quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

CALÇADAS ESQUECIDAS

Por Etelmar Loureiro

            Nas cidades civilizadas, as calçadas são mais do que simples vias por onde transitam pedestres. São também locais de convivência, em que as pessoas se veem, trocam cumprimentos e até se detêm em longas conversas.  Elas fazem parte da vida do cidadão, ligando-o aos serviços de que se utiliza e aos lugares que frequenta. Costumam ser, ainda, atrações turísticas, como a “Calçada da Fama”, em Hollywood (USA), ou as mundialmente admiradas calçadas portuguesas, no Brasil tão bem representadas pelo calçadão da Praia de Copacabana.
Com o trânsito cada vez mais caótico, ao que se soma a precariedade do transporte público, caminhar transformou-se em boa alternativa para os deslocamentos pessoais. Conforme o último levantamento do Ibope (2015), cerca de 22% das locomoções cotidianas são realizadas a pé. Não só por ser uma opção saudável, que permite interagir com a cidade e seus moradores, mas devido ao elevado custo do transporte público. São necessárias, pois, calçadas adequadas, em quantidade e qualidade capazes de atender a crianças, jovens, adultos, idosos e deficientes físicos.
Entretanto, nos dias atuais, essa prática passou a ser uma prova de obstáculos para os que a ela se dedicam. Os desafios vão da péssima condição dos passeios públicos, cheios de buracos, desníveis, degraus, alagamentos e outras deficiências, até a sua ocupação por bancas de revistas, camelôs, cavaletes publicitários, filas de bancos, financeiras e casas lotéricas, entulhos, mesas de bares e outras parafernálias. Sem falar nos incômodos pedintes, malandros e drogados que se agrupam em certos pontos das passarelas, constrangendo os transeuntes.
Defensores desse espaço essencial para garantir a mobilidade urbana, os pernambucanos Francisco Cunha (consultor de empresas) e Luiz Helvécio (engenheiro) escreveram o livro “Calçada: o primeiro degrau da cidadania urbana”. Na obra, com rubustos argumentos, eles advogam a ideia de que o desrespeito à calçada é também um desrespeito ao direito de ir e vir, comum a todo cidadão.
Na opinião de Cunha, “sem podermos trafegar por calçadas seguras, desobstruídas e regulares, estamos impedidos – ou não podemos fazê-lo dignamente –, de chegar ao trabalho, à residência, à escola e até mesmo ao transporte público. Ficamos isolados, ou gravemente restringidos por carros invasores, barracas, lixo, esgotos estourados e inúmeros outros abusos que atormentam a vida do cidadão pedestre”.
A importância de preservar e construir calçadas cresce na proporção direta do vertiginoso aumento da frota de veículos, esse fenômeno que a todos vem causando sérias preocupações. Com as ruas tomadas por automóveis, caminhões, motos e bicicletas, o pedestre se sente cada vez mais confinado nos passeios públicos.
O problema é nacional, com ênfase nas localidades onde as prefeituras são mais omissas e as comunidades menos zelosas dos próprios interesses.
Nesse contexto, Valadares, comparada a outras localidades do mesmo porte, deixa muito a desejar. De modo geral, suas calçadas se encontram em estado lastimável. A necessidade de revitalizá-las há muito caiu no esquecimento do Poder Público e de grande parte dos proprietários de imóveis. Que o digam os que preferem andar nos quarteirões próximos às suas residências, os idosos, os deficientes físicos, sobretudo os cadeirantes, os pais que gostariam de transportar seus filhos em carrinhos de bebê, e tantos mais.

Os especialistas em mobilidade urbana asseguram que a qualidade das calçadas é o melhor indicador de desenvolvimento humano, além de funcionar como um sensor para medir o nível de civilidade de um povo. Sem discordância!

- Diário do Rio Doce - 07.12.2017

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A HORA DA MEGA

Por Etelmar Loureiro
           
            Decepcionado e desiludido com o que acontece no cenário político nacional, e sentindo-se impotente diante da triste realidade, o brasileiro, resolveu “entregar pra Deus”.  Seu foco, pelo menos no momento, está voltado para coisas mais amenas, tipo viagens, futebol, cinema, teatro, telenovelas, resenhas botequeiras, passeios em shoppings, e por aí vai.
            Ainda agora, indiferente a mais um jogo de “toma lá, da cá” entre o governo e seus aliados, desta vez envolvendo a polêmica reforma da Previdência, o povo curte outro lance. As atenções da galera se concentram em mais uma edição da tradicional Black Friday, programada para amanhã. Nas lojas físicas ou virtuais, uma avalanche de compradores estará correndo atrás de móveis, eletrodomésticos, equipamentos eletrônicos, roupas, alimentos, bebidas e tudo o mais que alimenta o espírito consumista dos humanos.
A Black Friday, como se sabe, é uma expressão inglesa, reservada à última sexta-feira de novembro, logo após o Dia de Ação de Graças (Thanksgiving Day), que, nos Estados Unidos, é um dos mais importantes feriados. É a data em que o comércio americano promove uma megaliquidação de estoques, com enormes descontos, dando início às vendas de Natal.
A ideia conquistou o mundo. No Brasil, embora o Dia de Ação de Graças não seja muito difundido, o mercado pegou carona na liturgia americana, e a Black Friday segue a mesma agenda. A primeira edição brasileira do evento aconteceu no dia 28 de novembro de 2010, e foi totalmente online. A partir de então, bem aceita pelos consumidores, a iniciativa adquiriu forças e incorporou-se definitivamente ao nosso calendário comercial.
Habilidoso, criativo e como sempre esperto, o brasileiro identificou na Black Friday a oportunidade de alavancar não só a comercialização de produtos de prateleiras, mas também de outros itens e serviços que não figuram entre os convencionais. Nos meios de comunicação, eles estão sendo ofertados à exaustão, sem qualquer constrangimento.
Nutricionistas oferecem planos de tratamento pelos quais a cliente paga para emagrecer dois, mas perde três quilos.
Em um site especializado, garotas de programa se anunciam na base do contrate uma e leve duas, ou do pague cabelo, barba e bigode, e ganhe a costeleta.
Na Justiça, criminosos propõem fazer delações premiadas, com 50% de abatimento, enquanto alguns juízes admitem dobrar a redução das penas desses delatores.
O vigário de uma pequena paróquia, ao Sul do Norte piauiense, também garante diminuir à metade a penitência dos que se confessarem durante o evento.
Mas é na política que a Black Friday promete bombar. Fala-se, inclusive, que as negociações se iniciaram na noite de ontem, no jantar que o presidente ofereceu a seus aliados, na tentativa de persuadi-los a aprovar as mudanças na Previdência, ainda neste ano.  Ali, segundo fontes fidedignas, o “toma lá, dá cá” correu solto. Havia partidos oferecendo apoio, com desconto de 20, 30 e até 50%, outros dando três deputados, por uma diretoria de estatal, ou dois senadores, por um ministério; coisa de doido!
Na internet rolam também comentários bem humorados. Um deles, afirma que “o brasileiro se sente preparado para a Black Friday; só falta achar produtos com 100% de desconto”.  Outro pondera que “Black Friday sem dinheiro é igual pular carnaval com a esposa: nada além de observar as oportunidades passarem”.
Brincadeiras à parte, o negócio é esperar até amanhã, pra conferir se, de fato, a promoção não incorre na já conhecida “black fraude”. O segredo é, antes de “passar o cartão”, ficar atento, para não embarcar em promessas enganosas, tampouco comprar um produto pela “metade do dobro”.
A friday pode ser black, mas que a sua sexta-feira não seja negra!

