domingo, 9 de julho de 2017

POR UM TRIZ

            Houve tempo em que o brasileiro depositava mais fé em dias melhores, em progresso e até em salvação da pátria. Época em que instituições sérias e gente de valor mantinham acesa a chama propulsora dessa crença. Mesmo nos momentos adversos, existia algo ou alguém em que se pudesse apegar. Os três poderes constituídos se valorizavam e se respeitavam mais. Caso um deles falhasse ou exorbitasse os limites em suas ações, era improvável o que o erro passasse pelo crivo dos demais. Uma decisão imperfeita do Legislativo, por exemplo, dificilmente seria aceita pelo Executivo, e vice-versa. Se o fosse, o Judiciário se incumbiria de colocar as coisas nos seus devidos lugares.
Fato é que os homens e as instituições de outrora agiam com mais discernimento, mais retidão, mais independência e, sobretudo, mais consciência de seus deveres.
            O triste cenário que agora vemos confirma essa metamorfose, que a cada dia se torna mais escancarada e cruel. Mergulhado numa corrupção sistêmica e congênita, o Brasil assiste à decadência de um modelo camuflado de democracia. E isso acontece sob o olhar perplexo e decepcionado de um povo que nele depositou esperanças de um presente tranquilo e um futuro feliz.
            Seduzidos pela ambição de poder e pelo amor ao dinheiro, muitos políticos, graduados agentes de governo e renomados empresários se envolveram num sórdido esquema criminoso. Tornaram-se bandidos de fraque.  Um processo vergonhoso, capaz de provocar inveja nas mais competentes e célebres organizações criminosas.
            Mesmo imune a decepções do gênero, a nação, a cada momento, se defronta com notícias bombásticas, dando conta de novos e inimagináveis delitos. O desapontamento, quando muito, se restringe à implicação de mais figurões que, até então, posavam de incorruptos, com ares de “acima de quaisquer suspeitas”.
            Na mira ou já nas garras da lei, estão deputados, senadores, empresários, ex-ministros, governantes e ex-governantes de todos os níveis, inclusive o atual e os dois últimos ocupantes da Presidência da República. Sinal de que, pelo menos em alguma instância, nossa justiça tem mostrado serviço.
            Talvez não houvesse explicação para tanta desesperança, se os poderes constituídos agissem com a lisura, a isenção e a autonomia que deles se espera. Mas não o fazem. Os conluios e as interferências recíprocas são recorrentes nas suas decisões, em que a troca de interesses tem sido o algoz da ética, do bom senso e da legalidade. Basta notar que o relacionamento entre Executivo e Legislativo é quase todo mantido à base do “é dando que se recebe”. Agir por ideologia, nem pensar.
O julgamento da chapa Dilma-Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral, com um resultado inteiramente contrário às evidências e aos anseios populares, mostrou que nem mesmo do Judiciário convém esperar grandes decisões corretivas. Ali ficou outra vez patente que os magistrados não podem – ou não devem – ser recomendados pelo chefe do Executivo, a bem da própria Justiça, pois isso compromete a credibilidade dos integrantes da Corte. Na ocasião, os indicados de Michel Temer foram decisivos para evitar que ele perdesse seu mandato. Mais pareciam advogados de defesa do que magistrados. Segundo os entendidos, isso está entre os fatores que influíram para que os acusados fossem absolvidos, por excesso de provas contra si.

           Coisa ruim é arquivar perspectivas e jogar a toalha, pressentindo não haver mais jeito. Quando a situação chega a esse ponto, costuma-se buscar alento na velha máxima que garante ser a esperança a última que morre. O detalhe é que a esperança brasileira está por um triz, já na UTI. Faz companhia à paciência e à tolerância, que também lá exalam seus últimos suspiros. Complicado, né?!

- Revista "Mais Mais PERFIL" - edição de junho/2017

terça-feira, 30 de maio de 2017

PEGOU MAL ...

Segundo o noticiário, a inusitada nomeação de Torquato Jardim para ministro da Justiça aconteceu pela sua fiel amizade com presidente Michel Temer, mas também em razão do bom trânsito que ele tem no Judiciário. Estando Temer prestes a ser julgado pelo Tribunal Superior Eleitoral, com risco de perder o mandato, essas justificativas, se procedentes, deixam os ministros daquela Casa em posição desconfortável. Dão margem à imaginação de que eles seriam sensíveis a pressões e influências externas. É esperar, pra ver!

