quinta-feira, 12 de outubro de 2017

O DESARMAMENTO NO BANCO DOS RÉUS

Por Etelmar Loureiro

            Certos debates, alguns polêmicos e palpitantes, são episódicos. Abrem-se apenas diante das tragédias que os tiram do esquecimento. Parece até que só existem para iludir a opinião pública e tentar explicar o inexplicável. A matança recentemente acontecida em Las Vegas confirma essa tese. Um atirador solitário executou o maior ataque a tiros da história dos Estados Unidos. A ação rendeu 59 mortos, inclusive o seu responsável, que se matou em seguida, e mais de 500 feridos. Aconteceu durante um festival de música country, assistido por cerca de 22 mil pessoas. No local de onde foram feitos os disparos, a polícia encontrou um verdadeiro arsenal de armas e munições. O autor do massacre, Stephen Paddock, 64 anos, era um inveterado jogador de pôquer, que, segundo as investigações, se tratava à base de ansiolíticos.
            Além de provocar uma grande comoção nacional, o atentado reabriu o debate sobre o controle de armas nos EUA.  O mesmo tema que já provocou intensas e infrutíferas discussões, quando de anteriores tragédias do gênero, tão recorrentes naquele país. Mas não é fácil chegar a um consenso sobre o assunto. Pra começar, a posse de armas é um direito que a chamada segunda emenda à Constituição assegura a todos os estadunidenses. As pesquisas revelam que a maioria deles acredita ser mais importante resguardar do que limitar essa prerrogativa. Mostram também que mais da metade da população se sente mais protegida com um revólver em casa. Dois terços dos norte-americanos são contra o controle das armas. Há ainda o lado político da questão, já que o Republicano, partido do hoje presidente Donald Trump, tem sido majoritário na rejeição a qualquer medida tendente a mudar as regras atuais.
            Na consciência ianque – que nesse ponto não difere muito das demais –, parece que o problema não é preponderantemente o revólver, o fuzil ou a metralhadora, mas a mente criminosa do indivíduo que aciona o gatilho. Quem quer assassinar não depende só desses artefatos. O mundo dispõe de armas químicas, explosivos, veículos motorizados, homens-bombas, combustíveis e outros recursos igualmente letais. Basta lembrar o atropelamento em massa acontecido em Barcelona, em agosto passado, quando uma van, dirigida por um terrorista marroquino, foi lançada sobre centenas de pessoas, deixando vários mortos e feridos. Outro exemplo é a tragédia que acaba de ocorrer na cidade mineira de Janaúba, onde o vigilante noturno de uma creche, utilizando-se de gasolina, ateou fogo em si mesmo, em uma professora e em várias crianças, causando mais de uma dezena de mortes. Em ambos os casos, não houve uso de armas de fogo, sequer de uma cartucheira.
Verdade é que, se servem para tirar vidas, essas armas são também um válido e necessário instrumento de defesa. Em mãos equilibradas, elas contribuem para que os bandidos não se sintam tão à vontade para assaltar pessoas, residências, estabelecimentos comerciais, motoristas e passageiros, pois sabem que poderão ser confrontados à altura.
O modo como os norte-americanos encaram o problema pode ter seus pontos negativos. Afinal, dificilmente há algum estilo de conduta isento de falhas. Mas é inegável ele repercute em todo o mundo, especialmente em países como o Brasil, onde vigora um Estatuto do Desarmamento dos mais rigorosos, mesmo contra a vontade popular

Nos dias atuais, diante da violência urbana que tanto aflige as pessoas de bem, impõe-se, quando nada, uma reflexão sobre a necessidade de flexibilizar a legislação que trata do assunto. Não é possível assistir a um cenário onde os bandidos se mostram cada vez mais bem armados, enquanto a sociedade, sob a égide de leis fora de contexto, se sente cada vez mais oprimida. Se a vida é um direito fundamental, o Estado não pode impedir ela seja defendida.