- Diário do Rio Doce- 23.11.2017

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

OS CONFLITOS DA REFORMA PREVIDENCIÁRIA

Por Etelmar Loureiro

Passadas as duas tormentas que ameaçavam sua continuidade, e mesmo consciente de que outras poderão surgir, o governo volta a investir na reforma da Previdência, a menina dos olhos do presidente Michel Temer e do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Nela têm sido concentrados todos os esforços oficiais, mas não está fácil vender o peixe.
            Como se não bastasse a resistência da opinião pública, o relatório final do senador Hélio José (Pros-DF) sobre os trabalhos da CPI da Previdência, unanimemente aprovado no último dia 25, foi uma verdadeira ducha de água fria no otimismo do governo.
O documento aponta erros na proposta do Executivo; propõe emendas à Constituição e projetos de lei; além de apontar um elenco de medidas a serem adotadas para o equilíbrio do sistema previdenciário brasileiro. Entre essas, o uso de mecanismos de combate às fraudes, maior rigor na cobrança dos grandes devedores e o fim do desvio de recursos para outros setores.
Assinala, ainda, inconsistência de dados oferecidos pelo governo, que "desenham um futuro aterrorizante e totalmente inverossímil”, com o objetivo de extinguir a Previdência pública, abrindo espaço para atuação das empresas privadas. Ainda segundo as conclusões da CPI, essas empresas devem à Previdência R$ 450 bilhões, dos quais apenas R$ 175 bilhões correspondem a débitos recuperáveis.
A discordância entre governo e a CPI chegou a ponto de Hélio José  querer incluir, em seu relatório, sugestão de indiciamento dos ministros Henrique Meirelles (Fazenda) e Eliseu Padilha (Casa Civil), por terem fornecido dados inconfiáveis, “mentirosos e falaciosos”, com o intuito de defender a necessidade da reforma da Previdência. Seus companheiros de trabalho conseguiram demovê-lo dessa ideia.
            Para o senador Telmário Mota (PTB-RR), membro da Comissão, “esta Casa levantou dados importantes, colhidos junto ao próprio governo, com meses de estudos e análises. A CPI mostrou que há fraude e há corrupção, e que a Previdência não é deficitária”. Por sugestão dele, uma cópia do relatório será entregue diretamente a Michel Temer. Outras vias serão destinadas a diversos órgãos da administração federal, para análise e providências cabíveis.
Pelo relatório final, que tem 253 páginas, a CPI, nos seus seis meses de funcionamento, apresentou a órgãos públicos dezenas de requerimentos de informações, promoveu 31 audiências públicas e ouviu mais de 140 pessoas, entre representantes de órgãos governamentais, sindicatos, associações, empresas, além de membros do Ministério Público e da Justiça do Trabalho, deputados, auditores, especialistas, professores e outros.
            O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, não hesitou em contestar esse exaustivo e dispendioso trabalho. Segundo ele, "a CPI emitiu uma opinião que não existe déficit. Mas ela não comprovou. Os números foram calculados de forma errada”. Disse, ainda, não ser “momento para demagogia, para enganos”.
Outras opiniões contrárias também foram emitidas por especialistas no assunto. Entre esses o procurador do Ministério Público junto ao TCU, Júlio Marcelo de Oliveira, aquele que apontou as “pedaladas” responsáveis pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Em extenso artigo publicado no site Consultor Jurídico, ele argumenta que a CPI da Previdência vende uma ilusão, ao afirmar que não há déficit. Não lhe faltaram fundamentadas contestações.
              Por sua vez, o trabalhador continua achando que a indigitada reforma previdenciária será mais um sacrifício exigido do povo. Sempre a pretexto de sanear as finanças de um país que cada vez mais se afunda em dívidas provocadas pela má gestão, pela incompetência, pela ganância e pela safadeza de seus homens públicos.

            É nesse clima polêmico que a matéria deverá ser submetida ao plenário da Câmara. Resta a pálida esperança de que, na ocasião, os parlamentares atuem com bom senso e independência, sem trocar o apreço pela dignidade pelo preço do voto.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

