável. Aguardá-lo, entretanto, requer tolerância, paciência e até preparo físico. São quase três meses de confraternizações, troca de presentes, amigos ocultos, cartinhas para Papai Noel, mobilizações e viagens em busca da companhia querida. Na reta de chegada as tensões se agigantam. A movimentação nas ruas, lojas, shoppings, aeroportos, rodoviárias, ferroviárias, bares e restaurantes atinge seu ponto máximo. Cada qual na sua, a hora é de presentear, festejar, brindar, abraçar e beijar. Tudo faz parte desse incrível espetáculo da vida.

A grande noite bate às portas; será do próximo domingo para segunda. Quem não curtiu a atual temporada ainda tem até lá para entrar no clima. Depois … só no ano que vem. Que sua expectativa seja correspondida, com um feliz Natal!

- Diário do Rio Doce - 21.12.2017

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

TRIBUTO À CORRUPÇÃO

Por Etelmar Loureiro

            Se houvesse no Brasil um concurso destinado a eleger a atividade criminosa que mais se destacasse durante o ano, a corrupção teria conquistado todos os troféus distribuídos nas 14 últimas edições.  Para dar chance ao tráfico de drogas, ao contrabando, à exploração sexual, à violência urbana, à compra e venda de votos, ou a qualquer outra prática ilícita, ela teria que participar do certame na condição de “hors concours”.
            Vale lembrar que, em 2016, um estudo divulgado pelo Fórum Econômico Mundial, na Suíça, apontou o Brasil como a quarta nação mais corrupta do planeta, atrás apenas do Chade, da Bolívia e da Venezuela.
            Inúmeras teorias tentam explicar esse fenômeno delituoso. Fala-se em complacência das leis; morosidade da Justiça; excesso de partidos, de ministérios, de estatais e de outros órgãos públicos; cumplicidade entre os poderes constituídos, afora outros, com justificada ênfase para a ganância e a desonestidade dos agentes públicos e privados mancomunados no processo.
            A corrupção não é causa, mas consequência dos erros e abusos cometidos no país. Difícil é diagnosticar todos eles. Alguns, porém, saltam aos olhos. As medidas provisórias (MPs) editadas pelo governo estão nesse rol.
            Desenterrada no último período revolucionário, a MP foi mantida na Constituição de 1988, para ser adotada pelo Executivo nos casos em que urgência e relevância se completem. Desde então, entretanto, ela se tornou um instrumento utilizado a bel-prazer, por todos os presidentes que sobrevieram ao regime militar. E, segundo a operaçujão Lava Jato, várias MPs teriam sido criminosamente elaboradas, ou alteradas, quando convertidas em lei, por pressão de empresas, mediante o pagamento de vultosas propinas. Nem por isso se cogita o seu fim.
            Outro grande responsável por essa depravação é o controvertido foro privilegiado. No Brasil, ele contempla cerca de 55.000 autoridades, quantidade da qual nenhum país se aproxima. O Congresso e a Justiça fingem querer extinguir, ou pelo menos limitar essa regalia, mas tudo caminha na base de “um passo à frente, outro atrás”.  Na forma como aqui se sustenta, esse foro não passa de refúgio para requintados criminosos, que nele se escondem até que a tormenta passe, ou que o seu delito prescreva.
            Houve no STF uma recente tentativa de concluir o julgamento em que se discute a restrição do foro privilegiado concedido a autoridades.
A questão começou a ser debatida em maio deste ano, quando o julgamento foi sobrestado, por pedido de vista do ministro Alexandre de Moraes. Agora, quando oito dos 11 ministros já haviam votado a favor da proposta, a discussão foi novamente interrompida, por outro pedido de vista, dessa feita formulado pelo ministro Dias Toffoli, que não tem prazo para devolver o processo. Diante de um placar tão majoritário, a inusitada decisão “pegou mal”, considerada claramente protelatória. Aliás, não só no STF, mas em outros tribunais, muitos pedidos de vista têm o único objetivo de obstruir importantes decisões do plenário.  Há casos que estão há mais de uma década à espera de definição, alguns deles com carga para ministros que nem mais estão na ativa.
Conclui-se, pois, que, se depender da pronta adoção de medidas saneadoras e corretivas, por conta dos detentores do poder, o Brasil terá que esperar muito, para se livrar dos males que corroem suas entranhas. Sempre que se quer eliminar falhas, reprimir falcatruas ou punir delinquentes graúdos, a má vontade, a prepotência e o corporativismo se sobrepõem à Justiça e ao anseio popular. Paira no ar a impressão de que, para os poderosos, mais convém premiar do que punir os atos de corrupção. Que eu esteja enganado!

