quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

CALÇADAS ESQUECIDAS

Por Etelmar Loureiro

            Nas cidades civilizadas, as calçadas são mais do que simples vias por onde transitam pedestres. São também locais de convivência, em que as pessoas se veem, trocam cumprimentos e até se detêm em longas conversas.  Elas fazem parte da vida do cidadão, ligando-o aos serviços de que se utiliza e aos lugares que frequenta. Costumam ser, ainda, atrações turísticas, como a “Calçada da Fama”, em Hollywood (USA), ou as mundialmente admiradas calçadas portuguesas, no Brasil tão bem representadas pelo calçadão da Praia de Copacabana.
Com o trânsito cada vez mais caótico, ao que se soma a precariedade do transporte público, caminhar transformou-se em boa alternativa para os deslocamentos pessoais. Conforme o último levantamento do Ibope (2015), cerca de 22% das locomoções cotidianas são realizadas a pé. Não só por ser uma opção saudável, que permite interagir com a cidade e seus moradores, mas devido ao elevado custo do transporte público. São necessárias, pois, calçadas adequadas, em quantidade e qualidade capazes de atender a crianças, jovens, adultos, idosos e deficientes físicos.
Entretanto, nos dias atuais, essa prática passou a ser uma prova de obstáculos para os que a ela se dedicam. Os desafios vão da péssima condição dos passeios públicos, cheios de buracos, desníveis, degraus, alagamentos e outras deficiências, até a sua ocupação por bancas de revistas, camelôs, cavaletes publicitários, filas de bancos, financeiras e casas lotéricas, entulhos, mesas de bares e outras parafernálias. Sem falar nos incômodos pedintes, malandros e drogados que se agrupam em certos pontos das passarelas, constrangendo os transeuntes.
Defensores desse espaço essencial para garantir a mobilidade urbana, os pernambucanos Francisco Cunha (consultor de empresas) e Luiz Helvécio (engenheiro) escreveram o livro “Calçada: o primeiro degrau da cidadania urbana”. Na obra, com rubustos argumentos, eles advogam a ideia de que o desrespeito à calçada é também um desrespeito ao direito de ir e vir, comum a todo cidadão.
Na opinião de Cunha, “sem podermos trafegar por calçadas seguras, desobstruídas e regulares, estamos impedidos – ou não podemos fazê-lo dignamente –, de chegar ao trabalho, à residência, à escola e até mesmo ao transporte público. Ficamos isolados, ou gravemente restringidos por carros invasores, barracas, lixo, esgotos estourados e inúmeros outros abusos que atormentam a vida do cidadão pedestre”.
A importância de preservar e construir calçadas cresce na proporção direta do vertiginoso aumento da frota de veículos, esse fenômeno que a todos vem causando sérias preocupações. Com as ruas tomadas por automóveis, caminhões, motos e bicicletas, o pedestre se sente cada vez mais confinado nos passeios públicos.
O problema é nacional, com ênfase nas localidades onde as prefeituras são mais omissas e as comunidades menos zelosas dos próprios interesses.
Nesse contexto, Valadares, comparada a outras localidades do mesmo porte, deixa muito a desejar. De modo geral, suas calçadas se encontram em estado lastimável. A necessidade de revitalizá-las há muito caiu no esquecimento do Poder Público e de grande parte dos proprietários de imóveis. Que o digam os que preferem andar nos quarteirões próximos às suas residências, os idosos, os deficientes físicos, sobretudo os cadeirantes, os pais que gostariam de transportar seus filhos em carrinhos de bebê, e tantos mais.

Os especialistas em mobilidade urbana asseguram que a qualidade das calçadas é o melhor indicador de desenvolvimento humano, além de funcionar como um sensor para medir o nível de civilidade de um povo. Sem discordância!