PORÕES DA HIPOCRISIA

Por Etelmar Loureiro

            Os temas polêmicos estão entre os mais utilizados pelos autores de livros, filmes, peças teatrais e novelas, para despertar maior interesse por suas obras.
            Nessa prática, a novelista global Glória Perez é campeã. Em suas histórias, não hesita em expor questões melindrosas, como barriga de aluguel, tráfico de mulheres, clonagem humana e sexualidade. E o faz com naturalidade e transparência, mas sempre deixando dúvida quanto à solução ideal para o problema, frente à ética e à moral. Ela mesma admite que sua contribuição para a dramaturgia foi promover a união entre a realidade e a ficção.
            No texto produzido para a telenovela A Força do Querer, Glória Perez colocou em discussão novos e palpitantes assuntos, com ênfase para o tráfico de drogas, a transexualidade e o vício em jogos de azar.
            Apesar dos invejáveis índices de audiência alcançados pelo folhetim global, a autora não se livrou de ser “malhada” por críticos mais conservadores. Entre outras choradeiras, uns a acusam de glamorizar o crime, transformando traficantes em heróis de favela, com resultados que induzem a acreditar que o crime compensa. Outros reclamam que ela faz apologia à mudança de sexo, o que causa problemas às famílias onde haja alguém com essa propensão. E a Globo mais uma vez se transformou na vilã da história.
            Nas décadas de 1940 a 1960, quando o cinema era considerado a principal diversão, os pais eram orientados a evitar que crianças e jovens assistissem a muitos policiais e faroestes. Acreditava-se que os enredos, a violência e o uso de armas mostrados nesses filmes poderiam repercutir na formação de seus filhos. Ledo engano! Nada disso se confirmou, pelo menos não na dimensão alardeada.
            Obras de ficção sofrem influência da vida real. Mesmo quando baseadas na verdade, prevalece a ressalva de que “qualquer semelhança com fatos ou pessoas vivas ou mortas é mera coincidência”. As rejeições a seu conteúdo quase sempre derivam de princípios morais, familiares ou religiosos. Mas podem ser fruto da desinformação, da resistência em conviver com a realidade, ou da conjugação de tudo isso.
            A violência, a criminalidade, o uso e o tráfico de drogas, o envolvimento com a jogatina, os dramas familiares e outras mazelas que causam transtornos e perplexidade sempre existiram, nas ruas e nos lares.  Os transgêneros e outros seguidores de diferentes tipos de orientação sexual aparecem com desenvoltura nos mais remotos registros históricos. Dizer que são estimulados pelas novelas da Globo é uma tremenda balela. Seria o mesmo que culpar o Jornal Nacional pela existência do mensalão, do petrolão e de tantas tramoias reiteradamente praticadas por políticos, agentes públicos e empresários que não se cansam de afrontar o povo brasileiro.
            Não se trata de defender essa ou aquela emissora de televisão, tampouco a sua programação. Também não há intenção de julgar aspectos éticos, morais ou científicos das questões, grupos e comportamentos sociais aqui mencionados. Partindo do entendimento próprio de que eles são realidade, o propósito é defender que sejam discutidos abertamente, sem falsos pudores, e não deixados sob os tapetes que enfeitam os porões da hipocrisia.
              Para o próprio bem, a sociedade deve conscientizar-se de que a vida está sujeita a um processo de evolução irrefreável, em que o espaço para dogmas, tabus e “caixas pretas” é cada vez mais escasso. Não há como ficar a reboque da realidade, presos a paradigmas que o próprio tempo tem se encarregado de romper. Concordando com Mahatma Gandhi, “temos que nos tornar a mudança que queremos ver”. Enquanto há chance!

- Revista "Mais Mais PERFIL" - edição de out/2017

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

ADEUS, CHICO!

por Etelmar Loureiro

Em homenagem póstuma ao jornalista, escritor, profissional de turismo, empreendedor por excelência, exemplar chefe de família e grande amigo, Francisco Luiz Teixeira, que nos deixou no último dia 27, reproduzo o texto que honrosamente escrevi, para prefaciar o seu livro Miscelâneas do Chico (primeira edição - junho/2016):

            “Comunicador por excelência, ele está constantemente na mídia, criticando, comentando ou simplesmente noticiando algo de interesse popular. Mesmo quando censura, não descuida do bom humor, da fina ironia e da extrema sutileza que lhe garantem a fidelidade e a admiração de um apreciável grupo de leitores.
Na condição de cidadão e chefe de família, é pessoa simples, simpática, despida de vaidades, comunicativa e realizadora, muito bem aceita pela comunidade em que vive, da qual participa ativamente.
Assim é Francisco Luiz Teixeira, o araxaense popularmente conhecido como Chico Teixeira, que, ainda criança, deixou a terra de Dona Beja, em busca do crescimento. Foi tentar a vida em Goiânia e Belo Horizonte, antes de fincar raízes na mineira Governador Valadares, cidade onde se casou com Dinah Coelho Teixeira, é pai de sete filhos,  e se tornou um colecionador de sucessos.
O envolvimento de Chico Teixeira com a chamada capital do Vale do Rio Doce tem sido dos mais intensos. Desde 1950, quando chegou ao local, se fez presente nas mais diferentes áreas sociais, econômicas e políticas. Participou de entidades de classe e filantrópicas. Foi vereador, secretário da Administração Municipal e diretor da Associação Comercial.  Atuou em rádios e jornais, sendo fundador da Imparson, primeira agência de publicidade e gravadora, e do jornal Tribuna Fiel. No mundo dos negócios, criou a Altura Aliança Turismo S.A e idealizou o Ibituruna Serra Clube, duas molas propulsoras do desenvolvimento da Ibituruna, o maior ponto turístico de Governador Valadares. Atualmente, na condição de colaborador, escreve para Diário do Rio Doce, o principal matutino valadarense.
Antes de se graduar em Direito, integrando a primeira turma de formandos da Faculdade de Direito Vale do Rio Doce (Fadivale), Chico Teixeira diplomou-se como Técnico em Contabilidade, sua primeira função em Valadares. Não por acaso, tornou-se um exímio contador ... de casos e causos. Mas jornalismo e turismo foram sua dedicação preferida, mesmo sem nenhuma formação acadêmica nessas áreas.
Em “Miscelânea”, seu primeiro “best-seller”, ele reúne os melhores frutos de uma visão que transcende os fatos e se expressa na forma de importantes relatos, sutis analogias, ou anestésicas alfinetadas. Um conteúdo que pode provocar reflexões, risos ou encaixar carapuças.
Vale a pena conferir!”

