quinta-feira, 5 de julho de 2018

DE OLHO NO HEXA


Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 05.07.2018
           
            As reações humanas surgem na hora certa; não há como antecipá-las.
            Pelo menos em copas do mundo, essa é a regra. O início da competição é sempre marcado pela desconfiança e pelo desinteresse de boa parte dos torcedores. É a fase em que muitos desconhecem ou ainda duvidam da capacidade de sua seleção.  Por isso, preferem ficar em casa, em pequenos grupos, para assistir às partidas.
Na Copa deste ano esse comportamento intensificou-se, sobretudo nos dias em que os jogos aconteceram em horários matinais, impróprios para se entregar aos agitos e desdobramentos do evento.
Em resumo, as multidões que lotam e animam bares, restaurantes, clubes, praças e outros logradouros públicos se formam naturalmente, à medida que a disputa avança. E isso está acontecendo, com saudável e crescente intensidade.
            Não obstante a forma categórica e brilhante como se classificou, a seleção Canarinho chegou à competição atual com uma credibilidade ainda abalada pela sua medíocre participação na Copa de 2014. A vergonhosa derrota de 7x1 para o time da Alemanha, em pleno Mineirão e sob os olhos de sua torcida, ainda não foi esquecida, tampouco perdoada. Nesse clima, o empate contra a Suíça (1x1), logo na primeira partida, contribuiu para que o torcedor mantivesse sua barba de molho.  O pessimismo, entretanto, foi se diluindo, e acabou cedendo espaço ao otimismo, graças aos dos resultados positivos alcançados nos jogos seguintes, em especial a boa vitória obtida contra a respeitável seleção mexicana.
            O grande torneio chegou às quartas de final. Das 32 equipes que o iniciaram, oito permanecem no páreo, e o Brasil é uma delas.
            Nessa fase, a nossa primeira rival será a seleção belga, em jogo marcado para as 15 horas de amanhã.
            As duas equipes se enfrentaram apenas uma vez em copas do mundo, com vitória brasileira de 2x0, gols de Rivaldo e Ronaldo Fenômeno. Isso aconteceu nas oitavas de final de 2002, ano em que a nossa seleção, comandada por Luiz Felipe Scolari, conquistou o pentacampeonato. Naquela época, embora o Brasil tenha vencido, a crítica destacou o seu confronto com a Bélgica como o mais difícil na briga pelo título.
            Se passar pelos chamados “demônios vermelhos”, nossa seleção terá dado um decisivo passo para a conquista do título.
            A Copa 2018 caminha para o seu final, acumulando um saldo extremamente positivo.
            Os jogos, de excelente nível técnico, têm sido empolgantes, disputados com garra, lealdade, determinação e muita persistência, haja vista que vários deles só foram decididos nos seus últimos momentos
Nesse frenético desenrolar, gratas revelações de talentos se misturam a justas consagrações e lamentáveis despedidas de craques responsáveis pela alegria de milhares de torcedores.
            Confirmando ser o futebol uma caixinha de surpresas, muitas das seleções tidas como favoritas decepcionaram e foram precocemente eliminadas, algumas já na primeira fase. Em contrapartida, equipes menos cotadas surpreenderam com um desempenho moderno e vigoroso, mostrando que também no futebol a renovação acontece. 
            O técnico do time belga, Roberto Martinez, disse que o Brasil é o favorito no jogo de amanhã. É bom não acreditar nisso. Ele teria dito a mesma coisa na última segunda feira, quando seu time enfrentou e desclassificou o Japão.
            O ideal é o Brasil jogar seu futebol da forma como vem fazendo até agora, ou até melhor, sempre consciente de que a grande dificuldade para chegar ao hexa será vencer a partida final.  