- Diário do Rio Doce - 12.07.2017 

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

FUSO CONTROVERSO

Por Etelmar Loureiro

            Desde a sua efetivação, o horário de verão tem gerado polêmica entre os brasileiros. Se alguns o apreciam, outros se dividem entre os que não gostam, os que detestam e os que abominam sua existência. Há ainda os que aplaudem sua chegada, apenas para sentir o prazer de festejar seu término.
            Instituído em 1931, pelo então presidente Getúlio Vargas, houve períodos em que ele não foi adotado. Após l985, entretanto, firmou-se, nos estados brasileiros do Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
            Em linhas gerais, o programa consiste em adiantar em uma hora os relógios, para economizar energia elétrica. Sua duração é de outubro a fevereiro do ano seguinte.
            No verão, o consumo se eleva, sobretudo em torno das 18 horas. É quando, de volta a aos seus lares, as pessoas ligam luzes, chuveiros e aparelhos eletrodomésticos, no momento em que também a iluminação pública é acionada. Esse súbito aumento da demanda pode desestabilizar o sistema elétrico. Com a iluminação natural ainda presente, a mudança de horário contribui para que a ativação das luzes de rua seja retardada e não coincida com a chegada dos trabalhadores em casa.  Assim, o aumento da demanda se dá de forma mais gradual, melhorando a segurança do sistema. A explicação é do Operador Nacional do Sistema (ONS), responsável por essa área
            Satisfeito, ou não, o povo, assimilou o processo. Mas sempre questiona a relação custo/benefício entre a economia de energia obtida e os transtornos que isso acarreta.
            Passados muitos anos, recente estudo do ONS e do Ministério de Minas e Energia concluiu que o horário de verão traz efeitos “próximos à neutralidade” no consumo de eletricidade. Ou seja, o programa perdeu a razão de ser.
Em termos financeiros, ele também não se justifica. Qualquer economia de milhões seria irrisória, comparada aos prejuízos que a Eletrobrás tem sofrido nos últimos tempos, por má gestão e muita roubalheira. Só no governo de Dilma Rousseff, R$ 31 bilhões foram pro ralo.
      Numa aparente tentativa de desviar as atenções hoje voltadas para as graves denúncias que pesam sobre alguns de seus principais integrantes, o governo anunciou estudos voltados para a abolição o programa. Falou até numa inusitada enquete nas redes sociais, para deliberar sobre o assunto.
Mas tudo não passou de alarme falso.  O fogo de palha apenas atiçou as opiniões contrárias ao programa, fartamente postadas nos sites de relacionamento. O governo decidiu manter o esquema, pelo menos neste ano. Na avaliação de ministros de Estado e de líderes da base aliada, corroborada por Michel Temer, o horário de verão já se incorporou à cultura do brasileiro. Encerrá-lo poderia causar desgastes desnecessários para o Planalto.
Embora haja promessas nesse sentido, é improvável que tema volte a ser discutido pela atual administração, que se despede no próximo ano. Mas, independentemente de quem o faça, e de quando isso aconteça, seria de considerar que o Brasil se situa numa área tropical onde a duração dos dias e as temperaturas não variam muito durante o ano. Por isso, independente de rótulo, seria interessante estabelecer-se um horário válido para os doze meses, facilitando que as pessoas a ele se adaptem definitivamente, sem os transtornos biológicos de que hoje são vítimas no começo e no fim de simples temporadas.

Fato é que o novo horário estará em vigor a partir do próximo dia 15, e com ele teremos de conviver até 18 de fevereiro do ano que vem. O consolo está em um velho ditado, segundo o qual “Deus ajuda quem cedo madruga”. Que seja verdade!  