- Exclusivo para o Blog

sábado, 13 de maio de 2017

NO DIA DAS MÃES, VALE A ALMA MATERNA

Por Etelmar Loureiro

Mãe, palavra mágica, de múltiplos significados. Sobre ser a regalia de dar à luz uma criança, mãe é sinônimo de tolerância, sabedoria, ensinamento, paciência, renúncia, sacrifício, desapego e tudo mais que signifique amor. Virtudes que também são próprias das pessoas que cultivam bons sentimentos. Entre essas, a mãe adotiva, a avó, a tia, a velha governanta, a babá, a professora, a médica, a enfermeira, a policial e tantas outras mulheres que, mesmo sem a experiência da concepção,  têm alma materna.  Sem esquecer os homens que, para seus filhos, são verdadeiras mães.

Um brinde, a todas e a todos que, de alguma forma, praticam o amor maternal. 

(exclusivo para o blog)

quinta-feira, 27 de abril de 2017

DÍVIDA MALÍGNA


Por Etelmar Loureiro

Apesar dos tênues sinais de recuperação que o governo tenta potencializar, o Brasil permanece sob os efeitos de uma inédita recessão econômica.
Na análise técnica, o fenômeno reflete um período de retração geral na atividade econômica, com queda nos níveis de produção e investimento, aumento do desemprego, diminuição na renda familiar, redução na taxa de lucro, elevação do número de falências e concordatas, avanço da capacidade ociosa e outros lamentáveis efeitos. Regra geral, uma economia entra em recessão após dois trimestres contínuos de queda no PIB. No caso brasileiro, esse indicador encolheu por dois anos consecutivos.  
Em maior ou menor escala, a crise tem afetado a indústria, o comércio, a prestação de serviços e todos os demais segmentos econômicos. Observadores mais argutos garantem que nem mesmo o jogo do bicho, o tráfico de drogas e o comércio do sexo foram poupados. Tá todo mundo “na pior”!
Para Henrique Meirelles, ministro da Fazenda, esse descalabro “é o resultado de uma série de políticas que levaram a economia brasileira a enfrentar a maior crise de sua história”. Diante desse panorama, ele admite haver indícios de que “será inevitável” mexer na carga tributária para cobrir o rombo orçamentário.
Essa infeliz insinuação de mais impostos provocou enérgicas reações contrárias, inclusive da Ordem dos Advogados do Brasil. Segundo Claudio Lamachia, presidente da entidade, a OAB está pronta para combater, com todos os meios disponíveis, “quaisquer iniciativas que tenham como objetivo impor mais prejuízos aos cidadãos, que não aguentam mais ver a renda corroída pela absurda carga tributária do país”.
Exausto de tanto ser explorado, o brasileiro vive buscando outras explicações e justificativas para esse desastroso estado de coisas.
            Atribui-se ao marqueteiro Nizan Guanaes a autoria da expressão “enquanto eles choram, eu vendo lenços”. Ela bem repercute a atual temporada, em que não faltam oportunistas aptos a tirar proveito da situação. Um exemplo são os bancos, que têm andado na contramão da realidade brasileira. Enquanto esse segmento está “bamburrando”, nossa economia se afunda, pressionada por falta de crescimento, empresas subumbindo ou trabalhando no vermelho, desemprego crescente e pessoas em dificuldade financeira. Pelos balanços relativos a 2016, os quatro maiores bancos brasileiros (Itaú, Bradesco, BB e Santander) lucraram, em conjunto, algo em torno de R$ 52 bilhões. Tá bom, ou quer mais?
            São muitas as razões para que esses formidáveis resultados aconteçam. Uma delas, pacificada entre os analistas, são os altissimos juros rendidos pela dívida pública, essa crescente bola de neve que consome enorme parcela do que o governo arrecada. Ou seja, o dinheiro do contribuinte está sendo usado para alimentar o lucro bilionário dos bancos.
            O peso dessa dívida e a caixa preta que a envolve têm sido objeto de questionamento, no instante em que se busca o equilíbrio das contas públicas, à custa de maiores sacrifícios do povo. A opinião geral é que, antes de mexer na aposentadoria e em outros direitos do cidadão, o governo tem a obrigação de enxugar sua escorchante dívida pública.