- Diário do Rio Doce - 07.12.2017

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A HORA DA MEGA

Por Etelmar Loureiro
           
            Decepcionado e desiludido com o que acontece no cenário político nacional, e sentindo-se impotente diante da triste realidade, o brasileiro, resolveu “entregar pra Deus”.  Seu foco, pelo menos no momento, está voltado para coisas mais amenas, tipo viagens, futebol, cinema, teatro, telenovelas, resenhas botequeiras, passeios em shoppings, e por aí vai.
            Ainda agora, indiferente a mais um jogo de “toma lá, da cá” entre o governo e seus aliados, desta vez envolvendo a polêmica reforma da Previdência, o povo curte outro lance. As atenções da galera se concentram em mais uma edição da tradicional Black Friday, programada para amanhã. Nas lojas físicas ou virtuais, uma avalanche de compradores estará correndo atrás de móveis, eletrodomésticos, equipamentos eletrônicos, roupas, alimentos, bebidas e tudo o mais que alimenta o espírito consumista dos humanos.
A Black Friday, como se sabe, é uma expressão inglesa, reservada à última sexta-feira de novembro, logo após o Dia de Ação de Graças (Thanksgiving Day), que, nos Estados Unidos, é um dos mais importantes feriados. É a data em que o comércio americano promove uma megaliquidação de estoques, com enormes descontos, dando início às vendas de Natal.
A ideia conquistou o mundo. No Brasil, embora o Dia de Ação de Graças não seja muito difundido, o mercado pegou carona na liturgia americana, e a Black Friday segue a mesma agenda. A primeira edição brasileira do evento aconteceu no dia 28 de novembro de 2010, e foi totalmente online. A partir de então, bem aceita pelos consumidores, a iniciativa adquiriu forças e incorporou-se definitivamente ao nosso calendário comercial.
Habilidoso, criativo e como sempre esperto, o brasileiro identificou na Black Friday a oportunidade de alavancar não só a comercialização de produtos de prateleiras, mas também de outros itens e serviços que não figuram entre os convencionais. Nos meios de comunicação, eles estão sendo ofertados à exaustão, sem qualquer constrangimento.
Nutricionistas oferecem planos de tratamento pelos quais a cliente paga para emagrecer dois, mas perde três quilos.
Em um site especializado, garotas de programa se anunciam na base do contrate uma e leve duas, ou do pague cabelo, barba e bigode, e ganhe a costeleta.
Na Justiça, criminosos propõem fazer delações premiadas, com 50% de abatimento, enquanto alguns juízes admitem dobrar a redução das penas desses delatores.
O vigário de uma pequena paróquia, ao Sul do Norte piauiense, também garante diminuir à metade a penitência dos que se confessarem durante o evento.
Mas é na política que a Black Friday promete bombar. Fala-se, inclusive, que as negociações se iniciaram na noite de ontem, no jantar que o presidente ofereceu a seus aliados, na tentativa de persuadi-los a aprovar as mudanças na Previdência, ainda neste ano.  Ali, segundo fontes fidedignas, o “toma lá, dá cá” correu solto. Havia partidos oferecendo apoio, com desconto de 20, 30 e até 50%, outros dando três deputados, por uma diretoria de estatal, ou dois senadores, por um ministério; coisa de doido!
Na internet rolam também comentários bem humorados. Um deles, afirma que “o brasileiro se sente preparado para a Black Friday; só falta achar produtos com 100% de desconto”.  Outro pondera que “Black Friday sem dinheiro é igual pular carnaval com a esposa: nada além de observar as oportunidades passarem”.
Brincadeiras à parte, o negócio é esperar até amanhã, pra conferir se, de fato, a promoção não incorre na já conhecida “black fraude”. O segredo é, antes de “passar o cartão”, ficar atento, para não embarcar em promessas enganosas, tampouco comprar um produto pela “metade do dobro”.
A friday pode ser black, mas que a sua sexta-feira não seja negra!