- Diário do Rio Doce - 28.09.2017

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

FUNDO SEM FUNDO

Por Etelmar Loureiro

            Não bastasse o desgaste a que têm sido expostos, fazendo “mágicas” para segurar a barra do Executivo, os deputados federais estão em apuros para aprovar duas propostas de reforma política que se acham sob sua apreciação.  Não está fácil! Primeiro, porque precisam passar a idéia de que estão empenhados em um trabalho sério, isento de corporativismos e voltado exclusivamente para os interesses do povo. Depois, porque, na medida do possível, o resultado desse trabalho não deve acarretar prejuízos aos grandes partidos, nem colocar em risco a preservação das dinastias que sempre dominaram a política nacional. Em outras palavras, precisam fazer uma omelete, sem quebrar os ovos. Como agravante, para que as mudanças possam valer nas eleições do ano que vem, deverão ser aprovadas por no mínimo dois terços dos deputados, em dois turnos, e obter o aval do Senado, até o início do mês que vem.
            No bojo dessas reformas, um dos pontos mais polêmicos é a formação de um bilionário Fundo sem fundo, destinado a bancar as campanhas políticas. Nos termos propostos, ele absorveria 0,5% da receita corrente líquida do governo em 12 meses, o que, em 2018, seria algo em torno de R$ 3,6 bilhões. Dessa forma, o Brasil passaria a dar dupla assistência financeira a seus partidos: a regular, representada pelo já existente Fundo Partidário constitucional, e a do apelidado “Fundão”, que se quer aprovar.
            Sob pressão popular, os deputados optaram por manter essa ajuda no texto da PEC em discussão, mas sem definir parâmetros. O valor dos recursos públicos destinados a campanhas seria arbitrado pelo Congresso, na proposta orçamentária do ano anterior ao da eleição.
            O Fundo segue flutuando, mas precisa ser “afundado”.
            Da forma indecorosa como tem procedido, cometendo e convalidando erros que prejudicam e afrontam toda a nação, a maioria dos nossos políticos não está merecendo nem uma mínima parte dos muitos benefícios que já recebe.
            No Brasil, a política há muito se tornou uma concorrida e regiamente remunerada profissão. Os que nela conseguem ingressar, além de altos salários, são contemplados com apartamento funcional ou auxílio moradia, plano de saúde, passagens aéreas, verbas para contratar dezenas de apadrinhados, e as muitas outras regalias que todos conhecem. Nada mais justo, pois, que também arquem com os gastos exigidos para se chegar a essa condição, como fazem o médico, o engenheiro, o advogado, o dentista e tantos outros profissionais.  O ingresso na carreira política é opcional. Para fazê-lo, além da vocação, é importante conscientizar-se de que “quem não tem competência, não se estabelece”.
            Sob esse raciocínio, a ajuda financeira para as campanhas políticas deveria vir de um fundo constituído pelos próprios políticos e seus partidos, mediante desconto de determinado percentual do elevado montante que recebem. Mais do que isso, só a contribuição voluntária, delimitada e rigorosamente controlada dos correligionários. Trocando em miúdos, a ascensão à carreira política aconteceria sob um justo processo de retroalimentação, em que os que já chegaram ajudariam os que querem chegar, sem sacrificar o cidadão, eterno contribuinte, que nada tem a ver com o processo. Disso resultaria um cenário político bem mais enxuto, equilibrado e autêntico, quem sabe menos ilegítimo e desonesto, pois seus protagonistas, sentindo no bolso o preço do mandato, seriam mais responsáveis e éticos no modo de exercê-lo. Nesse novo contexto, a sociedade, sem a obrigação bancar interesses alheios, talvez pudesse devolver aos políticos o respeito e o apreço com que sonham, ou dizem sonhar, mesmo nada fazendo para merecê-los nos dias atuais. A ilusão ainda é livre, e isenta de imposto.