- Revista "Mais Mais PERFIL" - dez/2017

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

CALÇADAS ESQUECIDAS

Por Etelmar Loureiro

            Nas cidades civilizadas, as calçadas são mais do que simples vias por onde transitam pedestres. São também locais de convivência, em que as pessoas se veem, trocam cumprimentos e até se detêm em longas conversas.  Elas fazem parte da vida do cidadão, ligando-o aos serviços de que se utiliza e aos lugares que frequenta. Costumam ser, ainda, atrações turísticas, como a “Calçada da Fama”, em Hollywood (USA), ou as mundialmente admiradas calçadas portuguesas, no Brasil tão bem representadas pelo calçadão da Praia de Copacabana.
Com o trânsito cada vez mais caótico, ao que se soma a precariedade do transporte público, caminhar transformou-se em boa alternativa para os deslocamentos pessoais. Conforme o último levantamento do Ibope (2015), cerca de 22% das locomoções cotidianas são realizadas a pé. Não só por ser uma opção saudável, que permite interagir com a cidade e seus moradores, mas devido ao elevado custo do transporte público. São necessárias, pois, calçadas adequadas, em quantidade e qualidade capazes de atender a crianças, jovens, adultos, idosos e deficientes físicos.
Entretanto, nos dias atuais, essa prática passou a ser uma prova de obstáculos para os que a ela se dedicam. Os desafios vão da péssima condição dos passeios públicos, cheios de buracos, desníveis, degraus, alagamentos e outras deficiências, até a sua ocupação por bancas de revistas, camelôs, cavaletes publicitários, filas de bancos, financeiras e casas lotéricas, entulhos, mesas de bares e outras parafernálias. Sem falar nos incômodos pedintes, malandros e drogados que se agrupam em certos pontos das passarelas, constrangendo os transeuntes.
Defensores desse espaço essencial para garantir a mobilidade urbana, os pernambucanos Francisco Cunha (consultor de empresas) e Luiz Helvécio (engenheiro) escreveram o livro “Calçada: o primeiro degrau da cidadania urbana”. Na obra, com rubustos argumentos, eles advogam a ideia de que o desrespeito à calçada é também um desrespeito ao direito de ir e vir, comum a todo cidadão.
Na opinião de Cunha, “sem podermos trafegar por calçadas seguras, desobstruídas e regulares, estamos impedidos – ou não podemos fazê-lo dignamente –, de chegar ao trabalho, à residência, à escola e até mesmo ao transporte público. Ficamos isolados, ou gravemente restringidos por carros invasores, barracas, lixo, esgotos estourados e inúmeros outros abusos que atormentam a vida do cidadão pedestre”.
A importância de preservar e construir calçadas cresce na proporção direta do vertiginoso aumento da frota de veículos, esse fenômeno que a todos vem causando sérias preocupações. Com as ruas tomadas por automóveis, caminhões, motos e bicicletas, o pedestre se sente cada vez mais confinado nos passeios públicos.
O problema é nacional, com ênfase nas localidades onde as prefeituras são mais omissas e as comunidades menos zelosas dos próprios interesses.
Nesse contexto, Valadares, comparada a outras localidades do mesmo porte, deixa muito a desejar. De modo geral, suas calçadas se encontram em estado lastimável. A necessidade de revitalizá-las há muito caiu no esquecimento do Poder Público e de grande parte dos proprietários de imóveis. Que o digam os que preferem andar nos quarteirões próximos às suas residências, os idosos, os deficientes físicos, sobretudo os cadeirantes, os pais que gostariam de transportar seus filhos em carrinhos de bebê, e tantos mais.
Os especialistas em mobilidade urbana asseguram que a qualidade das calçadas é o melhor indicador de desenvolvimento humano, além de funcionar como um sensor para medir o nível de civilidade de um povo. Sem discordância!