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

EFEITO CATALUNHA

Por Etelmar Loureiro

            Focado no alheio, o brasileiro às vezes não se dá conta do que acontece em seu próprio território. Ainda agora, com as atenções voltadas para a Espanha, palco de nova queda de braço pela emancipação política da Catalunha, quase ninguém percebeu mais uma explícita demonstração de que sonhos separatistas são também acalentados no Brasil.
            No início deste mês (07), os moradores do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná foram outra vez consultados sobre se gostariam de se separar do restante do país. A sondagem, batizada de Plebisul, foi a segunda promovida pelo movimento “O Sul é Meu País”, que esperava recolher de 2 a 3 milhões de opiniões. Por diversas razões, inclusive má divulgação, houve apenas cerca de 365 mil votantes que, na sua quase totalidade (96,26%), responderam “sim”. O resultado ficou bem abaixo do contabilizado em 2016, quando o número de participantes beirou 620 mil. Ainda assim, os organizadores da pesquisa se disseram satisfeitos. Isso porque quem votou também subscreveu o Projeto de Lei de Iniciativa Popular (PLIP) que proporá a realização de um Plebiscito Consultivo Oficial, junto com as eleições de 2018, a respeito da emancipação do Sul. A meta era obter quantidade de assinaturas necessárias para impulsionar o projeto (1% dos 21,2 milhões de pessoas aptas a votar na última eleição), o que teria acontecido.
            Fundado em 1992, “O Sul é Meu País” é uma instituição legalmente estabelecida, que objetiva “viabilizar a emancipação política e administrativa dos três estados do Sul, de forma pacífica e democrática”.  Tem sede em Passo Fundo, e representações em vários municípios sulistas. Seus dirigentes se dizem conscientes de que as consultas promovidas pelo movimento são informais, sem qualquer valor legal. Também sabem que uma divisão do território brasileiro seria inadmissível, pois, segundo a Constituição nacional, o Brasil é uma “união indissolúvel” de seus Estados, Municípios e do Distrito Federal. O tema é uma cláusula pétrea, impossível de ser modificada.
            Pelos que não o apoiam, o movimento costuma ser apontado como vendedor de ilusões, patrono de utopias, ou apenas delirante. Seus muitos adeptos, entretanto, identificam nele o oxigênio que mantém viva a esperança de emancipação que, desde o século XVIII, está alojada na alma sulista. Um ideal que se fez presente na Guerra dos Farrapos (1835 a 1845), na Revolução Federalista (1893 a 1895) e em outros memoráveis episódios da história daquela região. O presidente do grupo, Celso Deucher, rebate as críticas dizendo que “pode ser um sonho; mas tem muita gente sonhando junto”.         
          Fértil, por natureza, a imaginação ignora fronteiras e ganha dimensões mais ousadas, quando centrada em independência e liberdade. E os que alimentam esse desejo sabem que a conquista é difícil. A “prima facie”, a autonomia não vem de mão beijada, de forma consentida, ou por acordo de cavalheiros entre governantes e governados. De modo geral, a disputa é árdua, dolorosa, desgastante, e nem sempre bem-sucedida. Requer habilidade, determinação, perseverança e muita paciência. Seriam essas as melhores armas para enfrentar os que naturalmente resistem em abrir mão de seus domínios.
            Em termos de apoio de massa, o movimento “O Sul é Meu Pais” não se equipara ao que ora acontece na Espanha. Está numa fase incipiente, sem envolver confrontos de qualquer natureza. Mas, se os catalães lograrem êxito em sua pretensão, não fica descartada a hipótese de o efeito Catalunha repercutir não só no Brasil, mas também em outros países americanos, onde as ideias separatistas são tão antigas quanto o seu surgimento. É esperar pra ver!

- Diário do Rio Doce

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

O DESARMAMENTO NO BANCO DOS RÉUS

Por Etelmar Loureiro

            Certos debates, alguns polêmicos e palpitantes, são episódicos. Abrem-se apenas diante das tragédias que os tiram do esquecimento. Parece até que só existem para iludir a opinião pública e tentar explicar o inexplicável. A matança recentemente acontecida em Las Vegas confirma essa tese. Um atirador solitário executou o maior ataque a tiros da história dos Estados Unidos. A ação rendeu 59 mortos, inclusive o seu responsável, que se matou em seguida, e mais de 500 feridos. Aconteceu durante um festival de música country, assistido por cerca de 22 mil pessoas. No local de onde foram feitos os disparos, a polícia encontrou um verdadeiro arsenal de armas e munições. O autor do massacre, Stephen Paddock, 64 anos, era um inveterado jogador de pôquer, que, segundo as investigações, se tratava à base de ansiolíticos.
            Além de provocar uma grande comoção nacional, o atentado reabriu o debate sobre o controle de armas nos EUA.  O mesmo tema que já provocou intensas e infrutíferas discussões, quando de anteriores tragédias do gênero, tão recorrentes naquele país. Mas não é fácil chegar a um consenso sobre o assunto. Pra começar, a posse de armas é um direito que a chamada segunda emenda à Constituição assegura a todos os estadunidenses. As pesquisas revelam que a maioria deles acredita ser mais importante resguardar do que limitar essa prerrogativa. Mostram também que mais da metade da população se sente mais protegida com um revólver em casa. Dois terços dos norte-americanos são contra o controle das armas. Há ainda o lado político da questão, já que o Republicano, partido do hoje presidente Donald Trump, tem sido majoritário na rejeição a qualquer medida tendente a mudar as regras atuais.
            Na consciência ianque – que nesse ponto não difere muito das demais –, parece que o problema não é preponderantemente o revólver, o fuzil ou a metralhadora, mas a mente criminosa do indivíduo que aciona o gatilho. Quem quer assassinar não depende só desses artefatos. O mundo dispõe de armas químicas, explosivos, veículos motorizados, homens-bombas, combustíveis e outros recursos igualmente letais. Basta lembrar o atropelamento em massa acontecido em Barcelona, em agosto passado, quando uma van, dirigida por um terrorista marroquino, foi lançada sobre centenas de pessoas, deixando vários mortos e feridos. Outro exemplo é a tragédia que acaba de ocorrer na cidade mineira de Janaúba, onde o vigilante noturno de uma creche, utilizando-se de gasolina, ateou fogo em si mesmo, em uma professora e em várias crianças, causando mais de uma dezena de mortes. Em ambos os casos, não houve uso de armas de fogo, sequer de uma cartucheira.
Verdade é que, se servem para tirar vidas, essas armas são também um válido e necessário instrumento de defesa. Em mãos equilibradas, elas contribuem para que os bandidos não se sintam tão à vontade para assaltar pessoas, residências, estabelecimentos comerciais, motoristas e passageiros, pois sabem que poderão ser confrontados à altura.
O modo como os norte-americanos encaram o problema pode ter seus pontos negativos. Afinal, dificilmente há algum estilo de conduta isento de falhas. Mas é inegável ele repercute em todo o mundo, especialmente em países como o Brasil, onde vigora um Estatuto do Desarmamento dos mais rigorosos, mesmo contra a vontade popular

Nos dias atuais, diante da violência urbana que tanto aflige as pessoas de bem, impõe-se, quando nada, uma reflexão sobre a necessidade de flexibilizar a legislação que trata do assunto. Não é possível assistir a um cenário onde os bandidos se mostram cada vez mais bem armados, enquanto a sociedade, sob a égide de leis fora de contexto, se sente cada vez mais oprimida. Se a vida é um direito fundamental, o Estado não pode impedir ela seja defendida.