- Diário do Rio Doce- 23.11.2017

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

OS CONFLITOS DA REFORMA PREVIDENCIÁRIA

Por Etelmar Loureiro

Passadas as duas tormentas que ameaçavam sua continuidade, e mesmo consciente de que outras poderão surgir, o governo volta a investir na reforma da Previdência, a menina dos olhos do presidente Michel Temer e do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Nela têm sido concentrados todos os esforços oficiais, mas não está fácil vender o peixe.
            Como se não bastasse a resistência da opinião pública, o relatório final do senador Hélio José (Pros-DF) sobre os trabalhos da CPI da Previdência, unanimemente aprovado no último dia 25, foi uma verdadeira ducha de água fria no otimismo do governo.
O documento aponta erros na proposta do Executivo; propõe emendas à Constituição e projetos de lei; além de apontar um elenco de medidas a serem adotadas para o equilíbrio do sistema previdenciário brasileiro. Entre essas, o uso de mecanismos de combate às fraudes, maior rigor na cobrança dos grandes devedores e o fim do desvio de recursos para outros setores.
Assinala, ainda, inconsistência de dados oferecidos pelo governo, que "desenham um futuro aterrorizante e totalmente inverossímil”, com o objetivo de extinguir a Previdência pública, abrindo espaço para atuação das empresas privadas. Ainda segundo as conclusões da CPI, essas empresas devem à Previdência R$ 450 bilhões, dos quais apenas R$ 175 bilhões correspondem a débitos recuperáveis.
A discordância entre governo e a CPI chegou a ponto de Hélio José  querer incluir, em seu relatório, sugestão de indiciamento dos ministros Henrique Meirelles (Fazenda) e Eliseu Padilha (Casa Civil), por terem fornecido dados inconfiáveis, “mentirosos e falaciosos”, com o intuito de defender a necessidade da reforma da Previdência. Seus companheiros de trabalho conseguiram demovê-lo dessa ideia.
            Para o senador Telmário Mota (PTB-RR), membro da Comissão, “esta Casa levantou dados importantes, colhidos junto ao próprio governo, com meses de estudos e análises. A CPI mostrou que há fraude e há corrupção, e que a Previdência não é deficitária”. Por sugestão dele, uma cópia do relatório será entregue diretamente a Michel Temer. Outras vias serão destinadas a diversos órgãos da administração federal, para análise e providências cabíveis.
Pelo relatório final, que tem 253 páginas, a CPI, nos seus seis meses de funcionamento, apresentou a órgãos públicos dezenas de requerimentos de informações, promoveu 31 audiências públicas e ouviu mais de 140 pessoas, entre representantes de órgãos governamentais, sindicatos, associações, empresas, além de membros do Ministério Público e da Justiça do Trabalho, deputados, auditores, especialistas, professores e outros.
            O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, não hesitou em contestar esse exaustivo e dispendioso trabalho. Segundo ele, "a CPI emitiu uma opinião que não existe déficit. Mas ela não comprovou. Os números foram calculados de forma errada”. Disse, ainda, não ser “momento para demagogia, para enganos”.
Outras opiniões contrárias também foram emitidas por especialistas no assunto. Entre esses o procurador do Ministério Público junto ao TCU, Júlio Marcelo de Oliveira, aquele que apontou as “pedaladas” responsáveis pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Em extenso artigo publicado no site Consultor Jurídico, ele argumenta que a CPI da Previdência vende uma ilusão, ao afirmar que não há déficit. Não lhe faltaram fundamentadas contestações.
              Por sua vez, o trabalhador continua achando que a indigitada reforma previdenciária será mais um sacrifício exigido do povo. Sempre a pretexto de sanear as finanças de um país que cada vez mais se afunda em dívidas provocadas pela má gestão, pela incompetência, pela ganância e pela safadeza de seus homens públicos.

            É nesse clima polêmico que a matéria deverá ser submetida ao plenário da Câmara. Resta a pálida esperança de que, na ocasião, os parlamentares atuem com bom senso e independência, sem trocar o apreço pela dignidade pelo preço do voto.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