- Diário do Rio Doce - 07.12.2017

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A HORA DA MEGA

Por Etelmar Loureiro
           
            Decepcionado e desiludido com o que acontece no cenário político nacional, e sentindo-se impotente diante da triste realidade, o brasileiro, resolveu “entregar pra Deus”.  Seu foco, pelo menos no momento, está voltado para coisas mais amenas, tipo viagens, futebol, cinema, teatro, telenovelas, resenhas botequeiras, passeios em shoppings, e por aí vai.
            Ainda agora, indiferente a mais um jogo de “toma lá, da cá” entre o governo e seus aliados, desta vez envolvendo a polêmica reforma da Previdência, o povo curte outro lance. As atenções da galera se concentram em mais uma edição da tradicional Black Friday, programada para amanhã. Nas lojas físicas ou virtuais, uma avalanche de compradores estará correndo atrás de móveis, eletrodomésticos, equipamentos eletrônicos, roupas, alimentos, bebidas e tudo o mais que alimenta o espírito consumista dos humanos.
A Black Friday, como se sabe, é uma expressão inglesa, reservada à última sexta-feira de novembro, logo após o Dia de Ação de Graças (Thanksgiving Day), que, nos Estados Unidos, é um dos mais importantes feriados. É a data em que o comércio americano promove uma megaliquidação de estoques, com enormes descontos, dando início às vendas de Natal.
A ideia conquistou o mundo. No Brasil, embora o Dia de Ação de Graças não seja muito difundido, o mercado pegou carona na liturgia americana, e a Black Friday segue a mesma agenda. A primeira edição brasileira do evento aconteceu no dia 28 de novembro de 2010, e foi totalmente online. A partir de então, bem aceita pelos consumidores, a iniciativa adquiriu forças e incorporou-se definitivamente ao nosso calendário comercial.
Habilidoso, criativo e como sempre esperto, o brasileiro identificou na Black Friday a oportunidade de alavancar não só a comercialização de produtos de prateleiras, mas também de outros itens e serviços que não figuram entre os convencionais. Nos meios de comunicação, eles estão sendo ofertados à exaustão, sem qualquer constrangimento.
Nutricionistas oferecem planos de tratamento pelos quais a cliente paga para emagrecer dois, mas perde três quilos.
Em um site especializado, garotas de programa se anunciam na base do contrate uma e leve duas, ou do pague cabelo, barba e bigode, e ganhe a costeleta.
Na Justiça, criminosos propõem fazer delações premiadas, com 50% de abatimento, enquanto alguns juízes admitem dobrar a redução das penas desses delatores.
O vigário de uma pequena paróquia, ao Sul do Norte piauiense, também garante diminuir à metade a penitência dos que se confessarem durante o evento.
Mas é na política que a Black Friday promete bombar. Fala-se, inclusive, que as negociações se iniciaram na noite de ontem, no jantar que o presidente ofereceu a seus aliados, na tentativa de persuadi-los a aprovar as mudanças na Previdência, ainda neste ano.  Ali, segundo fontes fidedignas, o “toma lá, dá cá” correu solto. Havia partidos oferecendo apoio, com desconto de 20, 30 e até 50%, outros dando três deputados, por uma diretoria de estatal, ou dois senadores, por um ministério; coisa de doido!
Na internet rolam também comentários bem humorados. Um deles, afirma que “o brasileiro se sente preparado para a Black Friday; só falta achar produtos com 100% de desconto”.  Outro pondera que “Black Friday sem dinheiro é igual pular carnaval com a esposa: nada além de observar as oportunidades passarem”.
Brincadeiras à parte, o negócio é esperar até amanhã, pra conferir se, de fato, a promoção não incorre na já conhecida “black fraude”. O segredo é, antes de “passar o cartão”, ficar atento, para não embarcar em promessas enganosas, tampouco comprar um produto pela “metade do dobro”.
A friday pode ser black, mas que a sua sexta-feira não seja negra!