- Diário do Rio Doce - 12.07.2017 

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

FUSO CONTROVERSO

Por Etelmar Loureiro

            Desde a sua efetivação, o horário de verão tem gerado polêmica entre os brasileiros. Se alguns o apreciam, outros se dividem entre os que não gostam, os que detestam e os que abominam sua existência. Há ainda os que aplaudem sua chegada, apenas para sentir o prazer de festejar seu término.
            Instituído em 1931, pelo então presidente Getúlio Vargas, houve períodos em que ele não foi adotado. Após l985, entretanto, firmou-se, nos estados brasileiros do Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
            Em linhas gerais, o programa consiste em adiantar em uma hora os relógios, para economizar energia elétrica. Sua duração é de outubro a fevereiro do ano seguinte.
            No verão, o consumo se eleva, sobretudo em torno das 18 horas. É quando, de volta a aos seus lares, as pessoas ligam luzes, chuveiros e aparelhos eletrodomésticos, no momento em que também a iluminação pública é acionada. Esse súbito aumento da demanda pode desestabilizar o sistema elétrico. Com a iluminação natural ainda presente, a mudança de horário contribui para que a ativação das luzes de rua seja retardada e não coincida com a chegada dos trabalhadores em casa.  Assim, o aumento da demanda se dá de forma mais gradual, melhorando a segurança do sistema. A explicação é do Operador Nacional do Sistema (ONS), responsável por essa área
            Satisfeito, ou não, o povo, assimilou o processo. Mas sempre questiona a relação custo/benefício entre a economia de energia obtida e os transtornos que isso acarreta.
            Passados muitos anos, recente estudo do ONS e do Ministério de Minas e Energia concluiu que o horário de verão traz efeitos “próximos à neutralidade” no consumo de eletricidade. Ou seja, o programa perdeu a razão de ser.
Em termos financeiros, ele também não se justifica. Qualquer economia de milhões seria irrisória, comparada aos prejuízos que a Eletrobrás tem sofrido nos últimos tempos, por má gestão e muita roubalheira. Só no governo de Dilma Rousseff, R$ 31 bilhões foram pro ralo.
      Numa aparente tentativa de desviar as atenções hoje voltadas para as graves denúncias que pesam sobre alguns de seus principais integrantes, o governo anunciou estudos voltados para a abolição o programa. Falou até numa inusitada enquete nas redes sociais, para deliberar sobre o assunto.
Mas tudo não passou de alarme falso.  O fogo de palha apenas atiçou as opiniões contrárias ao programa, fartamente postadas nos sites de relacionamento. O governo decidiu manter o esquema, pelo menos neste ano. Na avaliação de ministros de Estado e de líderes da base aliada, corroborada por Michel Temer, o horário de verão já se incorporou à cultura do brasileiro. Encerrá-lo poderia causar desgastes desnecessários para o Planalto.
Embora haja promessas nesse sentido, é improvável que tema volte a ser discutido pela atual administração, que se despede no próximo ano. Mas, independentemente de quem o faça, e de quando isso aconteça, seria de considerar que o Brasil se situa numa área tropical onde a duração dos dias e as temperaturas não variam muito durante o ano. Por isso, independente de rótulo, seria interessante estabelecer-se um horário válido para os doze meses, facilitando que as pessoas a ele se adaptem definitivamente, sem os transtornos biológicos de que hoje são vítimas no começo e no fim de simples temporadas.

Fato é que o novo horário estará em vigor a partir do próximo dia 15, e com ele teremos de conviver até 18 de fevereiro do ano que vem. O consolo está em um velho ditado, segundo o qual “Deus ajuda quem cedo madruga”. Que seja verdade!  

- Diário do Rio Doce - 28.09.2017

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

FUNDO SEM FUNDO

Por Etelmar Loureiro

            Não bastasse o desgaste a que têm sido expostos, fazendo “mágicas” para segurar a barra do Executivo, os deputados federais estão em apuros para aprovar duas propostas de reforma política que se acham sob sua apreciação.  Não está fácil! Primeiro, porque precisam passar a idéia de que estão empenhados em um trabalho sério, isento de corporativismos e voltado exclusivamente para os interesses do povo. Depois, porque, na medida do possível, o resultado desse trabalho não deve acarretar prejuízos aos grandes partidos, nem colocar em risco a preservação das dinastias que sempre dominaram a política nacional. Em outras palavras, precisam fazer uma omelete, sem quebrar os ovos. Como agravante, para que as mudanças possam valer nas eleições do ano que vem, deverão ser aprovadas por no mínimo dois terços dos deputados, em dois turnos, e obter o aval do Senado, até o início do mês que vem.
            No bojo dessas reformas, um dos pontos mais polêmicos é a formação de um bilionário Fundo sem fundo, destinado a bancar as campanhas políticas. Nos termos propostos, ele absorveria 0,5% da receita corrente líquida do governo em 12 meses, o que, em 2018, seria algo em torno de R$ 3,6 bilhões. Dessa forma, o Brasil passaria a dar dupla assistência financeira a seus partidos: a regular, representada pelo já existente Fundo Partidário constitucional, e a do apelidado “Fundão”, que se quer aprovar.
            Sob pressão popular, os deputados optaram por manter essa ajuda no texto da PEC em discussão, mas sem definir parâmetros. O valor dos recursos públicos destinados a campanhas seria arbitrado pelo Congresso, na proposta orçamentária do ano anterior ao da eleição.
            O Fundo segue flutuando, mas precisa ser “afundado”.
            Da forma indecorosa como tem procedido, cometendo e convalidando erros que prejudicam e afrontam toda a nação, a maioria dos nossos políticos não está merecendo nem uma mínima parte dos muitos benefícios que já recebe.
            No Brasil, a política há muito se tornou uma concorrida e regiamente remunerada profissão. Os que nela conseguem ingressar, além de altos salários, são contemplados com apartamento funcional ou auxílio moradia, plano de saúde, passagens aéreas, verbas para contratar dezenas de apadrinhados, e as muitas outras regalias que todos conhecem. Nada mais justo, pois, que também arquem com os gastos exigidos para se chegar a essa condição, como fazem o médico, o engenheiro, o advogado, o dentista e tantos outros profissionais.  O ingresso na carreira política é opcional. Para fazê-lo, além da vocação, é importante conscientizar-se de que “quem não tem competência, não se estabelece”.
            Sob esse raciocínio, a ajuda financeira para as campanhas políticas deveria vir de um fundo constituído pelos próprios políticos e seus partidos, mediante desconto de determinado percentual do elevado montante que recebem. Mais do que isso, só a contribuição voluntária, delimitada e rigorosamente controlada dos correligionários. Trocando em miúdos, a ascensão à carreira política aconteceria sob um justo processo de retroalimentação, em que os que já chegaram ajudariam os que querem chegar, sem sacrificar o cidadão, eterno contribuinte, que nada tem a ver com o processo. Disso resultaria um cenário político bem mais enxuto, equilibrado e autêntico, quem sabe menos ilegítimo e desonesto, pois seus protagonistas, sentindo no bolso o preço do mandato, seriam mais responsáveis e éticos no modo de exercê-lo. Nesse novo contexto, a sociedade, sem a obrigação bancar interesses alheios, talvez pudesse devolver aos políticos o respeito e o apreço com que sonham, ou dizem sonhar, mesmo nada fazendo para merecê-los nos dias atuais. A ilusão ainda é livre, e isenta de imposto.