CHANCE DE SE REDIMIR

Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 21.06.2018

Há muito venho percebendo certo descaso de Valadares para com os fatos e personagens de sua história. Eles são abundantes, às vezes épicos e empolgantes. Muitos, entretanto, são desconhecidos, ignorados, ou estão relegados a um melancólico esquecimento.
Impressões colhidas junto à geração atual, sobretudo a camada mais jovem, têm se mostrado preocupantes. Para se ter uma ideia, muitos não sabem que o nome do bairro SIR representa uma homenagem a Sotero Inácio Ramos, o empresário que durante muitos anos instalou e manteve os melhores cinemas da cidade. Também ignoram que Vila Isa seja um tributo à Imapebra S.A, a indústria de madeira e pecuária que foi uma das maiores expressões locais no ramo.
Com relação a pessoas, o desconhecimento é ainda mais inquietante. A maior parte dos pioneiros, dos responsáveis pelo surgimento e pela consolidação da cidade, já se foi. Dos poucos remanescentes, ainda há quem possa falar da epopeia desbravadora, dos obstáculos enfrentados e das vitórias conquistadas. Mas não lhes resta muito tempo e muito fôlego para testemunhar, nem para aguardar o reconhecimento a que fazem jus.
O tempo passa e as baixas se tornam mais constantes. Os heróis do passado se despedem, abrindo espaço para novas ideias e lideranças.
Essa renovação é compreensível, faz parte do ciclo humano. Reprovável é a súbita amnésia que se apossa da comunidade, a ponto de o passado ser rapidamente esquecido.
E esse destino tem sido inexorável. Dos mais modestos aos mais notáveis, todos tendem a cair no ostracismo.
É o que está acontecendo com Hermírio Gomes da Silva.  Cidadão de méritos indiscutíveis e um currículo que dispensa galanteios, ele foi um dos ícones de sua época. Homem de visão, perseverante e otimista, era requisitado nas mais diferentes áreas. Sua marca está em quase tudo que se fez pelo desenvolvimento de Valadares. Consagrou-se como vereador, vice-prefeito, prefeito por duas vezes, presidente da Associação Comercial, diretor da Univale, um dos fundadores do Diário do Rio Doce, da Companhia Telefônica e da Fundação Percival Farquhar, diretor da Fadivale, e muito mais. Até agora, entretanto, nada disso lhe valeu uma homenagem pública. Nenhuma rua ou avenida, nenhuma praça, nem mesmo um beco ou um banco de jardim leva seu nome. Inclusive a data de sua morte tem passado em branco. Se sua memória recebeu alguma homenagem em anos anteriores, foi coisa discreta e reservada, incondizente com seus valores. Situação imperdoável, que se repete em relação a outros vultos da história local.
Hermírio faleceu em 18.06.2009.  Significa dizer que no próximo ano esse lamentável acontecimento completará sua primeira década. Seria a grande chance de a cidade se redimir da desatenção que vem dispensando a esse ilustre cidadão.
Em se tratando de vulto tão proeminente, ainda que desprovido de vaidades, teria que ser uma homenagem à altura do que ele fez e representa para a cidade. Evidentemente, não se cogitaria substituir pelo seu o nome da Avenida Minas Gerais, ou algo parecido. Mas também não seria justo tributá-lo com um marco de pouca visibilidade, fora do meio em que sobressaiu.
Ressalvado melhor juízo, poder-se-ia dar o seu nome à tradicional e consagrada Praça de Esportes situada no centro da cidade, que, aliás, embora exista há várias décadas, nunca teria sido batizada.
Reverenciar o passado é tão necessário quanto perseguir o futuro. Afinal, os jovens de ontem são os adultos de hoje e os saudosos de amanhã. Se não souberem valorizar seus antecessores, os notáveis do presente serão os esquecidos do futuro.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