- Diário do Rio Doce – 14.09.2017

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

O DOM DE DOM PELÉ

Por Etelmar Loureiro

É provável, e até certo ponto compreensível, que os valadarenses das gerações mais recentes pouco se lembrem do padre José Maria Pires. Mas os remanescentes dos que aqui viveram entre 1945 e 1955, não importa onde estejam, certamente guardam muitas e boas recordações dessa fantástica figura, que em Governador Valadares deixou um legado de simpatia, humildade e amor ao próximo, sobretudo aos mais humildes. Era também emérito e competente educador, talento revelado à frente do Ginásio Ibituruna.
Naquela época, em sua peregrinação pastoral, padre Zé Maria, como popularmente aqui o chamavam, era sempre visto de batina preta, pedalando sua bicicleta pelas ruas ainda empoeiradas da cidade, distribuindo sorrisos e acenos. Parava para dar santinhos a adultos e crianças, para papear com os moradores que outrora se sentavam nas calçadas residenciais, ou para auxiliar os que estivessem desamparados nas vias públicas.
A maneira lúcida, inteligente e equilibrada de conciliar os ensinamentos religiosos com as realidades do mundo, aliada à ótima oratória e a uma eximia forma de se comunicar, faziam dele um sábio conselheiro. As missas que celebrava eram repletas de fiéis ávidos pelos seus sermões.
A última demonstração de apreço para com Valadares ele deu recentemente, quando, em Belo Horizonte, já com 98 anos, rezou a missa de sétimo dia por alma do valadarense e ex-deputado estadual Matosinhos de Castro Pinto, ilustre filho de tradicional família local, da qual era muito amigo. Foi dele a homilia que, como sempre, a todos sensibilizou.
Padre Zé Maria nasceu aos 15.11.1919, em Córregos, Conceição do Mato Dentro (MG), onde, com seus pais e nove irmãos, viveu a infância e parte da adolescência. Além do que fez por Valadares, sua biografia mostra que ele se desincumbiu de várias outras nobres missões, antes ser nomeado arcebispo da Paraíba, condição em que se manteve por quase três décadas.
Oriundo de uma área carente do Vale do Jequitinhonha, enfrentou muito preconceito, por ser mulato e de origem social humilde. Sua história, entretanto, é repleta de fatos que, por mérito e justiça, premiaram a grandiosidade de seu jeito de ser. Teve momentos de convivência com cinco papas, foi companheiro de infância de JK, contemporâneo e amigo de dom Paulo Evaristo Arns, de dom Ivo Lorscheiter, de dom Aloísio Lorscheider e de outras tantas figuras que se opuseram aos governos militares. Marcante foi sua amizade fraterna com dom Helder Câmara, arcebispo emérito de Olinda e Recife, que, por coincidência, também faleceu num 27 de agosto (1999).
O escritor Roberto Ribeiro conta que o codinome Dom Pelé surgiu por volta de 1962, tempo de Copa do Mundo, quando o craque Pelé, no auge da fama, marcava gols em profusão, jogo após jogo. Nessa ocasião, um encontro de bispos acontecia em Curitiba. Reunido o plenário, faltavam o mulato dom José Maria, de Araçuaí, e o gordo dom José Vicente Távora, de Aracaju, atrasados, por algum motivo. Quando os retardatários apareceram, um bispo brincalhão exclamou: "Agora podemos começar a reunião. Finalmente, estão chegando o Pelé e o Feola!” Nem por isso o bispo dom Vicente tornou-se dom Feola. Mas dom José ganhou o carinhoso apelido de dom Pelé, e assim passou a ser chamado pelos colegas, nos demais encontros da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil.
Na nota que emitiu sobre a morte de José Maria Pires, a CNBB enfatizou que “a fidelidade à Igreja e a corajosa posição em favor dos mais desamparados sempre marcaram passo a passo sua caminhada”. 
            Como a eternidade não espera, Dom Pelé foi a seu encontro, no último domingo, 27, na capital mineira, onde tratava de uma pneumonia. Bispo mais idoso do Brasil, pode ter achado que 98 anos de vida estavam de bom tamanho.
            Partiu, deixando, para quem quiser, a ostentação, as vaidades, os caprichos, o egoísmo, a ganância e os bens materiais, pelos quais nunca se deixou seduzir. Foi de mãos vazias, como em vida as manteve.
            No imaginário coração espiritual, certamente levou a intenção de interceder pelos humildes, os pobres, os enfermos, os oprimidos e todos os infelizes que o ajudaram cumprir com brilhantismo a sua missão terrestre.
            Carismático, o padre José Maria Pires tinha o dom de ter dons, e o exerceu na sua plenitude.

            Para nós, seus eternos e incontáveis admiradores, deixou preciosas lições, valiosos ensinamentos e uma imensa saudade, que dói.