- Diário do Rio Doce – 14.09.2017

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

O DOM DE DOM PELÉ

Por Etelmar Loureiro

É provável, e até certo ponto compreensível, que os valadarenses das gerações mais recentes pouco se lembrem do padre José Maria Pires. Mas os remanescentes dos que aqui viveram entre 1945 e 1955, não importa onde estejam, certamente guardam muitas e boas recordações dessa fantástica figura, que em Governador Valadares deixou um legado de simpatia, humildade e amor ao próximo, sobretudo aos mais humildes. Era também emérito e competente educador, talento revelado à frente do Ginásio Ibituruna.
Naquela época, em sua peregrinação pastoral, padre Zé Maria, como popularmente aqui o chamavam, era sempre visto de batina preta, pedalando sua bicicleta pelas ruas ainda empoeiradas da cidade, distribuindo sorrisos e acenos. Parava para dar santinhos a adultos e crianças, para papear com os moradores que outrora se sentavam nas calçadas residenciais, ou para auxiliar os que estivessem desamparados nas vias públicas.
A maneira lúcida, inteligente e equilibrada de conciliar os ensinamentos religiosos com as realidades do mundo, aliada à ótima oratória e a uma eximia forma de se comunicar, faziam dele um sábio conselheiro. As missas que celebrava eram repletas de fiéis ávidos pelos seus sermões.
A última demonstração de apreço para com Valadares ele deu recentemente, quando, em Belo Horizonte, já com 98 anos, rezou a missa de sétimo dia por alma do valadarense e ex-deputado estadual Matosinhos de Castro Pinto, ilustre filho de tradicional família local, da qual era muito amigo. Foi dele a homilia que, como sempre, a todos sensibilizou.
Padre Zé Maria nasceu aos 15.11.1919, em Córregos, Conceição do Mato Dentro (MG), onde, com seus pais e nove irmãos, viveu a infância e parte da adolescência. Além do que fez por Valadares, sua biografia mostra que ele se desincumbiu de várias outras nobres missões, antes ser nomeado arcebispo da Paraíba, condição em que se manteve por quase três décadas.
Oriundo de uma área carente do Vale do Jequitinhonha, enfrentou muito preconceito, por ser mulato e de origem social humilde. Sua história, entretanto, é repleta de fatos que, por mérito e justiça, premiaram a grandiosidade de seu jeito de ser. Teve momentos de convivência com cinco papas, foi companheiro de infância de JK, contemporâneo e amigo de dom Paulo Evaristo Arns, de dom Ivo Lorscheiter, de dom Aloísio Lorscheider e de outras tantas figuras que se opuseram aos governos militares. Marcante foi sua amizade fraterna com dom Helder Câmara, arcebispo emérito de Olinda e Recife, que, por coincidência, também faleceu num 27 de agosto (1999).
O escritor Roberto Ribeiro conta que o codinome Dom Pelé surgiu por volta de 1962, tempo de Copa do Mundo, quando o craque Pelé, no auge da fama, marcava gols em profusão, jogo após jogo. Nessa ocasião, um encontro de bispos acontecia em Curitiba. Reunido o plenário, faltavam o mulato dom José Maria, de Araçuaí, e o gordo dom José Vicente Távora, de Aracaju, atrasados, por algum motivo. Quando os retardatários apareceram, um bispo brincalhão exclamou: "Agora podemos começar a reunião. Finalmente, estão chegando o Pelé e o Feola!” Nem por isso o bispo dom Vicente tornou-se dom Feola. Mas dom José ganhou o carinhoso apelido de dom Pelé, e assim passou a ser chamado pelos colegas, nos demais encontros da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil.
Na nota que emitiu sobre a morte de José Maria Pires, a CNBB enfatizou que “a fidelidade à Igreja e a corajosa posição em favor dos mais desamparados sempre marcaram passo a passo sua caminhada”. 
            Como a eternidade não espera, Dom Pelé foi a seu encontro, no último domingo, 27, na capital mineira, onde tratava de uma pneumonia. Bispo mais idoso do Brasil, pode ter achado que 98 anos de vida estavam de bom tamanho.
            Partiu, deixando, para quem quiser, a ostentação, as vaidades, os caprichos, o egoísmo, a ganância e os bens materiais, pelos quais nunca se deixou seduzir. Foi de mãos vazias, como em vida as manteve.
            No imaginário coração espiritual, certamente levou a intenção de interceder pelos humildes, os pobres, os enfermos, os oprimidos e todos os infelizes que o ajudaram cumprir com brilhantismo a sua missão terrestre.
            Carismático, o padre José Maria Pires tinha o dom de ter dons, e o exerceu na sua plenitude.

            Para nós, seus eternos e incontáveis admiradores, deixou preciosas lições, valiosos ensinamentos e uma imensa saudade, que dói.