DINÂMICA HISTÓRICA


Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 07.06.2018

            A história não produz nem escolhe fatos ou personagens - ela apenas os registra. Grandes ou pequenos acontecimentos, artistas ou bandidos, gênios ou abestados, santos ou demônios, autênticos ou charlatães, tudo e todos nela têm seu lugar.
É um retrato nu e cru daquilo que narra. Em nome da autenticidade, rejeita photoshop; nada de edições, retoques ou contas de chegar. Diversamente dos romances, não tem compromisso com aparências, cenários ou finais felizes, tampouco se vincula a tradições, previsões, horóscopos ou superstições.
            Mas nem sempre é assim.
            Não raro, um mesmo fato ou personagem costumam comportar mais de um enfoque. Tudo depende do contexto em que os anais são produzidos e, sobretudo, da visão, da imparcialidade e da autonomia do historiador. Nos casos que abrangem política e questões de Estado, quase sempre movidos por interesses conflitantes, é onde as verdades mais se divergem. No interesse das partes, as narrativas são distorcidas, transformando vitórias em derrotas, heróis em vilões, e vice-versa, cada um puxando a brasa para sua sardinha.
                A intervenção militar ocorrida no Brasil, em 1964, que durou 21 anos, é um exemplo. Sobre ela, a versão oficial é inteiramente contrária à apresentada pelos opositores. Figuras como João Goulart, Leonel Brizola, Carlos Lacerda, Castelo Branco, Costa e Silva, Emílio Médici, Ernesto Geisel, João Figueiredo e outros envolvidos nos acontecimentos, inclusive o ex-presidente Juscelino Kubitschek, tanto são exaltadas quanto abominadas por suas ações, dependendo de onde venha e de quem faça o julgamento.
Dinâmica por natureza, a história se renova, à medida que o passado se atualiza. Dia após dia novos capítulos são escritos, acrescentando novidades, revendo conceitos, corrigindo erros, restabelecendo verdades, ou fazendo justiça.
            Essa metamorfose é bem nítida no caso de Luiz Inácio Lula da Silva. De humilde metalúrgico, chegou à Presidência da República, onde se consagrou graças a seu inegável carisma. Ao longo dessa trajetória, porém, pôs tudo a perder, aliando-se a pilantras e oportunistas que o levaram para o buraco. Hoje amarga a solidão de uma carceragem, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro. Mas, se de lá sair a tempo e em condições de disputar o pleito deste ano, tem chance de retornar ao Palácio do Planalto, mesmo que isso represente um paradoxo. Em síntese, tudo o que se escreve sobre ele tende a ser provisório; sua biografia ainda estaria longe do epílogo.
            Outra impressionante mudança biográfica aconteceu com o senador Aécio Neves. Há pouco tempo, ele era o político mais proeminente do PSDB, uma espécie de cereja do bolo tucano, virtual vencedor da próxima corrida presidencial. Processado por trapalhadas que não consegue explicar, caiu em desgraça, e até mesmo os companheiros de partido querem dele se distanciar.
A corrupção que assola o país é outro fator responsável por modificações de cenário.   Enquanto desmistificam alguns, os desdobramentos do mensalão e da Lava Jato têm entronizado fatos e indivíduos antes desconhecidos.  É o caso do juiz Sérgio Moro, que rapidamente deixou a obscuridade para garantir espaço na história, graças à forma determinada, competente e corajosa como tem se comportado no exercício de sua função.
            Tais revertérios mostram que a história é sempre repaginada, a ponto de tornar efêmeros julgamentos e conceitos de toda sorte. O segredo para preservar o statu quo é não se deixar seduzir pelos elogios e aplausos. O que nem todos conseguem!