- Diário do Rio Doce - 31.08.2017

domingo, 9 de julho de 2017

POR UM TRIZ

            Houve tempo em que o brasileiro depositava mais fé em dias melhores, em progresso e até em salvação da pátria. Época em que instituições sérias e gente de valor mantinham acesa a chama propulsora dessa crença. Mesmo nos momentos adversos, existia algo ou alguém em que se pudesse apegar. Os três poderes constituídos se valorizavam e se respeitavam mais. Caso um deles falhasse ou exorbitasse os limites em suas ações, era improvável o que o erro passasse pelo crivo dos demais. Uma decisão imperfeita do Legislativo, por exemplo, dificilmente seria aceita pelo Executivo, e vice-versa. Se o fosse, o Judiciário se incumbiria de colocar as coisas nos seus devidos lugares.
Fato é que os homens e as instituições de outrora agiam com mais discernimento, mais retidão, mais independência e, sobretudo, mais consciência de seus deveres.
            O triste cenário que agora vemos confirma essa metamorfose, que a cada dia se torna mais escancarada e cruel. Mergulhado numa corrupção sistêmica e congênita, o Brasil assiste à decadência de um modelo camuflado de democracia. E isso acontece sob o olhar perplexo e decepcionado de um povo que nele depositou esperanças de um presente tranquilo e um futuro feliz.
            Seduzidos pela ambição de poder e pelo amor ao dinheiro, muitos políticos, graduados agentes de governo e renomados empresários se envolveram num sórdido esquema criminoso. Tornaram-se bandidos de fraque.  Um processo vergonhoso, capaz de provocar inveja nas mais competentes e célebres organizações criminosas.
            Mesmo imune a decepções do gênero, a nação, a cada momento, se defronta com notícias bombásticas, dando conta de novos e inimagináveis delitos. O desapontamento, quando muito, se restringe à implicação de mais figurões que, até então, posavam de incorruptos, com ares de “acima de quaisquer suspeitas”.
            Na mira ou já nas garras da lei, estão deputados, senadores, empresários, ex-ministros, governantes e ex-governantes de todos os níveis, inclusive o atual e os dois últimos ocupantes da Presidência da República. Sinal de que, pelo menos em alguma instância, nossa justiça tem mostrado serviço.
            Talvez não houvesse explicação para tanta desesperança, se os poderes constituídos agissem com a lisura, a isenção e a autonomia que deles se espera. Mas não o fazem. Os conluios e as interferências recíprocas são recorrentes nas suas decisões, em que a troca de interesses tem sido o algoz da ética, do bom senso e da legalidade. Basta notar que o relacionamento entre Executivo e Legislativo é quase todo mantido à base do “é dando que se recebe”. Agir por ideologia, nem pensar.
O julgamento da chapa Dilma-Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral, com um resultado inteiramente contrário às evidências e aos anseios populares, mostrou que nem mesmo do Judiciário convém esperar grandes decisões corretivas. Ali ficou outra vez patente que os magistrados não podem – ou não devem – ser recomendados pelo chefe do Executivo, a bem da própria Justiça, pois isso compromete a credibilidade dos integrantes da Corte. Na ocasião, os indicados de Michel Temer foram decisivos para evitar que ele perdesse seu mandato. Mais pareciam advogados de defesa do que magistrados. Segundo os entendidos, isso está entre os fatores que influíram para que os acusados fossem absolvidos, por excesso de provas contra si.

           Coisa ruim é arquivar perspectivas e jogar a toalha, pressentindo não haver mais jeito. Quando a situação chega a esse ponto, costuma-se buscar alento na velha máxima que garante ser a esperança a última que morre. O detalhe é que a esperança brasileira está por um triz, já na UTI. Faz companhia à paciência e à tolerância, que também lá exalam seus últimos suspiros. Complicado, né?!

- Revista "Mais Mais PERFIL" - edição de junho/2017

terça-feira, 30 de maio de 2017

PEGOU MAL ...

Segundo o noticiário, a inusitada nomeação de Torquato Jardim para ministro da Justiça aconteceu pela sua fiel amizade com presidente Michel Temer, mas também em razão do bom trânsito que ele tem no Judiciário. Estando Temer prestes a ser julgado pelo Tribunal Superior Eleitoral, com risco de perder o mandato, essas justificativas, se procedentes, deixam os ministros daquela Casa em posição desconfortável. Dão margem à imaginação de que eles seriam sensíveis a pressões e influências externas. É esperar, pra ver!