PORÕES DA HIPOCRISIA

Por Etelmar Loureiro

            Os temas polêmicos estão entre os mais utilizados pelos autores de livros, filmes, peças teatrais e novelas, para despertar maior interesse por suas obras.
            Nessa prática, a novelista global Glória Perez é campeã. Em suas histórias, não hesita em expor questões melindrosas, como barriga de aluguel, tráfico de mulheres, clonagem humana e sexualidade. E o faz com naturalidade e transparência, mas sempre deixando dúvida quanto à solução ideal para o problema, frente à ética e à moral. Ela mesma admite que sua contribuição para a dramaturgia foi promover a união entre a realidade e a ficção.
            No texto produzido para a telenovela A Força do Querer, Glória Perez colocou em discussão novos e palpitantes assuntos, com ênfase para o tráfico de drogas, a transexualidade e o vício em jogos de azar.
            Apesar dos invejáveis índices de audiência alcançados pelo folhetim global, a autora não se livrou de ser “malhada” por críticos mais conservadores. Entre outras choradeiras, uns a acusam de glamorizar o crime, transformando traficantes em heróis de favela, com resultados que induzem a acreditar que o crime compensa. Outros reclamam que ela faz apologia à mudança de sexo, o que causa problemas às famílias onde haja alguém com essa propensão. E a Globo mais uma vez se transformou na vilã da história.
            Nas décadas de 1940 a 1960, quando o cinema era considerado a principal diversão, os pais eram orientados a evitar que crianças e jovens assistissem a muitos policiais e faroestes. Acreditava-se que os enredos, a violência e o uso de armas mostrados nesses filmes poderiam repercutir na formação de seus filhos. Ledo engano! Nada disso se confirmou, pelo menos não na dimensão alardeada.
            Obras de ficção sofrem influência da vida real. Mesmo quando baseadas na verdade, prevalece a ressalva de que “qualquer semelhança com fatos ou pessoas vivas ou mortas é mera coincidência”. As rejeições a seu conteúdo quase sempre derivam de princípios morais, familiares ou religiosos. Mas podem ser fruto da desinformação, da resistência em conviver com a realidade, ou da conjugação de tudo isso.
            A violência, a criminalidade, o uso e o tráfico de drogas, o envolvimento com a jogatina, os dramas familiares e outras mazelas que causam transtornos e perplexidade sempre existiram, nas ruas e nos lares.  Os transgêneros e outros seguidores de diferentes tipos de orientação sexual aparecem com desenvoltura nos mais remotos registros históricos. Dizer que são estimulados pelas novelas da Globo é uma tremenda balela. Seria o mesmo que culpar o Jornal Nacional pela existência do mensalão, do petrolão e de tantas tramoias reiteradamente praticadas por políticos, agentes públicos e empresários que não se cansam de afrontar o povo brasileiro.
            Não se trata de defender essa ou aquela emissora de televisão, tampouco a sua programação. Também não há intenção de julgar aspectos éticos, morais ou científicos das questões, grupos e comportamentos sociais aqui mencionados. Partindo do entendimento próprio de que eles são realidade, o propósito é defender que sejam discutidos abertamente, sem falsos pudores, e não deixados sob os tapetes que enfeitam os porões da hipocrisia.
              Para o próprio bem, a sociedade deve conscientizar-se de que a vida está sujeita a um processo de evolução irrefreável, em que o espaço para dogmas, tabus e “caixas pretas” é cada vez mais escasso. Não há como ficar a reboque da realidade, presos a paradigmas que o próprio tempo tem se encarregado de romper. Concordando com Mahatma Gandhi, “temos que nos tornar a mudança que queremos ver”. Enquanto há chance!

- Revista "Mais Mais PERFIL" - edição de out/2017

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

ADEUS, CHICO!

por Etelmar Loureiro

Em homenagem póstuma ao jornalista, escritor, profissional de turismo, empreendedor por excelência, exemplar chefe de família e grande amigo, Francisco Luiz Teixeira, que nos deixou no último dia 27, reproduzo o texto que honrosamente escrevi, para prefaciar o seu livro Miscelâneas do Chico (primeira edição - junho/2016):

            “Comunicador por excelência, ele está constantemente na mídia, criticando, comentando ou simplesmente noticiando algo de interesse popular. Mesmo quando censura, não descuida do bom humor, da fina ironia e da extrema sutileza que lhe garantem a fidelidade e a admiração de um apreciável grupo de leitores.
Na condição de cidadão e chefe de família, é pessoa simples, simpática, despida de vaidades, comunicativa e realizadora, muito bem aceita pela comunidade em que vive, da qual participa ativamente.
Assim é Francisco Luiz Teixeira, o araxaense popularmente conhecido como Chico Teixeira, que, ainda criança, deixou a terra de Dona Beja, em busca do crescimento. Foi tentar a vida em Goiânia e Belo Horizonte, antes de fincar raízes na mineira Governador Valadares, cidade onde se casou com Dinah Coelho Teixeira, é pai de sete filhos,  e se tornou um colecionador de sucessos.
O envolvimento de Chico Teixeira com a chamada capital do Vale do Rio Doce tem sido dos mais intensos. Desde 1950, quando chegou ao local, se fez presente nas mais diferentes áreas sociais, econômicas e políticas. Participou de entidades de classe e filantrópicas. Foi vereador, secretário da Administração Municipal e diretor da Associação Comercial.  Atuou em rádios e jornais, sendo fundador da Imparson, primeira agência de publicidade e gravadora, e do jornal Tribuna Fiel. No mundo dos negócios, criou a Altura Aliança Turismo S.A e idealizou o Ibituruna Serra Clube, duas molas propulsoras do desenvolvimento da Ibituruna, o maior ponto turístico de Governador Valadares. Atualmente, na condição de colaborador, escreve para Diário do Rio Doce, o principal matutino valadarense.
Antes de se graduar em Direito, integrando a primeira turma de formandos da Faculdade de Direito Vale do Rio Doce (Fadivale), Chico Teixeira diplomou-se como Técnico em Contabilidade, sua primeira função em Valadares. Não por acaso, tornou-se um exímio contador ... de casos e causos. Mas jornalismo e turismo foram sua dedicação preferida, mesmo sem nenhuma formação acadêmica nessas áreas.
Em “Miscelânea”, seu primeiro “best-seller”, ele reúne os melhores frutos de uma visão que transcende os fatos e se expressa na forma de importantes relatos, sutis analogias, ou anestésicas alfinetadas. Um conteúdo que pode provocar reflexões, risos ou encaixar carapuças.
Vale a pena conferir!”