quinta-feira, 24 de maio de 2018

LOUCOS POR FIGURINHAS


Por Etelmar Loureiro

             Se para elas a disputa só começará no próximo dia 14, faz tempo que as 32 seleções da Copa vêm sendo frenética e intensamente disputadas. Seus jogadores têm sofrido implacável perseguição; o Brasil e o resto do mundo estão à sua procura.
            São os colecionadores de figurinhas, que não descansarão enquanto não os capturarem, um a um.
            Incrível como certos hábitos atravessam o tempo, sem perder a magia, o encanto e o poder de seduzir.
Os cromos da Copa 2018 mobilizam gente de qualquer idade, em várias partes do planeta. Homens, mulheres, crianças, jovens, famílias inteiras se envolveram no processo. Todos se apressam para completar suas coleções, de preferência antes de o campeonato começar. Nessa corrida, valem negociações nos pontos de troca, locais de trabalho, escolas, hospitais, consultórios, festas sociais, onde quer que seja. Até em cultos e velórios surge alguém com uma listinha na mão, perguntando pelos números que lhe faltam.
Conforme pesquisa de mestrado do paulista Paulo Cezar Goulart, as primeiras figurinhas surgiram na Europa, por volta de 1870. Vinham em maços de cigarros, igual apareceram no Brasil, duas décadas depois.
Com o passar do tempo, vinham também em balas e sabonetes, na forma de promoções tipo “achou ganhou”. Encontradas, podiam ser trocadas por pequenos brindes. Foi a fase em que, nas balas “Americanas”, começaram a surgir as figurinhas de jogadores de futebol.
Inicialmente guardadas soltas, as figurinhas só passaram a ter local próprio em 1934, quando as balas “A Holandeza” lançaram o primeiro álbum.
Na metade do último século, a figurinha deixou de ser brinde, para ser vendida.
            “Craques do Campeonato Mundial de Futebol 1950” foi o primeiro álbum brasileiro que tratou apenas de futebol; os anteriores misturavam vários temas. Estranhamente, ele foi lançado meses depois que a Seleção Brasileira perdeu o título para o Uruguai, em pleno Maracanã. Ainda assim fez sucesso.
            O Brasil tornou-se líder no consumo e coleção do álbum de figurinhas da Copa do Mundo. Dos quase 100 países onde o produto é comercializado, somos o campeão de venda, atingindo mais que o dobro da Alemanha, a segunda colocada.
A cada 24 horas, aqui são produzidos cerca de oito milhões de envelopes, cada um contendo cinco cromos. Isso significa 40 milhões de figurinhas por dia, quantidade que tende a diminuir à medida que se aproxima o início dos jogos na Rússia, quando maioria dos colecionadores já terá completado seus álbuns.
Passada a Copa, elas deverão sair de cena, deixando saudade. Poderão retornar daqui a dois anos, nos Jogos Olímpicos, ou só no Mundial de 2022.
Sempre que surgem, criam um clima contagiante. Têm o condão de mostrar o quanto é tênue o meridiano que separa crianças e adolescentes, jovens e adultos. Chega a ponto de fazer crer que essa distinção só existe na Lei, nada tendo a ver com a personalidade e as características físicas de cada geração.
Como bem ressaltou a antropóloga Cláudia Pereira, do Departamento Social de Comunicação da PUC-Rio, “a febre (de colecionar figurinhas) está maior porque as fronteiras da idade estão cada vez mais borradas por conta da expansão da idéia da juventude. Nesse contexto, é permitido acessar a infância o tempo todo”.  Ainda segundo ela, “… é uma forma de (re)viver a infância, sem vergonha de ser feliz”.
            A propósito: faltam-me as do Neymar e do Cristiano Ronaldo ...


- Diário do Rio Doce - 24.05.2018

sexta-feira, 11 de maio de 2018

CONFRONTANDO CIDADES


Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 10.05.2018

            Sempre que visito outras localidades, sobretudo as que se parecem com Governador Valadares, esforço-me para conhecer ao máximo as suas características, na intenção de estabelecer comparações.
            Refiro-me a Passo Fundo, norte do Rio Grande do Sul, onde agora estou.
            Fundado em 1857, esse belo rincão gaúcho possui em torno de 200 mil habitantes.  Situa-se a 290 quilômetros da capital do estado, Porto Alegre. O clima é tido como temperado, mas, no correr do ano, se divide entre um verão causticante e um inverno de assustar esquimó.
            A economia local se baseia no agronegócio, no comércio e na prestação de serviços, com ênfase para os setores de saúde e educação.
            Dispõe de boa infraestrutura de hotéis, lojas de vestuário e eletrodomésticos, bares, restaurantes, cinemas, teatro, museus, bom shopping Center, além de um cemitério crematório de alto nível, recurso pouco comum em cidades interioranas.
Abriga algumas empresas de grande porte, inclusive uma usina de biodiesel (BSBIOS) e uma fabricante de máquinas e implementos agrícolas (KHUL), que em muito contribuem para turbinar a receita tributária.
Considerada polo em saúde, conta com nove hospitais, inclusive o Hospital São Vicente de Paulo, considerado a quinta empresa mais rentável dos três estados do Sul, no setor saúde.
No campo educacional, há nove instituições de ensino superior, entre elas uma universidade federal.
A taxa de analfabetismo da localidade é de 2,18%, bem abaixo da média brasileira, situada em quase 12%.
Afora todos esses detalhes, Passo Fundo chama a atenção por apresentar um bom aspecto de limpeza urbana; ruas, avenidas, praças públicas e passeios bem conservados; afora um visual arquitetônico que impressiona pela quantidade e boa qualidade de elevados edifícios residenciais e comerciais.
Passo Fundo e Valadares têm muito em comum, a começar pela precariedade de seus aeroportos acanhados, carentes de equipamentos de navegação aérea e de outras melhorias. Além disso, estão adequadamente localizadas em relação aos pontos com os quais precisam interagir, são urbanisticamente bem traçadas, progressistas, hospitaleiras e possuem vasto campo para se desenvolver.
            Intrinsecamente, entretanto, as divergências parecem ser bem maiores do que as convergências.
            No quesito cultura, por exemplo, Passo Fundo se posiciona bem à frente, a ponto de deter o título de Capital Nacional da Literatura, outorgado por Lei Federal. Ademais, a cidade possui inúmeras entidades de tradições regionais, inclusive 10 Centro de Tradições Gaúchas.
            Enquanto isso, Valadares, com seus mais de 280 mil habitantes, aguarda há vários anos a prometida restauração do prédio da antiga Açucareira (Cardo), hoje em ruínas, onde, só Deus sabe quando, um dia funcionará um Centro de Convenções. Isso sem falar no Teatro Atiaia, o único existente, desde muito interditado, devido às péssimas condições de suas instalações.
            Uma das explicações para essa diferença, e também para outras que poderiam ser oportunamente abordadas, é o fato de a terra de Teixeirinha possuir 160 anos, o dobro, pois, da idade da terra de Serra Lima.
            Não significa que uma seja melhor do que a outra. Cada qual com suas peculiaridades, ambas são cidades que oferecem ótimas condições de vida e muito espaço para os que a elas se integram, dispostos a contribuir para seu progresso. A opção é individual!