- Exclusivo para o Blog

sábado, 13 de maio de 2017

NO DIA DAS MÃES, VALE A ALMA MATERNA

Por Etelmar Loureiro

Mãe, palavra mágica, de múltiplos significados. Sobre ser a regalia de dar à luz uma criança, mãe é sinônimo de tolerância, sabedoria, ensinamento, paciência, renúncia, sacrifício, desapego e tudo mais que signifique amor. Virtudes que também são próprias das pessoas que cultivam bons sentimentos. Entre essas, a mãe adotiva, a avó, a tia, a velha governanta, a babá, a professora, a médica, a enfermeira, a policial e tantas outras mulheres que, mesmo sem a experiência da concepção,  têm alma materna.  Sem esquecer os homens que, para seus filhos, são verdadeiras mães.

Um brinde, a todas e a todos que, de alguma forma, praticam o amor maternal. 

(exclusivo para o blog)

quinta-feira, 27 de abril de 2017

DÍVIDA MALÍGNA


Por Etelmar Loureiro

Apesar dos tênues sinais de recuperação que o governo tenta potencializar, o Brasil permanece sob os efeitos de uma inédita recessão econômica.
Na análise técnica, o fenômeno reflete um período de retração geral na atividade econômica, com queda nos níveis de produção e investimento, aumento do desemprego, diminuição na renda familiar, redução na taxa de lucro, elevação do número de falências e concordatas, avanço da capacidade ociosa e outros lamentáveis efeitos. Regra geral, uma economia entra em recessão após dois trimestres contínuos de queda no PIB. No caso brasileiro, esse indicador encolheu por dois anos consecutivos.  
Em maior ou menor escala, a crise tem afetado a indústria, o comércio, a prestação de serviços e todos os demais segmentos econômicos. Observadores mais argutos garantem que nem mesmo o jogo do bicho, o tráfico de drogas e o comércio do sexo foram poupados. Tá todo mundo “na pior”!
Para Henrique Meirelles, ministro da Fazenda, esse descalabro “é o resultado de uma série de políticas que levaram a economia brasileira a enfrentar a maior crise de sua história”. Diante desse panorama, ele admite haver indícios de que “será inevitável” mexer na carga tributária para cobrir o rombo orçamentário.
Essa infeliz insinuação de mais impostos provocou enérgicas reações contrárias, inclusive da Ordem dos Advogados do Brasil. Segundo Claudio Lamachia, presidente da entidade, a OAB está pronta para combater, com todos os meios disponíveis, “quaisquer iniciativas que tenham como objetivo impor mais prejuízos aos cidadãos, que não aguentam mais ver a renda corroída pela absurda carga tributária do país”.
Exausto de tanto ser explorado, o brasileiro vive buscando outras explicações e justificativas para esse desastroso estado de coisas.
            Atribui-se ao marqueteiro Nizan Guanaes a autoria da expressão “enquanto eles choram, eu vendo lenços”. Ela bem repercute a atual temporada, em que não faltam oportunistas aptos a tirar proveito da situação. Um exemplo são os bancos, que têm andado na contramão da realidade brasileira. Enquanto esse segmento está “bamburrando”, nossa economia se afunda, pressionada por falta de crescimento, empresas subumbindo ou trabalhando no vermelho, desemprego crescente e pessoas em dificuldade financeira. Pelos balanços relativos a 2016, os quatro maiores bancos brasileiros (Itaú, Bradesco, BB e Santander) lucraram, em conjunto, algo em torno de R$ 52 bilhões. Tá bom, ou quer mais?
            São muitas as razões para que esses formidáveis resultados aconteçam. Uma delas, pacificada entre os analistas, são os altissimos juros rendidos pela dívida pública, essa crescente bola de neve que consome enorme parcela do que o governo arrecada. Ou seja, o dinheiro do contribuinte está sendo usado para alimentar o lucro bilionário dos bancos.
            O peso dessa dívida e a caixa preta que a envolve têm sido objeto de questionamento, no instante em que se busca o equilíbrio das contas públicas, à custa de maiores sacrifícios do povo. A opinião geral é que, antes de mexer na aposentadoria e em outros direitos do cidadão, o governo tem a obrigação de enxugar sua escorchante dívida pública.