- Diário do Rio Doce - 31.08.2017

domingo, 9 de julho de 2017

POR UM TRIZ

            Houve tempo em que o brasileiro depositava mais fé em dias melhores, em progresso e até em salvação da pátria. Época em que instituições sérias e gente de valor mantinham acesa a chama propulsora dessa crença. Mesmo nos momentos adversos, existia algo ou alguém em que se pudesse apegar. Os três poderes constituídos se valorizavam e se respeitavam mais. Caso um deles falhasse ou exorbitasse os limites em suas ações, era improvável o que o erro passasse pelo crivo dos demais. Uma decisão imperfeita do Legislativo, por exemplo, dificilmente seria aceita pelo Executivo, e vice-versa. Se o fosse, o Judiciário se incumbiria de colocar as coisas nos seus devidos lugares.
Fato é que os homens e as instituições de outrora agiam com mais discernimento, mais retidão, mais independência e, sobretudo, mais consciência de seus deveres.
            O triste cenário que agora vemos confirma essa metamorfose, que a cada dia se torna mais escancarada e cruel. Mergulhado numa corrupção sistêmica e congênita, o Brasil assiste à decadência de um modelo camuflado de democracia. E isso acontece sob o olhar perplexo e decepcionado de um povo que nele depositou esperanças de um presente tranquilo e um futuro feliz.
            Seduzidos pela ambição de poder e pelo amor ao dinheiro, muitos políticos, graduados agentes de governo e renomados empresários se envolveram num sórdido esquema criminoso. Tornaram-se bandidos de fraque.  Um processo vergonhoso, capaz de provocar inveja nas mais competentes e célebres organizações criminosas.
            Mesmo imune a decepções do gênero, a nação, a cada momento, se defronta com notícias bombásticas, dando conta de novos e inimagináveis delitos. O desapontamento, quando muito, se restringe à implicação de mais figurões que, até então, posavam de incorruptos, com ares de “acima de quaisquer suspeitas”.
            Na mira ou já nas garras da lei, estão deputados, senadores, empresários, ex-ministros, governantes e ex-governantes de todos os níveis, inclusive o atual e os dois últimos ocupantes da Presidência da República. Sinal de que, pelo menos em alguma instância, nossa justiça tem mostrado serviço.
            Talvez não houvesse explicação para tanta desesperança, se os poderes constituídos agissem com a lisura, a isenção e a autonomia que deles se espera. Mas não o fazem. Os conluios e as interferências recíprocas são recorrentes nas suas decisões, em que a troca de interesses tem sido o algoz da ética, do bom senso e da legalidade. Basta notar que o relacionamento entre Executivo e Legislativo é quase todo mantido à base do “é dando que se recebe”. Agir por ideologia, nem pensar.
O julgamento da chapa Dilma-Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral, com um resultado inteiramente contrário às evidências e aos anseios populares, mostrou que nem mesmo do Judiciário convém esperar grandes decisões corretivas. Ali ficou outra vez patente que os magistrados não podem – ou não devem – ser recomendados pelo chefe do Executivo, a bem da própria Justiça, pois isso compromete a credibilidade dos integrantes da Corte. Na ocasião, os indicados de Michel Temer foram decisivos para evitar que ele perdesse seu mandato. Mais pareciam advogados de defesa do que magistrados. Segundo os entendidos, isso está entre os fatores que influíram para que os acusados fossem absolvidos, por excesso de provas contra si.

           Coisa ruim é arquivar perspectivas e jogar a toalha, pressentindo não haver mais jeito. Quando a situação chega a esse ponto, costuma-se buscar alento na velha máxima que garante ser a esperança a última que morre. O detalhe é que a esperança brasileira está por um triz, já na UTI. Faz companhia à paciência e à tolerância, que também lá exalam seus últimos suspiros. Complicado, né?!

- Revista "Mais Mais PERFIL" - edição de junho/2017

terça-feira, 30 de maio de 2017

PEGOU MAL ...

Segundo o noticiário, a inusitada nomeação de Torquato Jardim para ministro da Justiça aconteceu pela sua fiel amizade com presidente Michel Temer, mas também em razão do bom trânsito que ele tem no Judiciário. Estando Temer prestes a ser julgado pelo Tribunal Superior Eleitoral, com risco de perder o mandato, essas justificativas, se procedentes, deixam os ministros daquela Casa em posição desconfortável. Dão margem à imaginação de que eles seriam sensíveis a pressões e influências externas. É esperar, pra ver!

- Exclusivo para o Blog

sábado, 13 de maio de 2017

NO DIA DAS MÃES, VALE A ALMA MATERNA

Por Etelmar Loureiro

Mãe, palavra mágica, de múltiplos significados. Sobre ser a regalia de dar à luz uma criança, mãe é sinônimo de tolerância, sabedoria, ensinamento, paciência, renúncia, sacrifício, desapego e tudo mais que signifique amor. Virtudes que também são próprias das pessoas que cultivam bons sentimentos. Entre essas, a mãe adotiva, a avó, a tia, a velha governanta, a babá, a professora, a médica, a enfermeira, a policial e tantas outras mulheres que, mesmo sem a experiência da concepção,  têm alma materna.  Sem esquecer os homens que, para seus filhos, são verdadeiras mães.

Um brinde, a todas e a todos que, de alguma forma, praticam o amor maternal. 

(exclusivo para o blog)