quinta-feira, 26 de abril de 2018

TEMPORADA INGLÓRIA


Por Etelmar Loureiro

- Diário do Rio Doce - 26.04.2018

            A começar pelo Dia da Mentira, abril reúne várias datas comemorativas. Entre outras, o Dia do Hino Nacional Brasileiro (13) e o Dia do Descobrimento do Brasil (22), ambas bastante desgastadas, praticamente ignoradas pelos brasileiros. A quase totalidade das demais não tem alcance nacional, e abrange apenas festejos localizados.  Feriado, mesmo, só no dia 21, quando em Brasília celebra-se o aniversário da cidade, e em todo o país homenagens são prestadas a Tiradentes.
            Este ano, entretanto, o quarto mês do ano incorporou outros episódios marcantes.
O primeiro deles foi a prisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no último dia 07, por condenação penal, coisa inédita na história do país.           
             No passado, outros ex-chefes de estado brasileiros também foram parar na cadeia. Dessa relação fazem parte Hermes da Fonseca, Washington Luis, Artur Bernardes e Juscelino Kubitschek. Nenhum deles, entretanto, foi preso por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.
            Após permanecer dois dias entrincheirado na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, o líder petista finalmente se entregou à Polícia Federal, para cumprir prisão decretada pelo juiz federal Sérgio Moro. 
O homem que se dizia intocável e imbatível capitulou, e está hoje recolhido a uma cela, como qualquer delinquente. Pouco importa se lá permanecerá pelo tempo a que foi condenado. Importa que sua prisão  quebrou a espinha dorsal da quadrilha que, por mais de uma década, dilapidou os cofres públicos, certa de que jamais seria punida. Isso deixou com as barbas de molho outros criminosos do colarinho branco, que adquiriram consciência de sua vulnerabilidade perante a Lei.
Na sequência, 17/04, o Supremo Tribunal Federal consagrou outra data digna de registro, acatando denúncia corrupção e obstrução da justiça contra o senador Aécio Neves (PSDB). Desde então, o tucano responderá ao processo penal na qualidade de réu, lhe assegurado o direito a rebater a acusação com novas provas. Sua culpa ou inocência só será decidida ao término da ação, em julgamento a cargo da Primeira Turma do STF, a mesma que o indiciou.
No geral, a situação de Aécio, antes tranquila e confortável, tornou-se extremamente complicada. O neto de Tancredo Neves parece haver entrado num inferno astral sem retorno, para o qual arrastou seu prestigio pessoal, o conceito familiar e as aspirações políticas não apenas dele, mas daqueles que antes o apoiavam, inclusive o PSDB.
Não menos importante no curso deste mês foi a decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que, em 24/04, rejeitou recurso apresentado por Eduardo Azeredo (PSDB), mantendo sua condenação a mais de 20 anos de prisão. O ex-governador mineiro será punido pelos crimes de peculato e lavagem de dinheiro, no esquema que se popularizou como “mensalão mineiro”.
Os tratamentos dispensados a Aécio Neves e Eduardo Azeredo, ambos do PSDB, têm o mérito de acabar com a história de que só os petistas são perseguidos e punidos pela Justiça.
De tudo isso, resta lamentar que as novas datas destacadas no calendário de abril envolvam fatos lastimáveis e figuras que até há pouco tempo gozavam da irrestrita confiança popular, a ponto de exercerem importantes cargos públicos, inclusive a presidência da República. Hoje, despidos de seus poderes, e expostas suas condutas indecorosas, apenas contribuem para ampliar o descrédito do povo em relação à política e aos políticos de agora. Que venha logo a Copa do Mundo!