- Diário do Rio Doce- 23.11.2017

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

OS CONFLITOS DA REFORMA PREVIDENCIÁRIA

Por Etelmar Loureiro

Passadas as duas tormentas que ameaçavam sua continuidade, e mesmo consciente de que outras poderão surgir, o governo volta a investir na reforma da Previdência, a menina dos olhos do presidente Michel Temer e do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Nela têm sido concentrados todos os esforços oficiais, mas não está fácil vender o peixe.
            Como se não bastasse a resistência da opinião pública, o relatório final do senador Hélio José (Pros-DF) sobre os trabalhos da CPI da Previdência, unanimemente aprovado no último dia 25, foi uma verdadeira ducha de água fria no otimismo do governo.
O documento aponta erros na proposta do Executivo; propõe emendas à Constituição e projetos de lei; além de apontar um elenco de medidas a serem adotadas para o equilíbrio do sistema previdenciário brasileiro. Entre essas, o uso de mecanismos de combate às fraudes, maior rigor na cobrança dos grandes devedores e o fim do desvio de recursos para outros setores.
Assinala, ainda, inconsistência de dados oferecidos pelo governo, que "desenham um futuro aterrorizante e totalmente inverossímil”, com o objetivo de extinguir a Previdência pública, abrindo espaço para atuação das empresas privadas. Ainda segundo as conclusões da CPI, essas empresas devem à Previdência R$ 450 bilhões, dos quais apenas R$ 175 bilhões correspondem a débitos recuperáveis.
A discordância entre governo e a CPI chegou a ponto de Hélio José  querer incluir, em seu relatório, sugestão de indiciamento dos ministros Henrique Meirelles (Fazenda) e Eliseu Padilha (Casa Civil), por terem fornecido dados inconfiáveis, “mentirosos e falaciosos”, com o intuito de defender a necessidade da reforma da Previdência. Seus companheiros de trabalho conseguiram demovê-lo dessa ideia.
            Para o senador Telmário Mota (PTB-RR), membro da Comissão, “esta Casa levantou dados importantes, colhidos junto ao próprio governo, com meses de estudos e análises. A CPI mostrou que há fraude e há corrupção, e que a Previdência não é deficitária”. Por sugestão dele, uma cópia do relatório será entregue diretamente a Michel Temer. Outras vias serão destinadas a diversos órgãos da administração federal, para análise e providências cabíveis.
Pelo relatório final, que tem 253 páginas, a CPI, nos seus seis meses de funcionamento, apresentou a órgãos públicos dezenas de requerimentos de informações, promoveu 31 audiências públicas e ouviu mais de 140 pessoas, entre representantes de órgãos governamentais, sindicatos, associações, empresas, além de membros do Ministério Público e da Justiça do Trabalho, deputados, auditores, especialistas, professores e outros.
            O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, não hesitou em contestar esse exaustivo e dispendioso trabalho. Segundo ele, "a CPI emitiu uma opinião que não existe déficit. Mas ela não comprovou. Os números foram calculados de forma errada”. Disse, ainda, não ser “momento para demagogia, para enganos”.
Outras opiniões contrárias também foram emitidas por especialistas no assunto. Entre esses o procurador do Ministério Público junto ao TCU, Júlio Marcelo de Oliveira, aquele que apontou as “pedaladas” responsáveis pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Em extenso artigo publicado no site Consultor Jurídico, ele argumenta que a CPI da Previdência vende uma ilusão, ao afirmar que não há déficit. Não lhe faltaram fundamentadas contestações.
              Por sua vez, o trabalhador continua achando que a indigitada reforma previdenciária será mais um sacrifício exigido do povo. Sempre a pretexto de sanear as finanças de um país que cada vez mais se afunda em dívidas provocadas pela má gestão, pela incompetência, pela ganância e pela safadeza de seus homens públicos.