            Afinal  - diria o famoso Guanaes -, não há como admitir que os banqueiros continuem “vendendo lenços”, com lucros astronômicos, enquanto a sociedade, chorando enormes prejuízos, é condenada a pagar a conta. Mais do que injustiça, é muita sacanagem!

- Revista "Mais Mais PERFIL" de abril 2017

domingo, 1 de janeiro de 2017

A ARTE DA PARTILHA
Por Etelmar Loureiro

            Dividir não é fácil. Onde quer que a tarefa se imponha, ela requer habilidade, bom senso e espírito de justiça.
            Nada a ver com a repartição de pães de que falam os cristãos, nem com a divisão de bolos de aniversários, tampouco com o rateio de queijos. Nesses casos, com menores interesses em jogo, a partilha é geralmente tranquila e bem aceita. Ainda assim, costuma surgir um chato que se considera injustiçado, reclamando que outros foram mais bem aquinhoados.
            Nos meios socioeconômicos, a coisa já muda de figura. O conflito de interesses é comum entre seus participantes, nas horas de demarcar áreas de atuação e de avaliar resultados. A ganância de uns sempre se confronta com a ambição de outros.
            Mas é no mundo político que tudo se complica, e muito!
            No afã de se elegerem, os políticos fazem qualquer acordo ou negócio, com quem quer que seja. Se bobear, até com o demônio! Por sua vez, também em busca de vitória, seus partidos estabelecem alianças sustentadas em compromissos a serem honrados, se o candidato da coligação for eleito.
No início, tudo parecia legítimo e salutar. A proliferação das legendas, entretanto, converteu essas confrarias em um imenso balcão de negócios, destinado a ganhar mais espaço nos horários políticos da mídia, além de assegurar nomeações para cargos de relevância em órgãos ou empresas públicas, afora outras benesses menos ortodoxas.
Ao longo do tempo, essas alianças têm sido determinantes na reversão de cenários políticos. Basta recordar que, enquanto agiu sozinho, o PT jamais ganhou eleições. Para eleger Lula, bastou se aliar a uma legenda de extrema direita, o Partido Liberal, do já falecido senador José de Alencar. Da mesma forma, para colocar Dilma Rousseff no Planalto, não precisou mais do que se unir ao PMDB. E se manteve no poder, por longos 13 anos, graças a outras alianças esdrúxulas, que sempre se mantiveram na base do “é dando que se recebe”.
            Essa autêntica orgia política tornou-se corriqueira, tanto nas eleições majoritárias, quanto nas proporcionais. Expõe o comportamento fisiologista de legendas que se dispõem a apoiar qualquer chapa, independentemente de se alinharem em torno de ideologias ou programas, com o único objetivo de obter vantagens. Um pernicioso troca-troca de interesses, operado em clima de explícita promiscuidade.
            Tal fenômeno poderá complicar a vida dos vencedores das últimas eleições municipais, em torno dos quais se uniu um amontoado de partidos que perderam o rumo após a derrocada do PT. Em Valadares, por exemplo, nada menos de 24 legendas se juntaram para eleger o novo prefeito, André Merlo, fato inédito na história política da cidade. Uns mais, outros menos, todos devem estar de olho, quando nada, numa boa fatia do bolo que ajudaram a confeitar.
            Há fortes indícios de que essas famigeradas coligações estejam com os dias contados. Uma PEC que prevê o seu fim eleitoral, já aprovada pelo Senado, depende apenas de ser referendada pela Câmara Federal.
            Enquanto isso não acontece, é bom que os atuais e futuros administradores públicos se conscientizem de que os tempos mudaram. Na atualidade, mais do que antes, é preciso que eles consigam harmonizar o dividir com o multiplicar. É fundamental que só repartam seus mandatos com auxiliares e parceiros eficazes, eficientes, sérios e corretos, capazes de contribuir para a multiplicação de resultados. Nada de se amarrar com amigos, parentes, apadrinhados e aliados oportunistas, que só causam transtornos e aborrecimentos.
Trocando em miúdos, compartilhar o poder, com prudência e sabedoria, é multiplicar as chances de nunca compartilhar a cela. Uma arte, com certeza!