sexta-feira, 13 de abril de 2018

LARGADA PARA AS URNAS

Por Etelmar Loureiro

                Se já não era límpido, o horizonte político-eleitoral se tornou bem mais nebuloso, com a prisão de Lula e a possibilidade de ele não participar do próximo pleito.
            Bem verdade que a saga judicial do ex-presidente ainda pode render muitos capítulos. Seus habilidosos e competentes advogados se utilizam de todos os recursos para livrá-lo das grades. Esperam contar até mesmo com a decisiva ajuda do Supremo Tribunal Federal, onde não faltam ministros interessados em acabar com as prisões de condenados em segunda instância.
Mas o Partido dos Trabalhadores garante que, de uma forma ou de outra, seu maior líder estará no páreo. Nas palavras do vice-presidente da legenda, Alexandre Padilha, não será o PT que vai retirar Lula das eleições. “A lei estabelece que em agosto são registradas as candidaturas. O nome de Lula estará lá. Vamos seguir a lei, e caberá ao TSE avaliar esse registro. Lula continuará a ser nosso candidato, preso ou não”.
Por sua vez, a senadora Gleisi Hoffmann, presidente da sigla, não se cansa de repetir que "o PT não tem plano “B”. Lula é e será nosso candidato. O candidato do povo brasileiro”. Falta dizer, entretanto, que o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, a deputada estadual Manuela D’Ávila (PCdoB) e o líder do MTST, Guilherme Boulos, são mantidos no banco de reservas, em aquecimento.
            Nas outras raias da competição, entre certos e incertos, se acumulam mais de 20 nomes.  O mais cotado tem sido Jair Bolsonaro (PSL), segundo colocado nas pesquisas de intenção de voto.  Os demais podem até surpreender, mas ainda não merecem destaque.
            A grande dúvida gira em torno da participação de Michel Temer, que muitos acreditam já ter decidido pela candidatura, mas se finge de morto, para ver quem vem ao enterro. Certo é que ele precisa se reeleger, ou, quando nada, fazer um sucessor que, de alguma forma, lhe assegure mais quatro anos de foro privilegiado.  Tarefa difícil para um campeão de impopularidade.
            Também em Minas Gerais muitos se apresentam como pré-candidatos ao governo do Estado. Até agora, as preferências giram em torno de Fernando Pimentel (PT), Rodrigo Pacheco (DEM), Dinis Pinheiro (PP) e Márcio Lacerda (PSB), não necessariamente nessa ordem. O senador Antonio Anastasia acaba de entrar no páreo, graças a muita pressão do PSDB e de políticos que o apoiam. Sua presença certamente implicará substanciais mudanças no ranking eleitoral.
            Nos últimos dias, o que mais agitou o cenário político mineiro foi a intenção de Dilma Rousseff concorrer ao Senado, por Minas. A decisão foi recebida com grande entusiasmo pelas lideranças petistas estaduais, e tem a bênção de Lula. No lado oposto, o deputado federal mineiro Marcelo Aro (PHS-MG) disse que o fato “é melancólico”.  Segundo ele, “espertos, os gaúchos não quiseram se associar ao que restou do PT. Ela (Dilma) foi descartada pelos próprios companheiros do partido no Rio Grande do Sul. É deprimente e assustador que o PT mineiro tenha achado que nosso Estado é lugar de receber esse fardo”.
            A corrida eleitoral está no seu início. Até o momento, tem sido mínimo o entusiasmo popular em relação ao pleito. A reversão desse quadro dependerá de que os candidatos demonstrem caráter, credibilidade e disposição para não repetir os erros e dolos cometidos pelos políticos atuais. Só assim o eleitor se sentirá motivado a mostrar nas urnas qual é “o Brasil que eu quero”. Sem necessitar de “selfie”!

- Diário do Rio Doce - 12.04.2018