            É nesse clima polêmico que a matéria deverá ser submetida ao plenário da Câmara. Resta a pálida esperança de que, na ocasião, os parlamentares atuem com bom senso e independência, sem trocar o apreço pela dignidade pelo preço do voto.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

PORÕES DA HIPOCRISIA

Por Etelmar Loureiro

            Os temas polêmicos estão entre os mais utilizados pelos autores de livros, filmes, peças teatrais e novelas, para despertar maior interesse por suas obras.
            Nessa prática, a novelista global Glória Perez é campeã. Em suas histórias, não hesita em expor questões melindrosas, como barriga de aluguel, tráfico de mulheres, clonagem humana e sexualidade. E o faz com naturalidade e transparência, mas sempre deixando dúvida quanto à solução ideal para o problema, frente à ética e à moral. Ela mesma admite que sua contribuição para a dramaturgia foi promover a união entre a realidade e a ficção.
            No texto produzido para a telenovela A Força do Querer, Glória Perez colocou em discussão novos e palpitantes assuntos, com ênfase para o tráfico de drogas, a transexualidade e o vício em jogos de azar.
            Apesar dos invejáveis índices de audiência alcançados pelo folhetim global, a autora não se livrou de ser “malhada” por críticos mais conservadores. Entre outras choradeiras, uns a acusam de glamorizar o crime, transformando traficantes em heróis de favela, com resultados que induzem a acreditar que o crime compensa. Outros reclamam que ela faz apologia à mudança de sexo, o que causa problemas às famílias onde haja alguém com essa propensão. E a Globo mais uma vez se transformou na vilã da história.
            Nas décadas de 1940 a 1960, quando o cinema era considerado a principal diversão, os pais eram orientados a evitar que crianças e jovens assistissem a muitos policiais e faroestes. Acreditava-se que os enredos, a violência e o uso de armas mostrados nesses filmes poderiam repercutir na formação de seus filhos. Ledo engano! Nada disso se confirmou, pelo menos não na dimensão alardeada.
            Obras de ficção sofrem influência da vida real. Mesmo quando baseadas na verdade, prevalece a ressalva de que “qualquer semelhança com fatos ou pessoas vivas ou mortas é mera coincidência”. As rejeições a seu conteúdo quase sempre derivam de princípios morais, familiares ou religiosos. Mas podem ser fruto da desinformação, da resistência em conviver com a realidade, ou da conjugação de tudo isso.
            A violência, a criminalidade, o uso e o tráfico de drogas, o envolvimento com a jogatina, os dramas familiares e outras mazelas que causam transtornos e perplexidade sempre existiram, nas ruas e nos lares.  Os transgêneros e outros seguidores de diferentes tipos de orientação sexual aparecem com desenvoltura nos mais remotos registros históricos. Dizer que são estimulados pelas novelas da Globo é uma tremenda balela. Seria o mesmo que culpar o Jornal Nacional pela existência do mensalão, do petrolão e de tantas tramoias reiteradamente praticadas por políticos, agentes públicos e empresários que não se cansam de afrontar o povo brasileiro.
            Não se trata de defender essa ou aquela emissora de televisão, tampouco a sua programação. Também não há intenção de julgar aspectos éticos, morais ou científicos das questões, grupos e comportamentos sociais aqui mencionados. Partindo do entendimento próprio de que eles são realidade, o propósito é defender que sejam discutidos abertamente, sem falsos pudores, e não deixados sob os tapetes que enfeitam os porões da hipocrisia.
              Para o próprio bem, a sociedade deve conscientizar-se de que a vida está sujeita a um processo de evolução irrefreável, em que o espaço para dogmas, tabus e “caixas pretas” é cada vez mais escasso. Não há como ficar a reboque da realidade, presos a paradigmas que o próprio tempo tem se encarregado de romper. Concordando com Mahatma Gandhi, “temos que nos tornar a mudança que queremos ver”. Enquanto há chance!

- Revista "Mais Mais PERFIL" - edição de out/2017