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

EFEITO CATALUNHA

Por Etelmar Loureiro

            Focado no alheio, o brasileiro às vezes não se dá conta do que acontece em seu próprio território. Ainda agora, com as atenções voltadas para a Espanha, palco de nova queda de braço pela emancipação política da Catalunha, quase ninguém percebeu mais uma explícita demonstração de que sonhos separatistas são também acalentados no Brasil.
            No início deste mês (07), os moradores do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná foram outra vez consultados sobre se gostariam de se separar do restante do país. A sondagem, batizada de Plebisul, foi a segunda promovida pelo movimento “O Sul é Meu País”, que esperava recolher de 2 a 3 milhões de opiniões. Por diversas razões, inclusive má divulgação, houve apenas cerca de 365 mil votantes que, na sua quase totalidade (96,26%), responderam “sim”. O resultado ficou bem abaixo do contabilizado em 2016, quando o número de participantes beirou 620 mil. Ainda assim, os organizadores da pesquisa se disseram satisfeitos. Isso porque quem votou também subscreveu o Projeto de Lei de Iniciativa Popular (PLIP) que proporá a realização de um Plebiscito Consultivo Oficial, junto com as eleições de 2018, a respeito da emancipação do Sul. A meta era obter quantidade de assinaturas necessárias para impulsionar o projeto (1% dos 21,2 milhões de pessoas aptas a votar na última eleição), o que teria acontecido.
            Fundado em 1992, “O Sul é Meu País” é uma instituição legalmente estabelecida, que objetiva “viabilizar a emancipação política e administrativa dos três estados do Sul, de forma pacífica e democrática”.  Tem sede em Passo Fundo, e representações em vários municípios sulistas. Seus dirigentes se dizem conscientes de que as consultas promovidas pelo movimento são informais, sem qualquer valor legal. Também sabem que uma divisão do território brasileiro seria inadmissível, pois, segundo a Constituição nacional, o Brasil é uma “união indissolúvel” de seus Estados, Municípios e do Distrito Federal. O tema é uma cláusula pétrea, impossível de ser modificada.
            Pelos que não o apoiam, o movimento costuma ser apontado como vendedor de ilusões, patrono de utopias, ou apenas delirante. Seus muitos adeptos, entretanto, identificam nele o oxigênio que mantém viva a esperança de emancipação que, desde o século XVIII, está alojada na alma sulista. Um ideal que se fez presente na Guerra dos Farrapos (1835 a 1845), na Revolução Federalista (1893 a 1895) e em outros memoráveis episódios da história daquela região. O presidente do grupo, Celso Deucher, rebate as críticas dizendo que “pode ser um sonho; mas tem muita gente sonhando junto”.         
          Fértil, por natureza, a imaginação ignora fronteiras e ganha dimensões mais ousadas, quando centrada em independência e liberdade. E os que alimentam esse desejo sabem que a conquista é difícil. A “prima facie”, a autonomia não vem de mão beijada, de forma consentida, ou por acordo de cavalheiros entre governantes e governados. De modo geral, a disputa é árdua, dolorosa, desgastante, e nem sempre bem-sucedida. Requer habilidade, determinação, perseverança e muita paciência. Seriam essas as melhores armas para enfrentar os que naturalmente resistem em abrir mão de seus domínios.
            Em termos de apoio de massa, o movimento “O Sul é Meu Pais” não se equipara ao que ora acontece na Espanha. Está numa fase incipiente, sem envolver confrontos de qualquer natureza. Mas, se os catalães lograrem êxito em sua pretensão, não fica descartada a hipótese de o efeito Catalunha repercutir não só no Brasil, mas também em outros países americanos, onde as ideias separatistas são tão antigas quanto o seu surgimento. É esperar pra ver!