            Afinal  - diria o famoso Guanaes -, não há como admitir que os banqueiros continuem “vendendo lenços”, com lucros astronômicos, enquanto a sociedade, chorando enormes prejuízos, é condenada a pagar a conta. Mais do que injustiça, é muita sacanagem!

- Revista "Mais Mais PERFIL" de abril 2017

domingo, 1 de janeiro de 2017

A ARTE DA PARTILHA
Por Etelmar Loureiro

            Dividir não é fácil. Onde quer que a tarefa se imponha, ela requer habilidade, bom senso e espírito de justiça.
            Nada a ver com a repartição de pães de que falam os cristãos, nem com a divisão de bolos de aniversários, tampouco com o rateio de queijos. Nesses casos, com menores interesses em jogo, a partilha é geralmente tranquila e bem aceita. Ainda assim, costuma surgir um chato que se considera injustiçado, reclamando que outros foram mais bem aquinhoados.
            Nos meios socioeconômicos, a coisa já muda de figura. O conflito de interesses é comum entre seus participantes, nas horas de demarcar áreas de atuação e de avaliar resultados. A ganância de uns sempre se confronta com a ambição de outros.
            Mas é no mundo político que tudo se complica, e muito!
            No afã de se elegerem, os políticos fazem qualquer acordo ou negócio, com quem quer que seja. Se bobear, até com o demônio! Por sua vez, também em busca de vitória, seus partidos estabelecem alianças sustentadas em compromissos a serem honrados, se o candidato da coligação for eleito.
No início, tudo parecia legítimo e salutar. A proliferação das legendas, entretanto, converteu essas confrarias em um imenso balcão de negócios, destinado a ganhar mais espaço nos horários políticos da mídia, além de assegurar nomeações para cargos de relevância em órgãos ou empresas públicas, afora outras benesses menos ortodoxas.
Ao longo do tempo, essas alianças têm sido determinantes na reversão de cenários políticos. Basta recordar que, enquanto agiu sozinho, o PT jamais ganhou eleições. Para eleger Lula, bastou se aliar a uma legenda de extrema direita, o Partido Liberal, do já falecido senador José de Alencar. Da mesma forma, para colocar Dilma Rousseff no Planalto, não precisou mais do que se unir ao PMDB. E se manteve no poder, por longos 13 anos, graças a outras alianças esdrúxulas, que sempre se mantiveram na base do “é dando que se recebe”.
            Essa autêntica orgia política tornou-se corriqueira, tanto nas eleições majoritárias, quanto nas proporcionais. Expõe o comportamento fisiologista de legendas que se dispõem a apoiar qualquer chapa, independentemente de se alinharem em torno de ideologias ou programas, com o único objetivo de obter vantagens. Um pernicioso troca-troca de interesses, operado em clima de explícita promiscuidade.
            Tal fenômeno poderá complicar a vida dos vencedores das últimas eleições municipais, em torno dos quais se uniu um amontoado de partidos que perderam o rumo após a derrocada do PT. Em Valadares, por exemplo, nada menos de 24 legendas se juntaram para eleger o novo prefeito, André Merlo, fato inédito na história política da cidade. Uns mais, outros menos, todos devem estar de olho, quando nada, numa boa fatia do bolo que ajudaram a confeitar.
            Há fortes indícios de que essas famigeradas coligações estejam com os dias contados. Uma PEC que prevê o seu fim eleitoral, já aprovada pelo Senado, depende apenas de ser referendada pela Câmara Federal.
            Enquanto isso não acontece, é bom que os atuais e futuros administradores públicos se conscientizem de que os tempos mudaram. Na atualidade, mais do que antes, é preciso que eles consigam harmonizar o dividir com o multiplicar. É fundamental que só repartam seus mandatos com auxiliares e parceiros eficazes, eficientes, sérios e corretos, capazes de contribuir para a multiplicação de resultados. Nada de se amarrar com amigos, parentes, apadrinhados e aliados oportunistas, que só causam transtornos e aborrecimentos.
Trocando em miúdos, compartilhar o poder, com prudência e sabedoria, é multiplicar as chances de nunca compartilhar a cela. Uma arte, com certeza!

- Revista "Mais Mais PERFIL" - dezembro/2017