quinta-feira, 27 de abril de 2017

DÍVIDA MALÍGNA


Por Etelmar Loureiro

Apesar dos tênues sinais de recuperação que o governo tenta potencializar, o Brasil permanece sob os efeitos de uma inédita recessão econômica.
Na análise técnica, o fenômeno reflete um período de retração geral na atividade econômica, com queda nos níveis de produção e investimento, aumento do desemprego, diminuição na renda familiar, redução na taxa de lucro, elevação do número de falências e concordatas, avanço da capacidade ociosa e outros lamentáveis efeitos. Regra geral, uma economia entra em recessão após dois trimestres contínuos de queda no PIB. No caso brasileiro, esse indicador encolheu por dois anos consecutivos.  
Em maior ou menor escala, a crise tem afetado a indústria, o comércio, a prestação de serviços e todos os demais segmentos econômicos. Observadores mais argutos garantem que nem mesmo o jogo do bicho, o tráfico de drogas e o comércio do sexo foram poupados. Tá todo mundo “na pior”!
Para Henrique Meirelles, ministro da Fazenda, esse descalabro “é o resultado de uma série de políticas que levaram a economia brasileira a enfrentar a maior crise de sua história”. Diante desse panorama, ele admite haver indícios de que “será inevitável” mexer na carga tributária para cobrir o rombo orçamentário.
Essa infeliz insinuação de mais impostos provocou enérgicas reações contrárias, inclusive da Ordem dos Advogados do Brasil. Segundo Claudio Lamachia, presidente da entidade, a OAB está pronta para combater, com todos os meios disponíveis, “quaisquer iniciativas que tenham como objetivo impor mais prejuízos aos cidadãos, que não aguentam mais ver a renda corroída pela absurda carga tributária do país”.
Exausto de tanto ser explorado, o brasileiro vive buscando outras explicações e justificativas para esse desastroso estado de coisas.
            Atribui-se ao marqueteiro Nizan Guanaes a autoria da expressão “enquanto eles choram, eu vendo lenços”. Ela bem repercute a atual temporada, em que não faltam oportunistas aptos a tirar proveito da situação. Um exemplo são os bancos, que têm andado na contramão da realidade brasileira. Enquanto esse segmento está “bamburrando”, nossa economia se afunda, pressionada por falta de crescimento, empresas subumbindo ou trabalhando no vermelho, desemprego crescente e pessoas em dificuldade financeira. Pelos balanços relativos a 2016, os quatro maiores bancos brasileiros (Itaú, Bradesco, BB e Santander) lucraram, em conjunto, algo em torno de R$ 52 bilhões. Tá bom, ou quer mais?
            São muitas as razões para que esses formidáveis resultados aconteçam. Uma delas, pacificada entre os analistas, são os altissimos juros rendidos pela dívida pública, essa crescente bola de neve que consome enorme parcela do que o governo arrecada. Ou seja, o dinheiro do contribuinte está sendo usado para alimentar o lucro bilionário dos bancos.
            O peso dessa dívida e a caixa preta que a envolve têm sido objeto de questionamento, no instante em que se busca o equilíbrio das contas públicas, à custa de maiores sacrifícios do povo. A opinião geral é que, antes de mexer na aposentadoria e em outros direitos do cidadão, o governo tem a obrigação de enxugar sua escorchante dívida pública.

            Afinal  - diria o famoso Guanaes -, não há como admitir que os banqueiros continuem “vendendo lenços”, com lucros astronômicos, enquanto a sociedade, chorando enormes prejuízos, é condenada a pagar a conta. Mais do que injustiça, é muita sacanagem!

- Revista "Mais Mais PERFIL" de abril 2017

domingo, 1 de janeiro de 2017

A ARTE DA PARTILHA
Por Etelmar Loureiro

            Dividir não é fácil. Onde quer que a tarefa se imponha, ela requer habilidade, bom senso e espírito de justiça.
            Nada a ver com a repartição de pães de que falam os cristãos, nem com a divisão de bolos de aniversários, tampouco com o rateio de queijos. Nesses casos, com menores interesses em jogo, a partilha é geralmente tranquila e bem aceita. Ainda assim, costuma surgir um chato que se considera injustiçado, reclamando que outros foram mais bem aquinhoados.
            Nos meios socioeconômicos, a coisa já muda de figura. O conflito de interesses é comum entre seus participantes, nas horas de demarcar áreas de atuação e de avaliar resultados. A ganância de uns sempre se confronta com a ambição de outros.
            Mas é no mundo político que tudo se complica, e muito!
            No afã de se elegerem, os políticos fazem qualquer acordo ou negócio, com quem quer que seja. Se bobear, até com o demônio! Por sua vez, também em busca de vitória, seus partidos estabelecem alianças sustentadas em compromissos a serem honrados, se o candidato da coligação for eleito.
No início, tudo parecia legítimo e salutar. A proliferação das legendas, entretanto, converteu essas confrarias em um imenso balcão de negócios, destinado a ganhar mais espaço nos horários políticos da mídia, além de assegurar nomeações para cargos de relevância em órgãos ou empresas públicas, afora outras benesses menos ortodoxas.
Ao longo do tempo, essas alianças têm sido determinantes na reversão de cenários políticos. Basta recordar que, enquanto agiu sozinho, o PT jamais ganhou eleições. Para eleger Lula, bastou se aliar a uma legenda de extrema direita, o Partido Liberal, do já falecido senador José de Alencar. Da mesma forma, para colocar Dilma Rousseff no Planalto, não precisou mais do que se unir ao PMDB. E se manteve no poder, por longos 13 anos, graças a outras alianças esdrúxulas, que sempre se mantiveram na base do “é dando que se recebe”.
            Essa autêntica orgia política tornou-se corriqueira, tanto nas eleições majoritárias, quanto nas proporcionais. Expõe o comportamento fisiologista de legendas que se dispõem a apoiar qualquer chapa, independentemente de se alinharem em torno de ideologias ou programas, com o único objetivo de obter vantagens. Um pernicioso troca-troca de interesses, operado em clima de explícita promiscuidade.
            Tal fenômeno poderá complicar a vida dos vencedores das últimas eleições municipais, em torno dos quais se uniu um amontoado de partidos que perderam o rumo após a derrocada do PT. Em Valadares, por exemplo, nada menos de 24 legendas se juntaram para eleger o novo prefeito, André Merlo, fato inédito na história política da cidade. Uns mais, outros menos, todos devem estar de olho, quando nada, numa boa fatia do bolo que ajudaram a confeitar.
            Há fortes indícios de que essas famigeradas coligações estejam com os dias contados. Uma PEC que prevê o seu fim eleitoral, já aprovada pelo Senado, depende apenas de ser referendada pela Câmara Federal.
            Enquanto isso não acontece, é bom que os atuais e futuros administradores públicos se conscientizem de que os tempos mudaram. Na atualidade, mais do que antes, é preciso que eles consigam harmonizar o dividir com o multiplicar. É fundamental que só repartam seus mandatos com auxiliares e parceiros eficazes, eficientes, sérios e corretos, capazes de contribuir para a multiplicação de resultados. Nada de se amarrar com amigos, parentes, apadrinhados e aliados oportunistas, que só causam transtornos e aborrecimentos.
Trocando em miúdos, compartilhar o poder, com prudência e sabedoria, é multiplicar as chances de nunca compartilhar a cela. Uma arte, com certeza!

- Revista "Mais Mais PERFIL" - dezembro/2017