- Diário do Rio Doce

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

O DESARMAMENTO NO BANCO DOS RÉUS

Por Etelmar Loureiro

            Certos debates, alguns polêmicos e palpitantes, são episódicos. Abrem-se apenas diante das tragédias que os tiram do esquecimento. Parece até que só existem para iludir a opinião pública e tentar explicar o inexplicável. A matança recentemente acontecida em Las Vegas confirma essa tese. Um atirador solitário executou o maior ataque a tiros da história dos Estados Unidos. A ação rendeu 59 mortos, inclusive o seu responsável, que se matou em seguida, e mais de 500 feridos. Aconteceu durante um festival de música country, assistido por cerca de 22 mil pessoas. No local de onde foram feitos os disparos, a polícia encontrou um verdadeiro arsenal de armas e munições. O autor do massacre, Stephen Paddock, 64 anos, era um inveterado jogador de pôquer, que, segundo as investigações, se tratava à base de ansiolíticos.
            Além de provocar uma grande comoção nacional, o atentado reabriu o debate sobre o controle de armas nos EUA.  O mesmo tema que já provocou intensas e infrutíferas discussões, quando de anteriores tragédias do gênero, tão recorrentes naquele país. Mas não é fácil chegar a um consenso sobre o assunto. Pra começar, a posse de armas é um direito que a chamada segunda emenda à Constituição assegura a todos os estadunidenses. As pesquisas revelam que a maioria deles acredita ser mais importante resguardar do que limitar essa prerrogativa. Mostram também que mais da metade da população se sente mais protegida com um revólver em casa. Dois terços dos norte-americanos são contra o controle das armas. Há ainda o lado político da questão, já que o Republicano, partido do hoje presidente Donald Trump, tem sido majoritário na rejeição a qualquer medida tendente a mudar as regras atuais.
            Na consciência ianque – que nesse ponto não difere muito das demais –, parece que o problema não é preponderantemente o revólver, o fuzil ou a metralhadora, mas a mente criminosa do indivíduo que aciona o gatilho. Quem quer assassinar não depende só desses artefatos. O mundo dispõe de armas químicas, explosivos, veículos motorizados, homens-bombas, combustíveis e outros recursos igualmente letais. Basta lembrar o atropelamento em massa acontecido em Barcelona, em agosto passado, quando uma van, dirigida por um terrorista marroquino, foi lançada sobre centenas de pessoas, deixando vários mortos e feridos. Outro exemplo é a tragédia que acaba de ocorrer na cidade mineira de Janaúba, onde o vigilante noturno de uma creche, utilizando-se de gasolina, ateou fogo em si mesmo, em uma professora e em várias crianças, causando mais de uma dezena de mortes. Em ambos os casos, não houve uso de armas de fogo, sequer de uma cartucheira.
Verdade é que, se servem para tirar vidas, essas armas são também um válido e necessário instrumento de defesa. Em mãos equilibradas, elas contribuem para que os bandidos não se sintam tão à vontade para assaltar pessoas, residências, estabelecimentos comerciais, motoristas e passageiros, pois sabem que poderão ser confrontados à altura.
O modo como os norte-americanos encaram o problema pode ter seus pontos negativos. Afinal, dificilmente há algum estilo de conduta isento de falhas. Mas é inegável ele repercute em todo o mundo, especialmente em países como o Brasil, onde vigora um Estatuto do Desarmamento dos mais rigorosos, mesmo contra a vontade popular

Nos dias atuais, diante da violência urbana que tanto aflige as pessoas de bem, impõe-se, quando nada, uma reflexão sobre a necessidade de flexibilizar a legislação que trata do assunto. Não é possível assistir a um cenário onde os bandidos se mostram cada vez mais bem armados, enquanto a sociedade, sob a égide de leis fora de contexto, se sente cada vez mais oprimida. Se a vida é um direito fundamental, o Estado não pode impedir ela seja defendida.

- Diário do Rio Doce - 12.07.2017