- Revista "Mais Mais PERFIL" - dezembro/2017

sábado, 31 de dezembro de 2016

FELIZ ANO NOVO!
Para os céticos e insensíveis, a troca de calendário é um acontecimento trivial, numa data igual a tantas outras; nada de especial.
Uma enorme maioria, entretanto, formada por idealistas movidos a emoções, anseios e esperança, cada ano é um novo cenário que se descortina.
E a vastidão dos horizontes pertence aos que sabem, com perseverança, talento e otimismo, perseguir seus sonhos.
Aos familiares, amigos e todos aqueles com os quais temos a satisfação de conviver, eu e minha família desejamos que 2017 seja um incentivo na luta pela conquista de seus maiores anseios.


domingo, 6 de novembro de 2016

CIDADE DOS SONHOS

Texto para revista Mais Mais PERFIL de out/2016 

Por Etelmar Loureiro

            Nas eleições de 2012, Governador Valadares esteve prestes a se tornar a oitava cidade mineira a ter segundo turno. No apagar das luzes, entretanto, conforme o noticiário, a Justiça Eleitoral foi surpreendida por uma lista de valadarenses mortos, no Brasil e no exterior, cerca de 550 pessoas. Isso fez com que o número de eleitores, que já havia ultrapassado o piso, ficasse reduzido a pouco menos dos 200 mil exigidos para que houvesse o “returno”. Especula-se que tudo não passou de uma sorrateira e habilidosa manobra, ainda investigada pelo TRE.
Desta vez, não houve espaço para “surpresas”. Atendidas as exigências legais, o segundo turno estaria garantido em Valadares, se necessário fosse.
O valadarense, contudo, não se deixou seduzir por essa prerrogativa. Sem vacilo, preferiu liquidar a fatura no primeiro turno.
A chapa encabeçada por André Merlo (PSDB) obteve mais de 80% dos votos, derrotando, de forma acachapante, suas três concorrentes. Entre elas a do candidato do governo petista, que não passou de um humilhante penúltimo lugar, com apenas 7,39% dos sufrágios.
Assim como em São Paulo e em outras grandes cidades brasileiras, as eleições valadarenses tiveram um “quê” plebiscitário. Serviram para desnudar a contrariedade, a decepção e a revolta da comunidade, com um governo que se despede de forma melancólica, tendo vários de seus membros, ex-integrantes e aliados envolvidos em cabeludos escândalos. Também na terra do “Mar de Lama”, o pleito consolidou a decadência do Partido dos Trabalhadores.  A traulitada sofrida pela legenda sepultou de vez a falsa tese de que o seu alijamento do poder seria um desrespeito à vontade popular.
De um momento para outro, o panorama se modificou. Na fisionomia de um povo que tem acumulado muitas frustrações e desenganos, percebe-se mais otimismo, mais disposição e mais confiança.
Pela primeira vez em sua história, Valadares estará sob o comando administrativo de um filho da terra. Um graduado em engenharia que, aos 50 anos, detém respeitável currículo. Entre outros antecedentes que o habilitam a ocupar a Prefeitura, convém lembrar que foi presidente da União Ruralista Rio Doce (URRD), com elogiável desempenho. Foi ainda subsecretário do Agronegócio (2013/2014), antes de assumir a Secretaria Estadual de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais, onde permaneceu até o final do governo de Alberto Pinto Coelho. Em 2012, concorreu à Prefeitura Municipal, conquistando o segundo lugar.
Some-se a essa bagagem a solidariedade do seu vice, Dr. Luciano (de Oliveira e Silva), com quem demonstra total entrosamento, e o presumível apoio que deverá receber dos 24 partidos políticos que se coligaram em torno de sua eleição.
Fato é que André tem o que oferecer, tem munição para a “guerra”. Isso é bom, pois, com certeza, a exigência sobre ele terá a mesma amplitude dos problemas que há muito assolam o município. Resta saber se os exigentes estarão também dispostos a contribuir para que o melhor aconteça, e se têm consciência de que, além de torcer, é preciso participar.
 As lideranças sociopolíticas, empresariais, jurídicas e religiosas, as entidades de classe, a sociedade civil organizada, enfim, toda a sociedade terá que pôr a mão na massa, sem medo de ser feliz.

Estão em jogo alguns dos sonhos que André, na condição de valadarense nato e atuante, sempre acalentou em relação aos que se sentaram na cadeira de prefeito. Sonhos dos quais se tornou fiel depositário, com a missão de realizá-los. No resumo da ópera, ele passará a ser cobrado, naquilo em que até agora era cobrador. Que tenha êxito!